Cursiva

Um amigo do trabalho me contou que leu em algum lugar que o ensino de letras cursivas será abandonado em algum estado americano e será substituído por aulas de digitação. Tanto eu como ele achamos uma péssima ideia. O texto de Guilherme Montana, “Cursiva”, retirado do Digestivo Cultural, é um libelo contra esse pensamento por demais tecnológico. Confiram abaixo:

Ele mede algo próximo a vinte centímetros. É cilíndrico, reto e rígido. É satisfatoriamente duro para o seu diâmetro. Quebrá-lo ao meio, a julgar pelo seu aspecto simplório, linear e mesmo insosso, exige mais força do que se espera. (Fiz um teste.) Um objeto de aparência trivial. Sobretudo este entre meus dedos polegar, indicador e médio — a profana trindade das letras cursivas.


Alguns itens: parafernália cursiva.

Este lápis que seguro, que, antes de você ler estas palavras em pixels intangíveis, me ajuda a traçar todas estas linhas sobre o papel, este lápis é todo preto: a casca, o corpo e a borracha. Um objeto simples. Uma varinha. Que faz jus ao dito popular. Porque o que importa, mesmo, é a mágica que ela faz.

Antes de falar dos poderes mágicos do lápis 2B, preciso dizer que o lápis que ora uso para escrever este preâmbulo é um entre vários. A quantidade exata destes vários lápis seria 36, contando com os lápis de cor que inexplicavelmente guardo no meu estojo e cuja presença percebi apenas nesta contagem. Os lápis de cor nunca foram usados, ainda conservam o tamanho original. A maioria dos outros, porém, já foi podada. Porque eu raramente vejo um lápis meu chegar à metade do seu tamanho original. Não me pergunte por quê. Tão logo percebo um decréscimo do seu comprimento, já o troco por outro, de preferência um que ainda não tenha sido nem apontado (e o que ficou pela metade simplesmente some). Os 36 lápis de que disponho se dividem em 16 usados, 4 intactos, 2 de carpinteiro, 2 Staedtler 8B e 12 coloridos. O lápis preto de grafita que estou usando era virgem quando escrevi a primeira sentença deste texto.

Quando a digressão do parágrafo acima for reescrita, à frente do computador, usarei o teclado do notebook. Esta outra ferramenta altera tudo o que se refere à atividade psicomotora de escrever. Enquanto escrevo à mão, com um lápis 2B, é como se usasse apenas um dedo. Eu me reduzo à minha condição inata de homem destro para escrever com apenas um dedo — o grafite na ponta do lápis. É muito diferente de escrever com o teclado, tanto o da jurássica máquina de escrever quanto o de computadores, porque ele transformou todos os seres humanos em ambidestros.

Usamos as duas mãos ao teclado. Dos nossos dez dedos, oito são para caracteres, e, para quem fez o extinto curso de datilografia (como eu), cada um destes dedos, do auricular ao indicador (Aa Ss Dd Ff Gg), é responsável, em média, por quatro caracteres, entre números, letras, acentos e sinais de pontuação; sem contar com a tecla Shift e demais atalhos para caracteres especiais. Tento imaginar como Joyce lidaria com um notebook. Não sei como ele escrevia, que métodos usava. (Edmund Wilson, uma portento da produção escrita, só escrevia à mão.) Como Joyce escreveria a cena de Stephen Dedalus na praia, capítulo três de Ulysses, ou mesmo o monólogo interior de Molly Bloom, ao teclado de um notebook?

A velocidade da digitação (uma coisa, digitar; outra, datilografar) pode ser inebriante a ponto de embotar o pensamento, suponho. Sem a barreira da materialidade do papel, que é espancado enquanto se escreve, a imaterialidade da página virtual aceita cada golpe (caractere) a uma velocidade muito maior e de forma irrefreável. Então, como conjugar a atividade motora de escrever ao teclado, leve, rápida, avassaladora, com a intenção criadora de descrever o pensamento de um personagem fictício, que vive na imaginação do agente digitador e, por isso, está sujeito à mente do criador, tão caótica quanto qualquer outra — quanto à do próprio personagem que tenta animar! — ou mesmo mais caótica, visto que se trata de um artista genial?

O lápis 2B me força a me concentrar, a não me perder com a possível profusão de palavras, inteligíveis ou não, que escrever com oito dedos (mais digitando do que datilografando) podem proporcionar. Embora já tenha em mente, quando me sento à mesa e abro o caderno de notas, um — perdoe a redundância — esboço etéreo do que quero escrever, tenho de me concentrar para evitar que as explosões de imagens, ideias e sensações em minha mente destruam minha concentração. Só tenho um dedo para transcrevê-las. Um dedo primitivo.

O lápis 2B de hoje é descendente direto, não, irmão; não, o lápis 2B é ele mesmo o pedaço de pau que algum ancestral nosso usou pela primeira vez para produzir um signo numa superfície qualquer. É o mesmo pedaço de pau, mas melhorado, tunado, que usamos para executar a maior conquista do gênero humano, o signo vocabular. Curiosamente, o teclado, sobretudo o do computador, este símbolo da tecnologia ao alcance de todos, o teclado amputou o polegar opositor, justo ele, o que difere os primatas humanos de todos os outros animais. Ao teclado, o polegar é a barra de espaços, que não produz caractere visível. O uso do polegar ao teclado equivale à suspensão do lápis sobre o papel entre uma palavra e outra, à quebra do atrito entre o grafite e a celulose. Ao nada.

Só agora, quando acabo o preâmbulo e me preparo para falar das mágicas de que o lápis 2B é capaz, eu percebo que você, leitor, está no futuro. O presente sou eu, aqui, sob o abajur, no frio peculiar de Brasília, escrevendo o que mais tarde, quando eu digitar este registro e o publicar virtualmente para sua leitura, será para mim meu passado simples e para você terá sido um passado mais que perfeito. Boa leitura.

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