O sangue na pedra

Peço desculpas a todos que acompanham o nosso blog pela minha falta no dia de ontem, quarta-feira, 12/10/2011. Deveria ter postado um conto como vinha fazendo regularmente há algum tempo, mas esqueci. Lembrei-me pela manhã. Estava resolvido a postar, todavia, fiquei procrastinando e… Esqueci.

O sangue na pedra

Quando Samuel entrou no Coqueiros Bar na tarde de terça-feira, o sol acabava de atingir o zênite. Ele desmontou e amarrou o cavalo no esteio e entrou no bar e disse Bom dia à clientela e ao dono – um senhor de meia idade, meia altura e meio simpático, que lustrava um copo de vidro atrás do balcão. Bom dia, Seu Samuel, ele disse, e sorriu sob o espesso bigode preto. Samuel acenou com a cabeça e foi para a sua mesa no canto e ficou observando quem entrava e quem saia.

Colocou a mão no bolso da camisa de botão e tirou cinqüenta centavos e atirou sobre a mesa e levantou o indicador. O dono do bar trouxe uma garrafa de cambuí e um copo e colocou uma dose e subtraiu os centavos da mesa. Quanto tempo, ele disse.

Visitar uma parentagem.

Sei.  

E como andam os negócios?

Bem. Graças a Deus.

Graças a Deus.

Vai bater muito milho?

Na faixa dos 40 sacos por tarefa.

Bom, muito bom. Graças a Deus.

É. Graças a Deus.

Ainda cria carneiro, porco, galinha?

Não, deixei. Muito trabalho.

O proprietário fez que sim. Bem, deixe eu ir cuidar da minha vida.

Certo.

Qualquer coisa…

Certo.

O dono do bar virou as costas para Samuel e voltou para o balcão e ficou a olhar volta e meia para ele. Vai sair merda disso, ele deve ter pensado.

Samuel ficou sentado ali por cerca de trinta minutos. Apenas um trago. Ele ia assim, observando, como quem não quer nada, feito bicho que dorme no sereno, silencioso, quando um homem muito moço, magro, de olhar debochado, cabelo ruivo, trajado num tênis branco, grande, de corrida, e uma camisa regata azul e um short comprido e largo, entrou aos tropicões no bar chamando a sua atenção.

Cuidado aí, rapaz, disse o dono do bar. Alguns clientes se entreolharam. Outros, mais corajosos, olharam diretamente para Samuel – fitando-o bem mais do que mandam as boas maneiras. O homem apenas disse Licença e se sentou no banco encostado ao balcão e pediu uma Coca. Diet, ele disse.

Como? perguntou o dono do bar.

Eu disse Diet.

Diet o quê?

A Coca. Eu quero Diet.

Tenho desse não. Tenho só Coca-cola mesmo.

Certo. Então me vê uma bem gelada.

O dono do bar fez que sim com a cabeça e foi até a geladeira e olhou lá dentro e fechou de novo. Olhou dentro do freezer e tirou a Coca-cola mais gelada. Voltou ao balcão e colocou a garrafa em frente ao homem e arrancou a tampa com o abridor de garrafas que ficava amarrado com um cordão de náilon ao redor do pescoço. Aqui, ele disse, e empurrou a garrafa para junto do homem ao ponto de ele precisar apará-la.

Valeu coruja.

Do canto, Samuel observava. Quieto. Impassível. Ficou sentado por mais quinze minutos. Não tirou os olhos do homem nem quando espirrou. Saúde, disse alguém do seu lado. Posso sentar com você? perguntou o homem, e já foi sentando e dizendo Obrigado.

Que calor, né?

É.

O senhor não é daqui não, né?

Não.

Posso apostar que é filho de Pinhão.

Não.

O senhor é como o meu falecido pai.

O velho tinha trinta centímetros?

O homem riu desbragadamente. A clientela e o dono olharam para ele. O senhor é engraçado, ele disse, e voltou a rir, com entusiasmo afetado e contido. Mas não era isso não. É que ele fazia igual ao senhor.

Quê.

Só se sentava com as costas pra parede, como você está agora.

Hum, sei…

É. Igual… Ele dizia que se sentia mais seguro assim… É, mais seguro… Igual ao meu pai… A propósito, o senhor num teria umas moedas sobrando para me pagar um trago não, né?

De repente, Samuel se ergueu e meteu a mão no bolso da calça. O homem o observou com os olhos arregalados. Tirou um cigarro e se sentou na cadeira outra vez. Enquanto colocava o cigarro na boca e acendia o fósforo, viu o homem do refrigerante se levantar, pagar a conta e sair por onde entrou.

O dono do bar seguiu-o com os olhos até ele sumir por detrás da parede. Alguns clientes fizeram o mesmo. Samuel fez um ar de quem, meticuloso, calcula e tira um valor. Então, ergueu-se mais uma vez, olhou para baixo e disse por detrás do cigarro Não, não tenho, e pressionando a brasa do cigarro com violência na mesa, apagou-o e atravessou empertigado o salão.

Passou pela porta, desamarrou as rédeas do animal, colocou o pé no estribo, subiu na sela e estalou a língua para o cavalo andar, deixando para trás os espectadores transidos de admiração pelo momentâneo drama da partida. Vai sair merda disso eles devem ter pensado.

Ele deixou a cidade para trás e seguiu a trote pela estrada principal. Adiante, uns cem metros, avistou o homem do refrigerante. Com um forte sopapo, incitou o cavalo a um passo mais animado, fazendo a poeira se agitar sob os cascos e formar atrás uma nuvem preguiçosa.

O caminho seguia por entre cercas e milharais secos; mais além – depois dos campos recém-abertos ou sendo abertos – o céu azul transparente estendia-se em direção a manchas de mata verdejante, entremeadas de aroeiras e angicos.

O homem do refrigerante olhou por detrás do ombro e viu que a poucos metros alguém se aproximava a cavalo. Ele estancou e ficou a esperar. Boa tarde, ele disse.

Boa.

O senhor se importaria de me dar uma carona?

Num sei se o pangaré agüenta.

Certo.

O homem do refrigerante deu-lhe as costas e, resmungando, seguiu o seu caminho.

Espere, disse Samuel.

Mudou de idéia?

A cincha está frouxa. Aperte que a gente dá um jeito.

O homem do refrigerante se aproximou, abaixou-se sob a barriga do cavalo e catou a cincha e puxou com força, dando alguns sopapos no animal. Seria melhor sem o senhor ai, ele disse.

Faça o seu trabalho.

Samuel ficou sentado no cavalo, perfeita e furiosamente imóvel, uma mão sobre a parte mais alta da sela e outra no revólver, contemplando a criatura sob o seu olhar. Seu rosto, oval e seco, cuja fisionomia parecia ter sido talhada por um formão de fio cego em madeira, exibiu por um instante uma ternura serena.

Em silêncio, tirou o revólver da cintura, mirou a nuca do homem e atirou. O disparo reboou uma, duas, três vezes. Depois, veio o silêncio. Observou-o cair sob os pés do cavalo. Observou o sangue na pedra. As pernas dobradas. O corpo encolhido. A posição semifetal. Soltou um suspiro e fechou os olhos com força e abriu-os de novo e meteu a arma no cinto na altura das costas e olhou na direção da estrada.  Olhou para trás. Ninguém. Estalou a língua e incitou o cavalo uma última vez. Toca pra frente!, disse. Toca pra frente.

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