Madame Bovary – Gustave Flaubert

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Li mais rapidamente do que esperava este belíssimo romance francês. Quem me impulsionou a colocá-lo à frente de outros tantos que figuram na minha interminável lista de leitura foi James Wood, no seu livro Como funciona a ficção, que se derrama em elogios a Flaubert, chamando-o mais ou menos de fundador do romance moderno. Wood analisa diversas partes de A educação sentimental, abordando especialmente os aspectos técnicos do estilo indireto livro, do qual, segundo ele, Flaubert é o insuperável mestre.

Como não dispunha (e ainda não disponho, mas é uma questão de tempo) d’A educação sentimental e havia comprado em um sebo uma edição de 2002 de Madame Bovary, decidi ingressar no universo flaubertiano pelo seu maior clássico, o que não é meu hábito, como já escrevi por aqui umas duas vezes.

Pouco sabia sobre do que tratava o romance, além do fato de a protagonista ser uma adúltera e da célebre defesa de Flaubert. O tema do adultério não me atrai particularmente, de sorte que instintivamente li o romance mais concentrado em Flaubert do que em Carlos ou Ema Bovary (esses são os nomes da versão que li, traduzida por Enrico Corvisieri).

O livro trata justamente desse casal, ele um médico, ela uma jovem sonhadora e fútil, que está eternamente insatisfeita com a sua condição, seja ela qual for. Mais adiante abordarei aspectos da trama que conterão spoilers, mas quando aí chegar, alertá-los-ei.

Logo de início chamou a minha atenção o estilo magistral de Flaubert ao narrar. Nós somos ao mesmo tempo livres para imaginar, mas se nos detivermos bem (e James Wood alerta para estes “detalhes” que não são realmente detalhes) somos é reféns do que ele escolhe dar ênfase ou não, contar ou não. Para mim, uma das páginas mais bem escritas de todo o romance, neste sentido, é quando é narrada a morte da primeira esposa de Carlos (calma, isso ainda não é spoiler, está logo no início do romance). É um exemplo belíssimo de escolhas: ele passou diversas páginas narrando episódios corriqueiros que compunham um retrato de Heloísa. Depois, em um parágrafo, fazendo questão dizer que a situação ocorrera “oito dias depois” de uma certa discussão, narra com tanta austeridade e economia a morte dela que não pude deixar de me emocionar diante de tanto talento.

Mas não só de austeridade é feito esse romance. Pelo contrário, parece até um romance experimental, mas vindo na época da maturidade. Flaubert varia, muda o ritmo, usa de diferentes técnicas, entrega-se a diálogos rápidos, outras vezes a divagações filosóficas, algumas vezes prende-se a pequenas rusgas entre o padre e o farmacêutico, outras deixa-nos notar o coveiro desconfiando que lhe estão querendo roubar as batatas! É tal o controle dele sobre toda a situação, sobre toda a trama, que o envolvimento do leitor acaba sendo total. Eu estou ali. Ema Bovary existe, Léon existe, o caramanchão existe! Flaubert parece se limitar a passar adiante uma situação que realmente ocorreu e da qual ele teria sido testemunha ocular.

Mas aí ele novamente nos passa a perna e ao falar de alguns senhores importantes e imponentes, assim se expressa:

“Os que começavam a envelhecer pareciam jovens, ao passo que na fisionomia dos mais novos notava-se alguma coisa de maduro. No olhar indiferente flutuava a quietude de paixões diariamente saciadas; e, através das maneiras discretas, transparecia a brutalidade peculiar ao domínio de coisas fáceis, nas quais a força se exercita e a vaidade se satisfaz; governar cavalos de raça e conviver com mulheres perdidas.”

Que período! Dá quase para ouvi-lo inverter essa última frase!

Ao descrever Ema, em um dos seus acessos de espiritualidade, ele mostra toda a sua capacidade e, em um pequeno parágrafo mostra o abismo que separa os grandes dos medíocres:

“Os burgueses admiravam-lhe a economia; os clientes, a polidez; os pobres, a caridade. Ela, porém, fremia de desejos, de raiva, de ódio. Aquele vestido de pregas simples escondia um coração revoltado, e aqueles lábios tão pudicos nada revelavam de seu íntimo tormento.”

Contudo, o que mais me impressionou é a linguagem muitas vezes escancaradamente cinematográfica de Flaubert, particularmente em três cenas que devem ter ficado perfeitas no cinema, já que há pelo menos três versões do filme, nenhuma das quais eu vi:

(e aqui entrarão spoilers, só avance se já leu o livro)

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1) A cena do comício, em que Rodolfo corteja Ema. São duas cenas ocorrendo simultaneamente – o discurso do subprefeito, entrecortado pelo diálogo tenso dos dois futuros amantes. Você não sabe para onde olhar (na verdade sabe, e até deixaria de ouvir o subprefeito discursar de bom grado apenas para ouvir os dois, mas Flaubert também sabe disso, e nos quer atento aos menores detalhes).

2) A cena da carruagem, com Léon e Ema e o passeio interminável. Absolutamente genial, do início ao fim. Parece ter realmente sido escrita para o cinema.

3) O almoço do doutor Larivière na casa do sr. Homais, com todas as escusas, a excitação, enquanto Ema está moribunda ali ao lado. Esta quebra de ritmo depois de tanta tensão, de tanto sofrimento, esta pausa para contemplarmos este sr. Homais que, desde a primeira vez que aparece quer ser o centro do universo é sublime… e cinematográfico.

Madame Bovary é um dos romances mais bem escritos que já li, não tenho a menor dúvida disso. Não foi o que mais me cativou pela história, que, a despeito da temática voltada para o adultério, face os castigos e humilhações enfrentados por Ema, soou bastante como uma história moral. É o apuro da técnica e a perfeição da forma que me fazem sentir privilegiado de tê-lo lido pela primeira vez. Não sei o que ocorrerá quando eu revisitá-lo.

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10 Respostas para “Madame Bovary – Gustave Flaubert

  1. Eu já havia escrito uma resenha aqui no blog (https://catalisecritica.wordpress.com/2011/02/18/madame-bovary-gustave-flaubert-2/), e nela procurei me ater mais aos personagens e a própria história, você, no entanto, procurou trazer uma nova abordagem. Realmente, a história em si não é muito interessante (bem contada, claro), o que prende verdadeiramente a nossa atenção é a inteligência e a técnica apurada do autor francês.

    Muito bom o livro.

  2. Escrevi um comentário aqui, mas se perdeu…

    Dizia eu que:

    a) preciso reler este livro urgentemente , visto que, da primeira vez que o li (e o amei), emocionei-me demais e analisei de menos (risos);

    b) acho extremamente injusto com a ótima e minuciosa descrição da personagem-título que os exegetas desta obra-prima intemporal dê tanto destaque ao adultério, quando, em minha opinião, as insatisfações e não-participações burguesas da protagonista são muito mais relevantes;

    c) já vi a versão do Renoir para o livro, mas quero ver a do Minnelli (que ousa na abordagem da apresentação do julgamrnto do autor logo no início) e a do Chabrol (que, com certeza, é mais fiel ao espírito da personagem). Ansioso por isso desde bem antes de ler o livro…

    É isso: o restante do comentário se perdeu (risos)

    WPC>

    • E eu discordo crassamente com teu irmão sobre o fato de a estória não ser interessante (humpf): o painel de época, social e moral, aqui traçado, é sublime!

      WPC>

  3. Quando coloquei “história”, referi-me ao adultério, à traição, e não ao conjunto da obra e todo o seu estudo de época.

    Cristo Jesus, tende piedade!

  4. Em outras palavras: isso não é “história”, mas um mote tramático-propagandístico hipertrofiado. Antes de clamar por tal piedade, faça por merecê-la, meu bem! (risos)

    WPC>

  5. Afinal de contas, para tu, que és formado em História, tenho certeza de que os termos ‘estória’ (como escrevi), ‘história’ e ‘entrecho’ são muito, muito diferentes… Não há mais desculpas para que nós os utilizemos indiscriminadamente…

    Mas o meu comentário responsivo foi discordância opinativa – e não um fato avaliativo. Tu podes desgostar, eu desgostar e, ainda assim, sermos felizes, cada qual em nosso canto…

    WPC>

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