Coisas de prefeitura – 2

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Novamente na minha cadeira, em frente ao computador. Mas dessa vez não estava sozinho. Na minha sala, uma senhora gorda, com pernas que mais pareciam garrafas viradas de cabeça para baixo, questionava-me se a sua licença havia sido deferida ou não.

Será que o prefeito já assinou?

Não sei, disse. Mas vou ligar agora para o Setor de Pessoal e perguntar. Um momento… Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. Tirei o telefone do gancho e disquei. Ramal 21. Aguardei alguns instantes. Antes de iniciar a ligação – propriamente dita -, me aparece, à porta, uma idosa carregando uma sacola plástica de supermercado. Miúda, cara chupada, chapéu de palha, vestido puído e desbotado com desenho de flores (por que os velhos gostam de usar vestidos com desenhos de flores? pensei). É você o irmão do prefeito?

Ele mesmo. O que desejas?

Ela entra na sala e invade o território proibido. Sem mesmo pestanejar, vai de encontro ao bom senso, às normas que padronizam o aqui é meu lugar, e aí é o seu. Respeite essa fronteira e seremos sempre amigos”. Ela simplesmente rodeia a mesa do computador e para ao meu lado. Pois já que o prefeito não está, me disseram lá embaixo que você é a mesma coisa dele. Que você vai me ajudar.

Não entendi, mas…

Meu filho: faça um favorzinho a essa véinha: compre esses remedinhos pra mim – ela disse isso enquanto enfiava a mão na sacola e tirava algumas receitas.

Senhora, eu não posso…

Pode, pode sim. Você é irmão do prefeito. É a mesma coisa de ser ele, ser você aqui. Ele não é o seu irmão?

É, mas… É diferente. Ele é o meu irmão e é prefeito. Na situação, aqui, sou um mero empregado. Não sou somente um dos irmãos.

É, é sim. Ajude essa véinha…

Minha senhora, eu não posso não. Posso fazer apenas o que ele manda. O que o secretário aqui ao lado manda. Esse tipo de coisa, de pedido, só com ele mesmo… E…

Pode sim, pode sim… Conheço sua avó, Josefa. Seu avô, Antônio. Já comprei fumo com ele… Fiz muita farinha… Sei quem é sua mãe… Gente boa… Seu pai também… Ajude, ajude…

Mas minha senhora… Não é ruindade da minha parte, entenda. Tente compreender. É que eu não posso mesmo.

Me compre… Pelo amor de Deus…

Não posso não, minha senhora.

Me compre…

Sem nem mesmo cotar até 10, ela alteou a voz e esbravejou:

Pobre tem tudo é que se arrombar mesmo. Tive 11 filhos. Sete estão vivos. Dois morreram de morte matada. Os outros são bandidos. Tudo safado… Lá pra São Paulo. Pobre lá é gente… Tenho uma ferida aqui na perna por causa de um câncer… Um corte feio… Ninguém presta não nessa terra…

Mantive-me em silêncio.

Pelo amor de Deus, meu fiinho… Ajude, ajude…

A idosa voltou-se para mim com um olhar triste, pidão, desanimado, marejado por parcas lágrimas (Cristo! parece o Gato de Botas, pensei).

Ajude essa véinha…

Posso não, disse, meneando a cabeça.

Ajude…

De repente, ela encostou o corpo um pouco mais em mim, no meu braço direito – pude sentir o seu hálito e quase enxergar a sua cor.

Você está acanhado, ela disse, aproximando-se ainda mais. Roçando o meu ombro com o seu braço esquálido. Vamo ali no quarto que eu mostro a você o corte na perna – e apontou para a porta que dava acesso à sala do prefeito.

Não, não. Pelo amor de Deus, minha senhora. Precisa não. Eu acredito. Não se preocupe.

Olhei para o lado e gesticulei com as sobrancelhas para a senhora que aguardava atenta a minha ligação. Ela entendeu alguma coisa e decidiu que seria melhor para nós três deixar o recinto. (Não faça isso, pensei).

Então, me compre esses remedinhos… Ajude essa véinha…

É isso que a senhora não está entendendo. Se eu pudesse, ajudaria com maior prazer. Mas é que eu não posso mesmo…

Ajude…

De súbito, ela colocou a mão no meu ombro e aproximou a boca e os dentes amarelos no meu ouvido e sussurrou:

Eu tenho um peito só. Sou arrombada. Fudida mesmo. Tenho nada na vida não. Pensa que eu to mentindo. Você quer ver, eu mostro…

Não minha senhora… pelo amor de Deus…

Quando dei por mim, já era tarde. Ela tinha levantado a blusa. Uma senhora dos seus 90 anos. Branca. 11 filhos. Pobre (ser velho é estar morto, pensei). Imaginem o que eu vi.

Ela foi embora. A senhora com as pernas de litro também. Levantei-me e fui buscar uma xícara de chá. Disse Bom dia a primeira pessoa que vi. Você ouviu? perguntei.

Mas eu ri tanto…

Fiquei com medo de ela me jogar um feitiço, uma macumba, eu disse. Ela encostou do meu lado e colocou a boca no meu ouvido – isso antes de sair – e então me veio com essa: Não conte essa minha história pra ninguém, está me ouvindo bem? Ninguém.

Jesus!!! Menino, ali é uma rata…

Hum?

Uma rata. Se a gente não ficar de olho, leva tudo que tiver na frente.

Mas eu ri muito…

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3 Respostas para “Coisas de prefeitura – 2

  1. Não sei se o seu objetivo ao adicionar esse “ri muito…” é dar um toque de humor a essa tragédia grotesca.
    Reconheço o imenso potencial literário dessa narrativa (pouco trabalhado, na minha opinião, já que penso que você deveria se esmerar mais na construção dos diálogos e da ação). Reconhecer isso, contudo, é ser extremamente insensível, já que esta situação – que de engraçada não tem nada – é real e envolve a perda da humanidade de uma senhora que já viu nessa vida mais coisas do que eu e você juntos, coisas que só a maltrataram e que foram diminuindo a sua condição de ser humano até que restasse só o esboço maldito que dançou em sua frente. Eu não queria passar por isso jamais, e sei que essa é uma pequena, ínfima amostra do que George passar cotidianamente. É um fardo pesado, pesado demais.
    Só penso em quão inadequada seria a minha reação a cada cena dessas.

  2. Sobre o que conversávamos:
    Entendo o que você quis dizer sobre a arte e sobre um texto com características literárias. Mas não era essa a minha intenção. Definitivamente. Como na outra história, quis somente apresentar o que aconteceu comigo. Para tanto, claro, precisei escrever o texto dessa forma. Esse principalmente.
    E o final, não foi para deixar a cena “engraçada”. Aconteceu isso mesmo. A frase é essa. E se foi tudo verdade o que a idosa me disse: nesse momento não faz diferença. E se tem sentido isso tudo: idem.

    Aconteceu comigo.

  3. Pois eu não ri nem um pingo.
    Tudo isso me doeu por dentro…
    Já estive em ambos os lados do tal balcão e não saí emocionalmente incólume de nenhuma das duas situações…

    Por mais que o final chistoso tente criar uma ponte com o genial ARRASTE-ME PARA O INFERNO, que aborda uma situação mui similar de incompreensão, eu não ri, eu padeci, eu me vi, e doeu!

    Tenho pena de ratos, Reinaldo: estes são, de fato, os que precisam de nossa ajuda!

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