O único final feliz para uma história de amor é um acidente – João Paulo Cuenca

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Pequena novela habilmente formatada pela editora para “caber” num livro, esta história foi o meu primeiro contato com o escritor carioca João Paulo Cuenca. Faz parte da minha busca por autores contemporâneos brasileiros – uma busca que, frise-se, tem se revelado deveras auspiciosa.

Fiz questão de destacar o termo novela e a ginástica promovida pela editora porque este foi um dos aspectos que me causaram má impressão. Não que eu acredite que a qualidade de um livro dependa do número de páginas, e A Metamorfose e Uma criatura dócil são apenas dois pequenos exemplos do contrário. É que neste caso houve uma tentativa de manipulação evidente por parte da editora. É só folhear o livro para ver. São microcapítulos e muitas, muitas páginas em branco e pela metade. De tão intrigado que fiquei por esta situação, fiz um cálculo do número de palavras do livro e cheguei a cerca de quinze mil. Fosse o livro formatado de maneira “tradicional”, sem os citados recursos alongadores, ele não passaria de cinquenta páginas, um terço do total de páginas da edição que comprei. Assim, o leitor adquire um conto longo/novela por um romance, o que considero uma desonestidade da editora.

Trata-se, contudo de uma excelente história, e, a despeito de a maneira não-linear, ultramoderna (na falta de arcabouço teórico para usar um termo mais adequado) não ser a minha favorita, o talento de João Paulo Cuenca é evidente. Ele sabe se utilizar bem demais dos recursos que escolheu. As repetições, os momentos mais insanos, mesmo os poemas, a variação narrativa. Consegue construir com habilidade a figura de Shunsuke Okuda, personagem central, da polonesa-romena Iulana Romiszowska , seu interesse amoroso, de seu pai, o eterno rival Lagosta Okuda, e até mesmo da boneca Yoshiko, apesar de a ignorância dela a respeito de alguns conceitos básicos me pareça forçada.

O livro conta uma história de amor entre Shunsuke e a garçonete Iulana Romiszowska, que por sua vez está apaixonada pela dançarina/garota de programa, com quem divide quarto. Ambientado numa Tóquio surreal, vigiada pelo seu pai, que é ao mesmo tempo uma espécie de gângster e grande irmão e poeta, é difícil não imaginar que boa parte dos exageros presentes na trama (e são muitos, com direito até a uma aparição de Gyodai, o ampliador de monstros de Changemab) não seja fruto da mente perturbada de Shunsuke, que nunca conseguiu se relacionar bem com o pai, a quem vê como uma espécie de monstro todo-poderoso.

O único final feliz para uma história de amor é um acidente foi uma bela introdução ao universo de J. P. Cuenca, elogiadíssimo escritor brasileiro. Decerto relerei em breve esta novela e, encontrando algum outro livro seu nas prateleiras de uma livraria, não perderei a oportunidade de comprá-lo.

Ah, e o fugu (ou baiacu) da capa tem um papel simbólico relevante na trama. Leiam e descubram.

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3 Respostas para “O único final feliz para uma história de amor é um acidente – João Paulo Cuenca

  1. Já havíamos conversado sobre o livro.

    Graficamente o livro é realmente muito bonito. Bela capa e encadernação, uma boa formatação. Feita, como você mesmo disse, para um leitor de primeira viagem ler e se impressionar por tê-lo acabado tão rápido. Espaçamento grande entre as linhas, margens gigantes, e capítulos de meia página..

    Mas enfim, sobre o livro: Me pareceu um bom tema. Gostei das idéias originais. Não está na minha lista das metas para esse ano, mas quem sabe no ano que vem eu não me decida por ele?

    • Que fique bem claro: as minhas restrições quanto às estratégias mercadológicas da editora em nada diminuem a bela impressão que tive da história. É muito bem contada e J. P. Cuenca entrou na minha lista de bons autores nacionais.

  2. Pingback: 72 Horas para Morrer – Ricardo Ragazzo « Catálise Crítica

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