Os Desvalidos – Francisco J. C. Dantas

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Lendo Os Desvalidos, de Francisco J. C. Dantas, encontrava-me de tal modo impressionado pelo extremo talento do escritor sergipano de Riachão do Dantas, que mandei uma mensagem para meu irmão:

“É o Faulkner de Sergipe, o McCarthy (Cormac) nordestino!”

Não vou entrar aqui no mérito da literatura comparada, não tenho mais do que admiração pelos citados escritores americanos. A questão é que admiro muito o cuidado dos dois em construir belas imagens, seja por meio de metáforas, comparações, ou simplesmente pela escolha de determinados substantivos em detrimento de outros. Os Desvalidos é de tal forma poderoso que fico cansado só de imaginar o seu processo de escrita. Enquanto progredia na leitura tive o mesmo sentimento de respeito e admiração que tive quando vi A Fuga das Galinhas e descobri que toda a animação foi feita quadro a quadro, num número superior a cem mil tomadas: Francisco J. C. Dantas não escreve, ele desenha, compõe, esculpe, pinta, cantarola, ilustra, enfim, qualquer verbo que possa ser associado à mais fina arte pode ser usado aqui, porque o cuidado e a atenção permanecem o mesmo durante todo o livro. Não se trata de aqui ou ali ser possível identificar passagens belas, bem trabalhadas. Do começo ao fim o esmero é o mesmo!

Gostaria de ter esse livro em versão digitalizada apenas para contar o número de vocábulos aqui utilizados, porque são muitos, muitos mesmo! Que linguagem rica, que brilho em cada frase!

Há um elevadíssimo grau de erudição que se mescla de maneira absolutamente orgânica ao linguajar sertanejo, resultando em passagens estonteantes como essa:

Veja só, minha gente, o maquinismo da vida, mal rodado a mancal e manivela! Nem bem o povinho descarado abre a boca a maldar de tio Filipe, espalhando o burburinho de sua fraqueza, eis que lhe aparece Maria Melona, numa noitada de pagode apimentado, e cantoria animada. Uma criatura de corpo solto e bem-apanhado, cor de castanha, troncuda e bem arreada, cabelão cacheado! Molecona desempenada e peituda, com uma patoca de carmim em cada banda do rosto, e a brasa do olho redondão desvelando o felino apetite! A tio Filipe, não podia caber nada de mais oportuno e apropriado, visto que dela manava um cacho de tentação que enfim lhe atiça o corpo em fogueira! Começa a lhe sorrir já demudado, numa mesura galante de cortejo: prega os olhinhos miúdos no crepitar que ela, e adivinha num relance, naqueles braços roliços, a redenção da macheza, enganchada no seu segredo.

Contando a história de Coriolano e do casal formado por seu tio Filipe e Maria Melona no interior sergipano, nos tempos violentos de Lampião, Os Desvalidos fala de sonhos não realizados, da angústia de quem não consegue mudar a sua história. Francisco J. C. Dantas mostra que medos, mágoas, humilhações, privações, solidão e incompreensão não são exclusivas do sertanejo simples, que vive a adivinhar a presença de Lampião ou da polícia, ambos igualmente ameaçadores. O próprio rei do cangaço vive seus dramas e tem seu quinhão de incertezas e é, à sua própria maneira, um desvalido.

O que mais me chamou a atenção na prosa do sergipano é a sonoridade. O livro parece ter sido escrito para ser lido em voz alta. Se você pega um trecho aleatoriamente e experimenta fazer a leitura, vê como as palavras combinam, ganham força e ritmo, e cantam quase em verso aquelas histórias desvalidas. Vejam o exemplo abaixo, um dos trechos mais bonitos que já li:

Aqui solto ao relento, derrubado na pedra agora esfriada pelo sereno ralinho, estremece o corpo de Virgulino, antes de algum passarinho piar e se bulir. Embora a cabeça já se ocupe com o diabo da fuga a ser encaminhada, o corpo se deixa ficar mais um instante carecendo de agrado, como se não tivesse força pra se levantar antes de ser servido com as imagens suspiradas que se embocam no cerne dos sentidos: ele e Santinha no bojo daquela primeira noite calorenta, sem terem nunca um no outro encostado. Estão a dois passos separados, e todinha ela palpita ante o olho do homem grelado de volúpia. Ele quer preveni-la de que nunca o traia, de que jamais lhe passe contrabando. Mas a boca apertada não se abre, menino sem governo, ante ela maravilhado! Já vai arriando o mando, o destrato do rigor, a se entregar adoçado como se fosse cordeiro… Ele suspende a mão num aceno chamativo, e ela se deixa encandear no brilho dos anéis, sem saber se é uma ordem, uma súplica, uma pergunta, ou um agrado. O rodado do olho são atiça a vontade dela, que vai desatando os grampos dos cabelos, e tira os pés das alpercatas, já adivinhando o seu intento, pois não há nada secreto a encobrir. Esta nudez nascida nos extremos leva ao parceiro um súbito tremor de esganação. Zumbem os besouros e os dois se adornam juntos no lençol feito de folhas. Os desmazelos desta vida em andanças contrariada, parece que se endireitam, e o que era grão de poeira vira pingo de orvalho. Olham de lado contra um sussurro suspeito, e se descobrem protegidos a espinhos de macambira e sabres de xique-xique. Há um cheiro de frutas e raízes que se levantam dos arbustos arrancados e da folhagem amassada. De onde vem essa toada repinicada de aromas? O homem faz finca-pé nas nuvens e se arremessa no mais fundo de seu poço. Golpeiam-se na doçura suculenta dos açoites. O indicador do cangaceiro se ajusta no florido dedal da costureira. Corre um gosto de laranja de umbigo espinhada a pau de canela que dá gosto na comida. Enroscados num caracol convulsivo, geme o casal empapado de gozo e de suor, numa arrancada estalando pelo corpo. Estão unidos por esse clarume atônito, emparceirados para sempre sangue a sangue, sem saber que um dia vencerão a própria morte manada da traição: viverão nas cabeças decepadas que são troféus para os grandes da nação; viverão no gomo do pescoço arroletado, como lição pra quem seja rebelado.

Leio isso e fico orgulhoso de saber que aqui em Sergipe há quem tenha tanta arte. Termino com mais uma passagem belíssima que extrapola o tempo e geografia para situar-se como uma das minhas passagens favoritas de todos os tempos, por tanto se parecer com algo que eu mesmo já disse há dez anos:

De repente, se refreia de vez, bico calado, como se lhe acudisse alguma desgraça, e se derrama em borbulhas de vexame e apreensão, suando frio afundado em pesadelo, sujeito a bote de cobra e mordida de cachorro, sem pernas pra se livrar. Encalacra-se em tremeliques, com um barrufo de faíscas pelo peito, os olhos miúdos num marejo, o nariz de pássaro às arfadas, a maçã do rosto porejando, agora se recobrindo de um borrão avermelhado. Abre a boca, entropica, pensa uma coisa e diz outra. Para já correndo do assunto. Desgoverna. Enfim, rasgando a palha do capucho, o algodão da vozinha se anima, e o coitado, na fornalha da cegueira, aferventado, se atira de pernas pro ar, pelo vagido que se desentranha num suspiro pulado da garganta:

– Você quer ser feliz comigo?

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7 Respostas para “Os Desvalidos – Francisco J. C. Dantas

  1. Tu não sabes o quanto esta postagem me enche de um encanto mui particular, meu caro Leonardo: por motivos diferentes dos teus – e também pelos mesmos – fui absolutamente arrebatado e rasgado por esta obra-prima literária mundialmente perfeita! Tive acesso ao livro por ocasião comparativa de uma peça teatral encenada há alguns anos na UFS, numa noite de chuva, pasme! Mas, ainda assim, muito verossímil em toda a sua secura… e, Deus do céu, fui fisgado, transportado para aqueles cenários áridos, para aquele tempo de injustiças e honra, para aquele caleidoscópio de amores e pecados justificados pelas fomes mais cruéis de que se tem notícia… Livro supremo, magnífico, perfeito, sob qualquer aspecto que se julgue.

    Tive o desprivilégio supra-comparativo de ver um filme baseado nele, chamado CANTA MARIA, e, Cristo rei, que abominação: não veja (risos), se não quiseres mugir de ódio! (WPC>)

  2. Pretendo ler, sem dúvida. Faulkner e Cormac (e Dosoievski kkkkkkkkkkkk, claro) são os melhores na minha “urmide” opinião.

    Sei que irei gostar muito do Dantas (ajuda também a proximidade nos temas e a região).

    ps: mas ainda tenho Os Demônios na lista.

  3. Prezado José Leonardo, fiquei admirado ao ler o seu comentário sobre “Os Desvalidos” de Francisco Dantas.
    Tenho acompanhado a obra deste ilustre sergipano.
    Considero-o um mágico da escrita.
    Parabéns.

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  7. As citações me deixaram ébrio de felicidade ! Como bem dizes, é musicalidade intensa a prosa deste romancista. E a temática também me encanta.Sem dúvida alguma, eis uma resenha que dá uma vontade irresistível de ler o livro em pauta. Parabéns e obrigado !

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