Coisas de prefeitura

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Estou sentado de frente para o monitor do computador. Uma senhora me aparece à porta e pergunta O prefeito está?

Não. Veio hoje não.

Sabe quando ele vem?

Não, minha senhora.

Certo.

Percebo o olhar de insatisfação. Matuto uma desculpa razoável. A questão, minha senhora, é que ele não tem uma agenda fixa. Ele não pode, por exemplo, dizer que virá amanhã, porque talvez ele precise viajar para Salvador sem prévio aviso, entendeu?

Ela baixa a cabeça e olha para o lado e então responde Entendo. Muito obrigado.

Disponha.

Ela vai embora. Dez minutos depois está de volta. Você é Alexandre?

Não. Na sala ao lado. Secretário de Administração.

Entro na sala com a xícara de chá e sento novamente à mesa. Trinta minutos depois Alexandre me vem com a pergunta Você ouviu a conversa?

Pela metade, disse.

A mulher veio conversar com George. Queria que ele resolvesse um problema dela.

Do tipo financeiro?

Não. Do tipo Filhos.

Entrecerro os olhos. Não consegui captar.

A filha dela de 17 anos casou no civil e foi morar com o marido.

Que bom…

Essa senhora quer por que quer que a gente – nesse caso George (como, eu não sei) – convença a filha a morar com ela novamente. Com marido e tudo, não tem problemas. Mas precisa ser impreterivelmente na casa dela.

É sério isso?

Não tenha dúvidas, meu caro. Perguntei a ela. Minha senhora, ele bateu na sua filha? Ela disse Não. Eles vivem bem? Ela disse Sim. A senhora tinha plena consciência do casório? Ela disse Sim. Minha senhora, nós não podemos fazer nada. Como é que o prefeito vai ajudar a senhora nessa situação?

E ela?

Bem, bufando, levantou-se num salto, caminhou até a porta aos resmungos, estancou sob o vão e, voltando-se para trás, perfurou-me com aqueles olhos foscos e então, para por fim àquela cena dantesca, vociferou: As eleições estão vindo aí.

Emudeci ante aquelas palavras. Movimentei os dedos sobre o teclado, como se estivesse a compor uma bela canção, na tentativa de espairecer os pensamentos, pensei alguma coisa, levantei a sobrancelha direita, olhei para Alexandre e disse O que é isso, Casos de família, agora?

Ele riu. Eu ri. Ele voltou para a sala dele. Eu retomei os trabalhos.

Viver tem dessas, pensei.  

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Uma resposta para “Coisas de prefeitura

  1. O que me consola. meu caro, num contexto como este, é que eu tenho certeza de que este tipo de barbaridade já foi ensaiada por ti, enquanto espectador, aqui no DAA (hehehehe) – E, nesse sentido, imaginar que a tua personagem real, com certeza mais humilde, sincera e/ou necessitada que os mimados daqui, realmente acreditava no que estava dizendo nem me consola: glupt!

    Viver tem destas, meu bem, ah, tem mesmo!

    WPC>

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