Bangalô – Marcelo Mirisola

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Comprei Bangalô no Coquetel da Cultura por dois motivos: a indicação de Fúria, prestativo e culto funcionário do sebo (que já havia tirado uns cinquenta livros das estantes para me mostrar) e porque o livro foi publicado pela Editora 34, o que para mim traz um referencial implícito de qualidade.

Li rapidamente e do livro também posso dizer duas coisas: de um lado, apesar de ser evidentemente obra de ficção, a narrativa incomoda-me (eu, católico convicto, tradicional, ordeiro, ortodoxo etc.). Não me atrai nem enfeitiça uma história como essas, e jamais entrará no meu rol de leituras favoritas. Por outro lado, há de se reconhecer a capacidade narrativa de Marcelo Mirisola. Ele inventa memórias para um louco pervertido doente revoltado viciado angustiado. Com êxito. O fluxo de pensamentos que ele transcreve é insano, o que seria, em teoria, fácil de fazer, mas o que mais impressiona é que a soma das insanidades narradas dá um romance! Ele escreve como um louco, mas não é um louco escrevendo (detesto essas brincadeirinhas textuais, mas essa é inevitável para o que quero transmitir). Ele é dono da narrativa, usa a técnica com maestria e no romance tudo é planejado, calculado, medido: toda a desordem é pensada.

O livro é narrado a partir do bangalô em que o narrador, um homem melancólico ao extremo, sustentado pela mãe, viciado, alcoólatra, obcecado por sexo e amargurado por algum relacionamento que não deu certo, detona o mundo. Ele é preconceituoso e odeia todos que o rodeiam, mas só derrama esse ódio nas suas fantasias, nos seus devaneios, porque no seu dia-a-dia ele só observa os barquinhos e diz frases politicamente corretas a Frank, o artista homossexual que lhe alugou o bangalô.

Repleto de violência, sexo e escatologia, o livro incomoda: o narrador não se prende a limites, não tem medo de correr riscos. Como exercício literário, contudo, é bom ter contato com um livro desses, que foge do óbvio sem perder a qualidade. Não venderei meus bens para ter toda a obra de Marcelo Mirisola, mas se aparecer um livro seu na minha frente sei que se trata de literatura de qualidade e que não perderei meu tempo lendo.

Para encerrar, um exemplo da filosofia do narrador:

Aliás, por falar em tédio, enrabação, esquecimentos, milagres & afins, eu creio que o perdão é a soma de tudo isso multiplicado pelos horrores do castigo. O mais veemente e sadomasoquista apelo cristão. Um estupro da alma. Uma vez que perdoar é reconhecer a violência cometida e ter que revivê-la como se fosse um milagre (a contragosto…), isto é, voltar-se contra si em favor do sacana que lhe pede nada mais nada menos que o sublime. Ultrajante, o perdão. Sublime

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5 Respostas para “Bangalô – Marcelo Mirisola

  1. A tua indicação direcionada via celular já me era suficiente enquanto percepção de que sim, eu me identificarei num livro como este, mas a admoestação acerca do perdão no final da citação que escolheste é um primor: preciso conhecer este tal de Marcelo Mirisola, portanto! (WPC>)

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