Dália Negra – James Ellroy

José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

James Ellroy construiu o seu primeiro romance baseado na história real de uma não muito talentosa garota que desejava o estrelismo de Hollywood e que foi morta de forma extremamente violenta: Elisabeth Short, a Dália Negra (assim batizada pelos tabloides americanos por estar sempre trajada com vestidos de cor preta).

Utilizando-se de suas próprias experiências – viciado, delinqüente, traumatizado com a morte violenta da própria mãe -, e tendo como pano de fundo o acontecimento verídico supracitado, Ellroy escreveu um conciso e bem estruturado romance de estréia, que tem como duas característica literárias: a capacidade de não empolgar e de não conferir veracidade à obsessão do protagonista pelo homicídio que investiga.

Em suma, o livro é bom? Vale a pensa ser folheado e lido?

Sim, vale.

O que dizer sobre o estilo narrativo?

Bem, imaginem-se tendo que conversar com um policial/ex-boxeador/quase culto/feliz na escolha das palavras/bom amante a respeito dos seus avanços nas investigações de um crime brutal. Imaginaram? Agora pensem que, além da conversa/entrevista, vocês teriam de gravar todo o diálogo e depois transcrever para o papel. O resultado? A forma visceral que é contada o Dália Negra: a vida como ela realmente é.

O texto é narrado em primeira pessoa pelo ex-boxeador e agora policial, Dwight Bucky Bleichert: grande lutador; perspicaz detetive; bom amante. Um homem sem muitas firulas e quase nenhum “arrudeio”. Envolvido até onde não mais devia no caso Dália, Bucky passa a freqüentar os mais inusitados e perigosos ambientes a procura de pistas que o levassem a concretas respostas a respeito do crime cometido contra a jovem Elizabeth. E nesse enlameado percurso, o protagonista se envolve com políticos corruptos, cafetões, diretores de filmes pornôs, com a esposa do melhor amigo (Kay), e com a filha de um grande magnta do ramo imobiliário (Madeleine).

Digo com sinceridade: fiquei na dúvida entre o gostar e odiar. Mas depois de dar uma chance ao autor (sinto-me muito mal quando chego a pensar em desistir de uma leitura iniciada), e continuar a leitura, resolvi, então, que Dália Negra entraria na minha lista de livros que nos mostram um pouco mais a respeito da vida e de como ela precisa ser realmente contada.

– Meu marido era rico e bonito e dançava charleston como um deus. Amei-o até descobrir que me traía, e agora estou começando a amá-lo de novo. É tão estranho.

– Não é tão estranho – falei.

– Que idade você tem, Bucky?

– Trinta e dois.

– Bem, eu tenho cinquenta e um, e acho que é estranho, então é estranho. Não devia ser tão condescendente com o coração humano na sua idade. Devia ter ilusões.

– Está brincando? Sou um tira. Tiras não têm ilusões. (p. 326)

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3 Respostas para “Dália Negra – James Ellroy

  1. Nao tenho vontade de ler esse tipo de livro. Pra se utilizar de uma visao crua do mundo, ou ate mesmo fazer afirmaçoes desse tipo: “o mundo e assim”, o autor deve ser, ou muito bom, para disfarçar esse tipo de coisa, ou o livro deve ter uma ideia original, que de suporte a afirmaçao. Bem, mais um livro. No futuro, quem sabe?

  2. Detalhe. Senti falta das frases de efeito, do tipo:

    ” – Vou fazer uma coisa agora totalmente idiota mas vou fazer assim mesmo. Se eu não voltar diz à minha mãe que eu a amo.

    – Sua mãe morreu Llwelyn.
    – Então eu mesmo digo.

    ou ainda:

    “Como poderia Guy – um homem forte, com nervos de aço, para quem a violência era como somar um mais um – ser ameaçado por um gordo perfumado e asmático?”

    Ps: cada um com o seu estilo diferenciado?
    PS2: Eu sempre pensei que todo “Noir” deveria, obrigatoriamente, ter esse tipo frase de efeito. Viver tem dessas.

  3. Pingback: A mulher do bandido – Dashell Hammett « Catálise Crítica

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