A Mula by William Faulkner

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Faz um tempinho que postei aqui no blog um texto sobre o romance Sartoris, de William Faulkner, e em meio a muita coisa que não foi escrita pelo autor (mas que me ajudou a entender um pouco mais aqueles que me cercam (vide post aqui) – principalmente o meu falecido avô), uma que ele escreveu me deixou perplexo, extasiado, impressionado. Esse grande escritor resolveu, simplesmente, homenagear as Mulas. Isso mesmo, esse animal aparentemente sem muita personalidade. É simplesmente fantástico e – por que não? – emocionante.

“A descaroçadeira estava funcionando regularmente havia um mês agora, abastecida como o algodão dos Sartoris e de outros fazendeiros no vale mais além, e também dos pequenos sitiantes que plantavam nas encostas dos morros. A propriedade dos Sartoris era cultivada pelo sistema de parceria. A maioria dos colonos já colhera o algodão, e também o milho tardio; e nos fins de tarde, como o veranico sobre a terra e uma antiga tristeza pungente como fumaça de madeira queimada no ar parado, Bayard e Narcissa saíam de carro para passear ali onde, ao lado de uma nascente na beira da mata, os negros levavam suas espiguetas e produziam coletivamente o xarope de sorgo para o inverno. Um dos negros, uma espécie de patriarca dos colonos, era dono de uma moenda e da mula que lhe proporcionava a força motriz. Ele cuidava da moagem e supervisionava o cozimento da seiva em troca de uma parte; quando Bayard e Narcissa ali chegavam, a mula estava labutando em seu circulo monótono e paciente, as patas farfalhando no bagaço ressecado, enquanto um dos netos do patriarca alimentava a moenda com cana.

Uma volta atrás da outra, interminavelmente, ia a mula, colocando delicadamente suas patas estreitas como as de uma corça sobre o farfalhante leito de bagaço, seu pescoço meneando dócil como um pedaço de mangueira de borracha na coelheira, com as flancos arranhando e as orelhas pendentes e sem vida, e os olhos semicerrados dormitando malevolentemente atrás de pálidas pálpebras, aparentemente embaladas pela monotonia de seu próprio movimento. Algum Homero das plantações de algodão deveria cantar a saga da mula e de sua importância para o Sul. Foi ela, mais do que qualquer outra criatura ou coisa, que, fiel à terra quando todo o resto cedia da onda inexorável dos acontecimentos, impermeável às condições que abateram os corações humanos devido a sua rancorosa e paciente preocupação como o presente imediato, resgatou o Sul prostrado de sob o tacão de ferro da Reconstrução e voltou a infundir-lhe orgulho por meio da humildade e da coragem na superação da adversidade; que conseguiu o que era quase impossível, a despeito de dificuldades desesperadoras, graças a uma paciência absoluta e vingativa. Não se assemelha nem à mãe e nem ao PI, e jamais terá filhos e filhas; vingativa e paciente (é fato comprovado que é capaz de labutar de bom grado e com paciência durante uma década, em troca do privilégio de escoicear uma única vez o seu dono); solitária mas sem altivez, autônoma mas sem vaidade; até sua voz é um escárnio. Proscrita e pária, não tem amigo, esposa, amante ou namorado; solitária e imaculada, não habita coluna nem gruta no deserto, tampouco é atormentada por tentações, flagelada por sonhos ou assaltada por visões; a fé, a esperança e a caridade não fazem parte de seu mundo. Misantrópica, ela se esfalfa durante seis dias da semana em prol de uma criatura que odeia, atada com correias a outra criatura que desprezava, e passa o sétimo dia dando e recebendo coices de seus companheiros. Mal compreendia até mesmo por aquela criatura, o negro que a conduz, cujos impulsos e processos mentais mais de perto se assemelham aos dela, a mula realiza ações incompreensíveis em ambientes estranhos; ela proporciona alimento não apenas para uma raça, mas para toda uma forma de comportamento; dócil, seu legado é cozido e deslocado de si, juntamente com sua alma, em uma fabrica de cola. Feia, incansável e perversa, não é movida por razão nem adulação, tampouco pela promessa de recompensa; ela realiza suas tarefas humildes e monótonas sem se queixar, e tem como paga apenas pancadas. Em vida, é arrastada pelo mundo, alvo da zombaria geral; não é chorada, nem honrada, nem cantada; seu esqueleto desajeitado e acusador se desfaz alvacento em meio a latas enferrujadas, cacos de louça e pneus velhos em encostas solitárias enquanto sua carne é levada para as alturas azuladas nas garras dos abutres”. (pág. 300-302)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s