Uma história do Juiz Holden – Cormac McCarthy

Escrevi recentemente sobre a minha releitura de Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy. Há no livro uma história contada por uma das grandes personagens da literatura, o Juiz Holden. Para quem não leu o livro, é uma boa oportunidade de ter contato com o que permeia o mundo do velho americano, além de saborear um pouco da sua preciosíssima prosa:

 

Nas terras oestes das Alleghenies há alguns anos quando ali ainda era uma vastidão solitária havia um homem que mantinha uma loja de arreios junto à estrada Federal. Ele seguia nisso porque era seu ofício e contudo não ganhava quase nada com aquilo pois muito raramente algum viajante passava pelo lugar. Desse modo com o tempo adquiriu o hábito de se vestir de índio e se postar alguns quilômetros da oficina e esperar ali na beira da estrada para perguntar a quem quer que viesse por aquele caminho se não lhe daria algum dinheiro. Até então não fizera mal algum a ninguém.
Um dia um certo homem apareceu e o seleiro ataviado em suas contas penas saiu de trás de sua árvore e pediu a esse certo homem algumas moedas. Este era um homem jovem e se recusou e tendo percebido que o seleiro era um homem branco se dirigiu a ele de uma forma que o deixou envergonhado de modo que o seleiro convidou o homem a visitar sua morada a alguns quilômetros de distância na estrada.
Esse seleiro vivia em uma casa que construíra de cortiça e tinha esposa e dois filhos todos os quais o reputavam louco e só estava à espera de uma chance de fugir dele e daquele lugar ermo onde ele os enfiara. Desse modo deram as boas-vindas ao convidado e a mulher serviu-lhe uma refeição. Mas enquanto comia o velho começou outra vez a mendigar dinheiro e disse como eram pobres o que de fato eram e o viajante escutou suas palavras melífluas e então tirou duas moedas cuja cunhagem o velho nunca vira e o velho tomou as moedas e as examinou e as mostrou para seu filho e o estranho terminou a refeição e disse para o velho que ele podia ficar com aquelas moedas.
Mas a ingratidão é mais incomum do que vocês imaginam e o seleiro não se deu por satisfeito e começou a perguntar se o outro porventura não teria mais uma moeda daquelas para a sua esposa. O viajante empurrou o prato e virou em sua cadeira e assou um sabão no velho e conforme lhe aplicava essa descompostura o velho escutou coisas que costumava saber mas esquecera e ainda escutou algumas outras coisas novas de quebra. O viajante concluiu dizendo ao velho que ele era um caso perdido perante Deus e perante os homens e continuaria assim enquanto não acolhesse o próximo em seu coração assim como acolheria a si mesmo caso desse com sua própria pessoa sofrendo necessidade em algum lugar deserto do mundo.
Pois bem, enquanto concluía esse discurso passou pela estrada um preto puxando um carro funerário para um outro igual a ele e o carro estava pintado de rosa e o preto estava vestido com roupas de todas as cores como um palhaço carnavalesco e o jovem apontou aquele preto que passava na estrada e disse que até mesmo um negroide preto…
Aqui o juiz fez uma pausa. Estivera contemplando o fogo e ergueu a cabeça e olhou em torno. Sua narrativa era muito à maneira de uma récita. Ele não perdera o fio da meada. Sorriu para os ouvintes em volta.
Disse que até mesmo um negroide preto maluco nada mais era que um homem entre outros homens. E então o filho do velho se levantou e aí foi sua vez de começar um sermão, apontando para a estrada e revindicando que um lugar fosse posto à mesa para o negro. Ele usou essas palavras. Que um lugar fosse posto. Claro que a essa altura o negro e o carro funerário já haviam sumido de vista.
Com isso o velho teve uma recaída e admitiu contrito e solene que o rapaz tinha razão e a velha sentada perto do fogo quedava pasma com tudo isso que ouvira e quando o convidado anunciou que era chegada a hora de partir ela tinha lágrimas nos olhos e a garotinha saiu de trás da cama e se agarrou às roupas dele.
O velho se ofereceu para acompanhá-lo pela estrada e conduzi-lo em parte de sua jornada e também para aconselhá-lo quanto ao rumo a tomar e qual não tomar numa certa bifurcação pois dificilmente haveria alguma sinalização naquela parte do mundo.
Conforme caminhavam conversaram sobre a vida em paragens tão ermas onde as pessoas que você encontrava encontrava apenas uma vez para então nunca mais e assim de pouquinho em pouquinho chegaram à bifurcação na estrada e aqui o viajante disse ao velho que lhe fizera companhia por tempo suficiente e despediram-se um do outro e o estranho seguiu seu caminho. Mas o seleiro pareceu incapaz de tolerar a perda de sua companhia e o chamou e foi com ele um pouco mais além pela estrada. E de pouquinho em pouquinho chegaram a um lugar onde a estrada sumia na escuridão de uma floresta profunda e nesse ponto o velho matou o viajante. Ele o matou com uma pedra e tomou suas roupas e tomou seu relógio e seu dinheiro e o enterrou numa cova rasa na beira da estrada. E então foi para casa.
No caminho rasgou as próprias roupas e infligiu ferimentos a si mesmo com um sílex e contou à esposa que haviam sido surpreendidos por ladrões e que o jovem viajante fora morto e só ele escapara. Ela começou a chorar e depois de algum tempo obrigou-o a levá-la ao lugar do ocorrido e colheu a prímula brava que crescia em abundância naquelas redondezas e pôs as flores sobre as pedras e ali voltou inúmeras vezes até que lhe chegasse a velhice.
O seleiro não viveu para ver seu filho crescer e nunca mais fez mal algum a quem quer que fosse. Quando estava em seu leito de morte mandou chamar o rapaz e contou a ele o que fizera. E o filho disse que o perdoava se tal lhe competia fazê-lo e o velho disse que a ele competia fazê-lo e depois morreu.
Mas o rapaz não sentia pena pois tinha inveja do homem morto e antes de ir embora visitou aquele lugar e removeu as pedras e desencavou os ossos e os espalhou pela floresta e então foi embora. Foi embora para o oeste e se tornou ele próprio um assassino de homens.
A velha continuava viva nessa época e nada sabia do que se passara e achou que animais selvagens haviam escavado e espalhado os ossos. Pode ter acontecido de não ter encontrado todos os ossos, mas os que encontrou ela devolveu à cova e os cobriu e empilhou as pedras sobre eles e depois levou flores ao lugar como antes. Quando ficou velha contava às pessoas que era seu filho enterrado ali e talvez a essa altura assim fosse de fato.
(…)
Havia uma jovem noiva à espera do viajante com cujos ossos estamos familiarizados e ela carregava uma criança em seu ventre que era o filho do viajante. Pois bem, esse filho de um pai cuja existência nesse mundo é histórica e especulativa até mesmo antes que o filho nele adentrasse está em maus lençóis. Por toda a vida ele carrega diante de si a imagem de uma perfeição que jamais conseguirá atingir. O pai morto defraudou o filho de seu patrimônio. Pois é à morte do pai que um filho tem direito e é ela que lhe constitui a herança, mais do que seus bens. Ele não ouvirá a respeito dos modos vis e mesquinhos que endureceram o homem em vida. Não o verá se debatendo em meio às estultícias de sua própria maquinação. Não. O mundo que herda lhe presta falso testemunho. Ele está esmagado perante um deus insensível e jamais encontrará seu caminho
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Uma resposta para “Uma história do Juiz Holden – Cormac McCarthy

  1. Não lerei a estória para não estragar o meu espanto diante do livro como um todo, que é um anseio recente (quando puderes me enviar, estou querendo), mas adianto que, em A PELE QUE HABITO, há uma homenagem da trilha sonora ao autor Cormac McCarthy. Veja o filme (te recomendo por mais de um motivo, lógico) e identifique – hehehehe

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