O sol é para todos (To kill a mockingbird) – Harper Lee

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Sempre gostei de listas, e sempre que tinha a oportunidade gostava de ver as listas do American Film Institute (AFI) no canal MGM. Em uma dessas listas, AFI’s 100 YEARS… 100 HEROES & VILLAINS, fiquei impressionado com o fato de que Atticus Finch foi escolhido como o maior herói do cinema. Eu já havia visto o filme, mas não havia prestado a devida atenção, de sorte que fiquei curioso para rever o filme e, principalmente, ler o livro.

Eis que finalmente surgiu a oportunidade de conhecer a obra de Harper Lee, romance solitário da autora, porém mais do que suficiente para inscrevê-la entre as grandes da literatura americana. Na orelha do livro há uma informação altamente suspeita que revela que em uma pesquisa feita na Inglaterra, o livro era mais popular que a Bíblia e Shakesperare…

Preparei-me involuntariamente para ler um romance popularesco, mas esforcei-me para despir-me deste preconceito ridículo. Após o término da leitura, duas observações que deixam evidente o quanto gostei do livro:

– Atticus Finch é o tipo de pai que tento ser (não exatamente, óbvio, tenho direito às minhas idiossincrasias);

– To kill a mockingbird é o tipo de livro que eu gostaria de escrever.

Quem já leu alguma coisa que escrevi no blog e conhece o livro ou o filme deve entender facilmente essas duas afirmações. Entendo como grande missão dos pais contribuir para a formação do caráter de seus filhos, e esforço-me todos os dias para estar à altura dessa responsabilidade, que é tão séria e tão recompensadora. Meio que de forma natural acabo passando isso para muito do que escrevo – até mesmo por conta do que penso como missão minha enquanto cristão, e To Kill a Mockinbird (não uso o título brasileiro porque é muito, muito diferente do original…) é um livro de “formação”, com lição e tudo, é acessível a qualquer pessoa, mas não deixa de lado a qualidade, constituindo-se uma leitura deveras prazerosa.

É narrado pela pequena Scout (ou Jean Louise Finch), a filha mais nova de Atticus Finch, advogado da pequena cidade de Maycomb. Do alto dos seus oito (quase nove) anos ela vê o mundo e vai narrando tudo que acontece, com destaque para as brincadeiras com o irmão Jem e o amigo Dill (seu “noivo”), envolvendo, em especial, o mistério de Boo Radley, e, claro, a imensa, quase onipresente figura do pai, Atticus Finch, um homem atencioso, bom ouvinte, amoroso, íntegro, corajoso, justo, paciente, enfim… não faltam bons atributos para esse homem que se diz velho demais para várias coisas.

O centro da história, que se passa nos anos 30, é a decisão de Atticus de defender um negro, Tom Robinson, acusado de ter estuprado uma moça branca. A sociedade racista não o perdoa e seus filhos descobrem como o ser humano pode ser vil, mas vêem no equilíbrio de Atticus (é assim que seus filhos também o chamam) uma lição que jamais esquecerão e que forjará o seu caráter.

Lendo o livro, lembrava de O menino do pijama listrado, já resenhado aqui no blog, que, na minha opinião, não se sustenta enquanto narrativa infantil, já que a ingenuidade (diversas vezes excessiva) do garoto se confunde muitas vezes com a voz do autor (do autor, não do narrador, que é o próprio menino), além do fato que há conclusões e reflexões levadas a termo pelo menino que não correspondem a essa mesma ingenuidade. Esse problema não ocorre em To Kill a Mockingbird. A voz de Scout soa muito natural. Mesmo as suas reflexões, seu raciocínio, sua inocência, é tudo tão orgânico que é difícil você não imaginar que Scout de fato existiu (ou existe), e que não se trata de uma personagem calculada, pensada para emocionar o leitor.

Agora vou rever com cuidado o filme, e em breve postarei o que penso do filme enquanto produto original e derivado (ou seu sucesso enquanto película e enquanto adaptação).

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4 Respostas para “O sol é para todos (To kill a mockingbird) – Harper Lee

  1. De fato, a diferença nos títulos é gritante, mas intuo que a explicação para o título original deva ser brilhante. Ainda não li o livro nem vi o filme, mas pagarei ambos os débitos no devido tempo. Digo mais: estou chocado com o grau dos elogios que tu depositaste sobre o personagem e a feitura do livro, uau! (WPC>)

  2. Pra mim, essa é uma obra bastante rara, principalmente pelo fato de ser um livro de linguagem tão acessível e concomitantemente possuir um teor tão belo e inspirador, principalmente para aqueles que desejam conduzir uma família, ou já o fazem, como no seu caso Léo. Eu não pensaria duas vezes em me espelhar em Finch para regrar minha família. Me arrisco em dizer que se tivessem existido alguns milhares de Atticus como pais de família no Brasil ao longo da história, esse país seria bastante diferente (não é exagero!). O senso de justiça desse personagem é incrível. Sem contar ainda a exposição da inocência das crianças do livro, que é algo que realmente chama a atenção, já que é extremamente difícil encontrar em nosso cotidiano crianças tão virtuosas, obedientes e cheias de imaginação como elas.

    Assisti primeiro o filme, depois li o livro. Isso foi ótimo justamente pela descrição dada aos personagens no livro combinarem PERFEITAMENTE com os atores que atuaram no filme. Ele deve ter mais ou menos um pouco mais de 2h de duração, mas a história é tão boa que em nenhum momento o filme se torna cansativo.

    Pode assistir Léo, vale muito a pena.

    • Já assisti, Artur, é um dos meus filmes favoritos. Atticus Finch foi eleito pelo American Film Institute o maior herói do cinema americano de todos os tempos, e não sem justiça.
      Gregory Peck dá vitalidade e credibilidade ao personagem. O filme está à altura do livro, sem dúvida. E concordo com você. Se houvesse mais pais como Atticus, qualquer país seria diferente, pois teria pessoas mais virtuosas.

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