Martelando o dedo

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento 

Penso que escrever é meio como o processo de construção de uma casa: você pensa numa história, desenvolve-a em sua mente, e é o desenho de uma casa que se forma. Quanto maior a sua capacidade de desenvolver mentalmente os meandros da história, mais bonito será o desenho da casa, e mais arrojado o seu projeto. Há quem goste de casas pequeninas, de poucos cômodos, mas nas quais se escondem detalhes irresistíveis, que fogem a olhos desatentos. Há quem prefira construções mais ousadas, para as quais você poderia olhar e passar longos minutos imaginando se aquilo seria mesmo uma casa ou um sei-lá-o-quê. Há também quem tenha predileção por enormes mansões, repletas de cômodos, em que se encontram estilos de decoração que vão do gótico ao clássico, e onde se é possível viver histórias de uma vida inteira.

É certo, todavia, que esses desenhos mentais, essas tramas que são imaginadas na cabeça do escritor precisam, cedo ou tarde, sair deste mundo etéreo e ser transformadas em palavras, num processo demorado que é bem mais do que a inquietante agitação da pena a violar o papel e produzir, nesta união forçada, uma história que não pertence nem a um nem a outro ou, para ser mais moderno, a monótona sucessão de toques no teclado.

Neste ponto exatamente reside um grande desafio: se imaginar histórias – ou casas – é belo e um exercício prazenteiro, construí-las requer suor, mãos calejadas e habilidades bem menos românticas: é necessário, dentre outras coisas, colocar tijolo sobre tijolo, com o recheio adequado, serrar madeira, bater pregos, lembrar da fiação elétrica, das telhas, do esgoto, enfim, miríades de detalhes sem os quais a casa jamais ficará do jeito que foi imaginada – apesar de que ela nunca ficará, de qualquer maneira.

Ao escritor, portanto, segundo essa pobre analogia, cabe desempenhar papéis diversos: de arquiteto a pedreiro, de eletricista a pintor, de engenheiro a encanador, de designer de interiores a gesseiro. Não há encanto. Não há um dom que fala mais alto e perpassa toda a realidade, cabendo ao escritor apenas desligar-se do mundo, sentar-se diante do computador e deixar as palavras fluírem, num transe mágico do qual resultará mais uma obra-prima.

Há suor, marteladas no dedo, tijolos mal assentados que precisam ser urgentemente corrigidos; há mudanças de plano, afinal, aquele arquiteto louco que imaginou que dava para fazer aquela ponte ligando a cachoeira do jardim ao banheiro do casal não tinha nada na cabeça, e parece que só agora, depois de começar a botar o cimento é que ele conseguiu entender isso; há também novidades, afinal, o mesmo arquiteto percebeu, no decorrer da obra, que a sala deveria ter três ambientes, e não dois, e que o sinuca tão perto daquelas taças nunca daria certo – renderia muitos acidentes.

Às vezes eu ouso bolar histórias na minha mente. Na verdade, é bem comum que o faça. Algumas não passam de esboços simples, minimalistas. Outras me confundem e acabam se revelando casas que só têm porta de entrada. Mas há aquelas para as quais olho e, na minha análise terrivelmente comprometida, penso: que casinha bonita! Em alguns desses casos tento dar forma e cor àquela casa, e aí é que vejo como escrever é difícil, muito, muito difícil.

O estilo de arquitetar de cada escritor varia enormemente, mas, não importa quão complexo seja o projeto de cada um, a todos eles é requerida a habilidade de construir suas casas, sem a qual o único resultado da empreitada seria um arremedo, em que as janelas não abrissem, a escada não levasse a lugar nenhum, e o menor sopro derrubasse os muros e revirasse as telhas, expondo a todos a fragilidade daquela obra. É quando se separam os maus escritores dos bons escritores, que são os únicos que importam.

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4 Respostas para “Martelando o dedo

  1. Depois de ter me percebido exangue e quase insatisfeito com o que escrevi sobre o filme malickiano ontem, ler estas palavras na noite de hoje foi um ato providencial assaz consolador: agradeço à contingência divina que fez com que eu adiasse esta leitura, a fim de que, quando finalmente posta em prática, eu me sentisse completamente filiado ao teu ponto de vista destoante de minha teimosia idiossincrático acerca do ato de parir sentenças que são como verdadeiros filhos livres… Hoje eu entendi, Leonardo. Hoje, eu te dou muito mais do que razão! (WPC>)

  2. Comecei a escrever a minha história. E a primeira e a mais cruel das dúvidas me veio à mente: quem narrará a narrativa?

    Pouco me preocupei com o ponto de partida, por exemplo. Nesse momento escrevo uma das mais diversas situações. nada temporal. Apenas estou escrevendo um dos vários momentos. Mas me vejo na angustiante dúvida: seria melhor em primeira pessoa ou terceira? Quem conta e como?

    E quanto ao estilo? Outra dúvida. A minha história funcionaria melhor no estilo machão, rápido e sem “arrudeios” de Cormac McCarthy ou o estilo descritivo e “noir” de Dashiell Hammett.

    Help me. Somebody, help me.

    Ps: Primeiramente: aprenda a escrever kkkkkkkkkkkkkk depois pense em “imitar” os gênios.
    Ps: Respondendo a mim mesmo: para tudo tem um começo. Viver tem dessas.

    • Eu simplesmente escrevo. Não penso no estilo que usarei para escrever, porque aí jamais conseguirei ter um estilo. Tento contar a história da maneira mais simples possível, preocupando-me menos com as palavras que com os fatos. E o fundamental: estou tentando levar a literatura a sério, o que implica ler, reler, não se contentar com mais ou menos…

  3. Escrever é algo interessante. Quanto mais você escreve, mais você percebe que não sabe escrever. Interessante porque, como você disse, o conjunto é que faz a obra. Ter uma ótima ideia deve estar aliada a um ótimo desenvolvimento de trama e o “artista” deve estar de bem com a gramática, logicamente. Esse é um ponto que me toca mais forte por conta de minha atual leitura.

    Comprei de uma iniciante nas artes que conheci no skoob. Um livro de aventura. Resolvi dar o meu apoio e comprei o livro. Estou quase na metade, e se percebem duas coisas: Ela tem criatividade e talento para descrever, mas peca muito por não ter intimidade com a língua. Há vários erros de semântica, sintaxe que você percebe que se deve por falta de… leitura. Antes do que tudo escrever é ler. E re-ler. Como disse Neil Gaiman: escreva tudo que você tem na cabeça. Mas depois disso temos que re-escrever tudo de novo. E de novo. E de novo…

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