Linhas encarnadas

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo. Graciliano Ramos, Vidas Secas.

O menino está cabisbaixo, olha os pés cobertos pela camaratuba, a enxada preguiçosa, sem a menor vontade de enfrentar aquela terra. O rosto rubicundo do sol quase meridiano carrega insatisfação marejada de suor, e ele nem começou a trabalhar.

Nascer na roça é uma merda.

Queria era ler, ficar deitado no sofá, os pés descalços para cima a receber lambidas da aragem refrescante que vem da janela aberta,os olhos famintos a percorrer linhas que revelam aventuras, desenham casas e as destroem, traçam destinos, unem e separam pessoas, salvam mundos.

Caneta de pobre é enxada.

Ao invés de linhas de tinta preta gravadas no papel branco, transformaria o verde dos matos que atrapalhavam o milho no encarnado da terra revolvida por meio de golpes firmes da ferramenta campesina.

Trabalhar sob esse sol quente é maldade.

Levanta a cabeça e apruma o corpo, apoia-se no cabo da enxada, lembra do que o pai pensa disso (só preguiçoso dá de mamar à enxada) e agradece por estar sozinho, mas tem vontade de chorar, que a preguiça é grande. Seu lado cristão sussurra um arrependimento e emprega alguma energia para afastar o enfado. Lembra que é bom filho, mira o pai, trabalhador incansável, sempre a inventar algum serviço, um lutador. E afinal só trabalhará até meio-dia, que não pode faltar à escola. Olha a roça e obriga-se a ver a beleza do verde, os pés de milho viçosos flertando com o vento, o ronronar das folhas a balançar, o azul do céu, as jaqueiras, gigantes paralíticas de cabeleira revolta. É um belo quadro. Fecha os olhos e tira o boné, inclina a cabeça para trás como se fosse receber a água batismal. Recebe é o imediato açoite do sol, mas o vento bondoso passa fazendo curativo e o menino se abandona, um mundo inteiro ao seu alcance entre os pés de milho. Respira fundo uma, duas, três vezes e o peito comprime-se em dor, mas é uma dor que não é dor porque não dói como quando as formigas mordem os pés. É mais uma tristeza, mas que também não é tão triste porque ele sabe que tem uma família boa e que não passa fome. É talvez, finalmente, uma sede enregelante de se ver repetido, de não sair do lugar. Não é a garganta que seca, é a cabeça, é a palavra, e na roça não há água que chegue, nem na escola também. Tem vontade de se sentar, mas não quer ser mau, o pai mandou trabalhar e com raiva e com preguiça ele vai trabalhar. Queria que o irmão mais velho não estivesse doente. Ele é mais corajoso, os dois trabalhando o tempo passaria mais rápido.

Um urubu passa muito alto e ele lembra do avião que viu há uns dias. Quantas histórias carregava aquele risco no céu ele se perguntara muitas vezes e teve muita vontade de um dia andar de avião, mas ficou triste quando lembrou que quem é do chão não se trepa. Essa lembrança de desejo frustrado trouxe à tona outras querenças. Queria ter um carro. Conhecer outros países, ver o oceano. Falar inglês, aprender a reconhecer as constelações no céu sem lua, desenhar olhando a pessoa, ter um livro de poesia, ter muitos livros, ter um quarto só seu com uma prateleira grande para guardar esses livros. Queria ter nascido em outro lugar onde não precisasse trabalhar, onde pudesse ganhar presentes de Natal e pudesse brincar quando quisesse, ler o dia todo, ter a farda nova da escola, uma caneta de quatro cores.

Esse serviço não se acaba.

Fere a terra mergulhado em devaneios, parando para um serviço mais minucioso num ou noutro pé de milho. Deixa atrás de si pegadas sobre a terra e o mato, ele próprio um bandeirante, escrevendo uma história miúda de espigas vindouras, cada enxadada a possibilidade de um inverno melhor. O suor pinga do nariz e salifica os lábios. Escorre pela costeleta, alcança o pescoço, encharca a camisa de algodão. A enxada puxa a terra para os pés, que dançam com agilidade, esquivando-se como podem, os chinelos uma proteção frugal para os carrapichos que vão morrendo no caminho. Avança renitente, um menino derrotando uma floresta, um livro que vai sendo escrito até que chegue a hora de ir à escola.

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6 Respostas para “Linhas encarnadas

  1. Uma ótima maneira de dizer que vai aos “Isteites”; que hoje tem condições de ter livros aos montes; que pode comprar farda bonita para o filho e presentes no natal (ah, e canetas de quatro cores).

    Ps: Muito bonito e agradável de ser ler o seu texto. Cool.
    .

  2. Lindo, Léo!
    “…os pés de milho viçosos flertando com o vento, o ronronar das folhas a balançar, o azul do céu, as jaqueiras, gigantes paralíticas de cabeleira revolta.”

    E nem precisava mais do que isso pra ser 🙂

  3. Pingback: Melhores Momentos – 2011 « Catálise Crítica

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