Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – Marçal Aquino

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Não sei exatamente onde li sobre esse livro, mas lembro que seu título chamou minha atenção. Dizia muito sobre o que seria narrado, imaginei, e hoje, após a leitura, confirmo essa afirmação.
O nome do romance vem de um pensamento materializado em um determinado momento da trama, e a história de Marçal Aquino não é bonitinha, nem pretende se passar por tal. Desde o início ele deixa escapar augúrios, sinais, pistas que nos levem a compreender quão desastrosa foi a sua jornada e, principalmente como ele, mesmo tendo consciência disso, não voltaria atrás (e não parou, quando teve a  oportunidade).

O romance narra o envolvimento de Cauby (igual ao cantor, isso mesmo, como diria ele próprio), um fotógrafo quarentão que foi passar uma temporada no interior do Pará, e Lavínia, misteriosa mulher que tira-lhe o fôlego e deixa-o sem chão desde a primeira vez que se avistam. Tudo isso acontece enquanto na cidadezinha há um clima de tensão crescente por conta dos conflitos entre mineradores e uma grande empresa mineradora.

A obra faz jus ao título. Apesar de Cauby “antecipar” que algo de ruim vai acontecer com ele já na primeira página, a apreensão não diminui. O autor conduz a narrativa com uma habilidade espantosa. Ele consegue entremear em um só capítulo, a tensão do momento presente, as memórias de um velho com quem divide um café, e, principalmente, as suas memórias de tempos não tão distantes acerca do furacão que foi a passagem de Lavínia em sua vida. De toda a parte técnica do romance isso foi o
que mais me chamou a atenção. A fluidez que é fruto de alguém com muita experiência, que escreve com autoridade, com domínio do que quer contar.

Não há muitos floreios na sua história, e lembrei bastante de outro livro brasileiro de leitura rápida do qual gostei: O seminarista, de Rubem Fonseca (ressalto que gostei bem mais desse de Marçal Aquino).

Não parei muito para elaborar uma comparação entre os dois livros, ressalto. Essa impressão de semelhança vem muito provavelmente da absurda diferença entre os últimos quatro livros que li: Madame Bovary, de Flaubert, Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin, Areia nos Dentes, de Antonio Xerxenesky, e este, de Marçal Aquino.

Uma obra-prima da literatura, com muitos diálogos interiores, fina ironia, metáforas belíssimas e muito mais, uma obra clássica de fantasia, um romance de um jovem autor estreante, com todos os méritos e, principalmente, falhas que isso normalmente implica, e um romance de um autor experiente que quer contar uma história crua, nas palavras dele mesmo “um poema sujo de sangue”.

Marçal Aquino definitivamente entra para o rol dos autores que quero conhecer mais. Recomendo a todos que quiserem uma história adulta sobre amor, obsessão e outros objetos pontiagudos (como ele mesmo elencou no próximo livro dele que pretendo ler).

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16 Respostas para “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – Marçal Aquino

  1. Confesso que fiquei interessado. Assim como fiquei com muita vontade de ler Diário do Farol, de Ubaldo Ribeiro, após Leonardo ter feito alguns comentários sobre o livro. No entanto, diferente deste, aquele parece que não irá me desapontar.

    Ps: Acho que ele me fez lembrar do livreto de Ubaldo, pois li rapidamente um trecho e encontrei a palavra “púbis”, aí me veio à mente que o livro poderia ter também uma linguagem adulta e sem pudores.

    Esqueça… impressão minha.

  2. Não li este livro ainda, mas os roteiros dele para cinema são primorosos: trabalha muito ao lado do Beto Brant, que é arredio e genial, te recomendo!

    O título do romance é perfeito, valha-me Deus, amo títulos assim: dialogísticos!

    Para mim, dentre os escritores contemporâneos brasileiros, este fica abaixo apenas do Rubem Fonseca, que é um contista extraordinário e inextinguível!

    WPC>

  3. Putz, nem tinha atentado para a comparação (risos) – passei direto na primeira leitura: coincidência tu teres conhecido ambos os autores ao mesmo tempo. Eles se parecem muito sim, se complementam, aliás!

    WPC>

  4. Em relação ao comentário de Reinaldo: sim, têm palavrões, descrições sexuais etc. Mas não parece algo gratuito como se vê em alguns casos, mas está dentro da trama como algo natural. É um homem contando uma história de um amor obsessivo, uma história para gente grande.

    E tenho certeza absoluta: tanto Reinaldo quanto Wesley gostarão bastante do livro. Acho que Wesley um pouquinho mais…

  5. Frisando o ABSOLUTO em tua certeza.
    E, te garanto, que, enquanto amante do processo de escrita/escritura, AGOSTO, do Rubem Fonseca, é algo que tu deves ler assim que tiver tempo, visse?
    Sou fã extremado do Fonsequinha…

    WPC>

  6. É impossível não ficar fascinado pelo título, não é verdade? Isso, mais a confiança que tenho no bom gosto de Leonardo, me fizeram dar uma rápida lida nas primeiras páginas desse romance. Senti algo estranho, algo parecido com aquilo que tive ao folhear O diário do farol. Não sei explicar direito, mas algo me atraiu de tal forma a este livro, que o li em, praticamente, duas sentadas. Com o livro do Marçal Aquino o mesmo aconteceu. Acredito que tenha sido não somente pela ótima história, que é muito bem contada e envolvente, diga-se de passagem, mas pelo estilo narrativo empregado pelo autor – o qual não fica preso a muitas reflexões filosóficas, por exemplo, tornando o texto lento e cansativo. Marçal quer contar uma boa historieta, pronto, e isso foi suficiente.

    Ps: E sim, gostei bastante do romance, Leonardo, e também acho que Wesley gostará ainda mais. Leia e comprove kkkkkkkkkk

  7. Pois eu tenho plena certeza disso… Na espera, deixa o terminar o Lúcio Cardoso de teu irmão (risos)

    Mas eu discordo de teu comentário sobre as reflexões filosóficas, visse? Isto é um falso julgamento precipitado: é que tanto o Marçal Aquino quanto os gênios da corrente policial existencial e contemporaneamete politizada (num sentido menos partidário e bem mais sociológico) a que ele se filia exercita este tipo de reflexão na ‘práxis’: o mundo está se acabando, tem muito bandido no mundo (dentro de nós mesmo, inclusive). Assim sendo, não temos tempo a perder com tergiversações masturbatórias: eis o que eles alegam em suas páginas geniais, urgentes e entupidas de citações e intelectualidade ativa e sutilmente ativista!

    WPC>

  8. Eu viciei nesse livro, comecei e não parei mais, hahah, o jeito de ele contar a história, não seguindo um roteiro, pulando de um acontecimento pra outro no meio da narrativa faz você “viciar” na leitura. Bom de mais!

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