Vidas Secas – Graciliano Ramos

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Romance bastante curto, mas que causa grande impacto, Vidas Secas, publicado em 1938, narra a história de Fabiano e sua família de retirantes. Assolados pela seca, eles vivem de um lado para outro, rondando pelo sertão, tendo sempre a morte nos seus calcanhares. Vivendo em pobreza quase absoluta, não esperam nada da vida, apenas ir levando. Um dos maiores sonhos de Sinhá Vitória, por exemplo, é ter uma cama de couro onde dormir, já que o estrado de varas onde dorme é por demais incômodo. Mas o dinheiro não dá, e quando ele até aparece um pouco a vida trata de ser cruel e Fabiano se envolve num imbróglio que envolve uma cachaça, um jogo de cartas e um soldado amarelo e termina em mais uma das muitas situações humilhantes pelas quais costuma passar.

A narrativa é conduzida com maestria por Graciliano, e cada membro da família – Fabiano, sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e até Baleia, a cadela – tem direito a voz. É particularmente tocante – e famoso – o episódio destinado a Baleia. O mesmo ocorre quando os meninos se expressam, confusos diante de um mundo grande que ainda assim é menor que uma palavra:

“O inferno devia estar cheio de jararacas e suçuaranas, e as pessoas que moravam lá recebiam cocorotes, puxões de orelhas e pancadas com bainha de faca.”

Mas é mesmo Fabiano que dá tom à trama. Ele é mostrado como um homem de raciocínio extremamente limitado – basta sua mulher expressar uma ideia um pouco mais articulada para ele se perder, não entendendo nada do que ela quis dizer – e que não tem forças para tomar as decisões que julga necessárias. É um homem angustiado, maltratado pela vida, e Graciliano Ramos preocupa-se em mostrá-lo como ele é. Já no início do livro, num dos momentos mais difíceis que eles atravessam, quando já perderam quase toda a esperança, um dos filhos desfalece, de fome e sede e cansaço, e, ao invés de ter uma palavra de pai, Fabiano grita “Anda, condenado do diabo!”, para em seguida espancá-lo e desejar matá-lo ou mesmo abandoná-lo ali no chão, para os urubus. Só depois se arrepende e toma o filho nos braços.

Essa cena mostra com quem estamos lidando. Graciliano quer contar uma história, não criar heróis. Não se trata de gente melhor ou pior que qualquer outro sertanejo que por ali vivesse. Eles lutam contra o chão, contra o sol, contra a própria ignorância, contra a desonestidade dos ricos, contra a tristeza e, principalmente, contra a miséria. Fabiano nem sabe conversar. Quando tem que falar, se confunde, se atrapalha, tenta emular, sem sucesso, o discurso de um compadre esclarecido seu. Quando fala à mulher, é com interjeições monossilábicas. Só fala muito consigo mesmo, pensando, fazendo planos, para depois concluir:

“Tolice, quem é do chão não se trepa.”

Ainda há espaço no romance para a crítica social: o patrão é cruel e desonesto, ludibriando claramente Fabiano. Mesmo quando Sinhá Vitória demonstra que o cálculo do salário está errado, o patrão acaba ameaçando enxotá-lo e Fabiano, vendo-se sem alternativa, conforma-se, entregando-se a um regime de escravidão:

“Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não dava. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos?”

O romance ainda aponta para o futuro: que destino terão os meninos, que mundo os espera? Triste, Fabiano projeta seu fracasso neles:

 “Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo.”

A leitura é rápida, mas a reflexão, não. É um livro para ser lido e relido, para ser ruminado, apreciado a cada frase. Nada ali está por acaso, e depois de 73 anos, o romance está ainda mais forte. Um clássico brasileiro, um brilhante exemplar da boa literatura.

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4 Respostas para “Vidas Secas – Graciliano Ramos

  1. Tenho até medo de ler este livro…
    Sou fã do filme, da estória, dos personagens, de tudo, mas… Ler o romance em si me enche de medo:pois sei o que encontrarei a li. Até o raiar deste ano eu me corrijo neste sentido, te dou a minha palavra!

    WPC>

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