Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Quando eu li Meridiano de Sangue ou O Rubor Crepuscular no Oeste, pela primeira vez, o romance estava inevitavelmente cercado por uma aura de grandeza: eu havia lido Onde os velhos não têm vez e A estrada, do mesmo McCarthy, e sabia que sua obra-prima era Meridiano, principalmente por conta dos gigantes elogios de Harold Bloom, que disse que nenhum autor vivo americano havia produzido algo tão forte e tão representativo da moderna literatura americana. O mesmo crítico havia dito que a primeira leitura da obra o assustara e só quando a releu ela adquiriu novo significado, crescendo perante seus olhos.

Escolhi Meridiano de Sangue para reler por um impulso: estava indo a São Paulo e enfrentaria muitas horas de avião e de ônibus, oportunidades em que a leitura se torna obrigatória. Vasculhei a estante em busca de algum livro e peguei, meio sem pensar, o livro de McCarthy, que narra a história de Kid (infelizmente na tradução brasileira eles mantém o nome Kid, quando, na minha opinião, deveriam traduzir para “garoto” ou “menino”, já que ele permanece sem nome durante toda a história, só mudando para “homem” quando chega à idade da maturidade), um jovem que, sem nome e sem família, percorre o oeste americano, indo parar num grupo de mercenários que é pago para conseguir escalpos de índios. Esse grupo é liderado por Glanton, um louco inspirado em um personagem real, e que tem a constante companhia do Juiz Holden, um dos personagens mais interessantes que já vi: ele é albino, não tem um pelo no corpo, fala todos os idiomas, tem mais de 2,10m de altura, força quase incalculável, dança, canta, escreve, desenha, enfim, faz qualquer coisa que um humano possa fazer tão bem quanto seja possível a um humano. E acredita na violência como o deus, como a vocação suprema do ser humano.

O kid convive com esses dois loucos e outros personagens, como um ex-padre e David Brown, um homem violento que usa um colar de orelhas humanas (e são muitas orelhas neste colar).

Eles vivem vagando pelo deserto: ou estão buscando índios para matar ou estão fugindo deles. Enfrentam sol e neve, calor e frio, fome, sede, mas encontram fartura. O que mais encontram, contudo, é a violência, que é a personagem principal do romance de McCarthy. Não há piedade, não há complacência nem espaço para um ato bom sequer. Todas as personagens são guiadas por algo maior que suas vontades e, como insetos são atraídos pela luz, eles descambam para a violência, mesmo quando tentam fugir dela.

É, ademais, um livro escrito por um escultor, um arquiteto de belas imagens. A capacidade de McCarthy de descrever os cenários deslumbrantes do oeste americano é estarrecedora. E sua maior qualidade, ao meu ver, é conciliar essas descrições com os atos das personagens, criando passagens memoráveis, como:

“Agora são chegados os dias de mendicância, dias de roubo. Dias de cavalgar aonde nenhuma outra alma se aventurou senão ele. Deixou para trás a terra dos pinheirais e o sol crepuscular desce perante seus olhos além de uma baixada sem-fim e a escuridão cai por aqui como um estrondo de um trovão e um vento gelado faz o mato bater os dentes. O céu noturno espraia-se tão coberto de estrelas que mal há espaços negros e elas caem à noite em arcos melancólicos e são em tal quantidade que seu número não diminui.”

Os diálogos são um capítulo à parte em McCarthy. Há um fino humor, uma ironia seca, áspera, árida como o deserto onde aquelas pessoas vivem e que é realçada pela ausência dos marcadores dos diálogos (travessão, aspas, mesmo os dois pontos, as vírgulas):

“A sorte tem andado meio ruim pro seu lado, não filho? disse.

A sorte não tem andado pro meu lado.”

Para quem ama a boa literatura e gosta de histórias bem contadas, Meridiano de Sangue é leitura obrigatória, amostra da mais fina arte. Recomendo totalmente e já aguardo ansioso o momento da próxima releitura.

P.S.: Mais sobre Meridiano de Sangue aqui e aqui.

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5 Respostas para “Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy

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  5. Terminei a alguns dias o “Onde os velhos não tem vez” do Mccarthy. Gostei tanto que encomendei de uma vez “Meridiano de sangue” e “A estrada”. Não preciso lê-los pra ter a convicção de que vou gostar de ambos. Um dos meus autores favoritos desde já..hehe

    Vcs (os 3 irmãos, rs) pensam em comentar/resenhar os outros livros já lidos dele? Será interessante saber vossas opiniões.

    Até +!

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