Melhores Momentos – 2011

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

No ano passado fizemos um ranking que era para ser de melhores postagens e acabou sendo de melhores acontecimentos do ano na vida de cada um. Nesta edição de 2011 limitar-me-ei ao que foi postado no blog, separando em duas categorias:  livros lidos e contos que escrevi.

Contos

Comecei o ano escrevendo alguns contos como exercícios de uma oficina de contos de José Castello, disponível no Portal Literal. Além desses, escrevi dois contos especificamente para servirem de suporte a pregações religiosas que fiz (Em família e Nadir) e o restante veio por iniciativa própria mesmo.

Destaco os contos a seguir:

8 – Em família –

7 – Nadir –

Ambos os contos foram escritos, como adiantei acima, tendo como objetivo narrar a história durante uma pregação religiosa que eu faria. Assim, pensei eu quando escrevi, mataria dois coelhos com uma só cajadada: praticaria a escrita e elaboraria o alicerce para a reflexão que eu queria desenvolver na pregação. O tema de ambos os contos é a parábola dos frutos /talentos. A velha (e muito cara para mim) história de que a quem muito for dado, muito será cobrado. No conto Em família a abordagem é a eficácia da ação de cada um: o que tenho feito tem rendido frutos? Meu exemplo, minha vida serve como boa referência, ajuda a tornar as pessoas melhores? Já no conto Nadir, narrado do ponto de vista de uma criança, a mensagem é evidente: não se pode enterrar os seus talentos.

6 – O rosto no espelho –

5 – Barulho interno –

4 – Uma experiência nova –

3 – Cinquenta –

Esses quatro contos foram escritos para a citada oficina de contos de José Castello. Para cada conto eram dadas instruções, premissas, orientações, direções, de sorte que não havia muita liberdade. “Estranho” que os quatro acabaram tendo um elemento comum, a minha “marca”, se assim posso dizer: reflexões morais. Gosto especialmente do resultado de Cinquenta e Uma experiência nova.

2 – Esperto e meio, dois espertos –

Escrito a partir de memórias pessoais (a história de como meu pai, há mais de vinte anos, armou uma arapuca gigante para parar uma raposa que estava aterrorizando o galinheiro da minha avó), o objetivo ao escrever o conto era repassar essa história para meu filho. O resultado (apesar de ainda me ver tentado a reescrever muito do conto) não poderia ter sido melhor: quando li o conto para meu filho (sem dizer a ele quem havia escrito) ele riu muito, emocionou-se muito, envolveu-se muito.

1 – Linhas encarnadas –

Lembrar é um exercício prazeroso, mesmo que seja aquele prazer que dói um pouquinho no peito. Nostalgia, palavra com a qual não me dou muito bem, mas que teima em me visitar, especialmente nessas minhas incursões literárias. Trabalhei bastante na roça quando criança, até vir morar em Aracaju, aos dezesseis, para estudar na UFS. Minha rotina era, na primeira metade do ano, ir com a enxada no ombro para a roça logo cedo e trabalhar até perto de meio-dia, “limpando os matos do milho”, como a gente dizia, ou traduzindo, eliminando as ervas daninhas que cresciam entre os pés do milho. Minhas memórias em relação a isso são todas doces, dulcíssimas. Agradeço todos os dias a Deus por meus pais, por terem me criado assim, trabalhando. À época, naturalmente, eu não gostava tanto assim. As memórias deste conto são parte inventada, parte reconstruídas para caberem na mente de um menininho de uns dez anos.

Livros que li

Li trinta e seis livros este ano e uma observação atenta da lista revela algumas tendências minhas enquanto leitor que eu não tinha percebido:

– Metade dos livros que li (18) é de autores brasileiros. Ao todo, li 15 autores, sendo 11 deles contemporâneos! Essa descoberta da literatura brasileira atual (e muito boa) foi um dos grandes marcos desse ano para mim. Se eu corria de autores brasileiros, hoje fuço procurando conhecer novos bons escritores. Que o digam os livros de Antonio Torres, Patrícia Melo, Raimundo Carrero e João Antonio (este, obviamente, não é um novo escritor, mas é um grande meio deixado de lado) que esperam na minha estante ser lidos este ano.

– Li poucos “clássicos” este ano: Madame Bovary, A morte de Ivan Ilitch e O velho e o mar (que apesar do valor, não é bem um clássico. Li também Uma criatura dócil, novela pouco conhecida de Dostoievski, e que dificilmente entra naqueles resumos dos principais escritos do russo.

– Li livros mais curtos. Com poucas exceções, os livros que li esse ano não passavam de 250 páginas. Acho que foi uma estratégia não pensada, mas afinal acertada para alguém que divide o tempo com esposa e dois filhos, trabalho e uma comunidade católica. Li muito viajando a trabalho para os interiores de Sergipe ou nos momentos raros em que Beatriz (minha filha de 1 ano) dormia.

Mas vamos aos melhores livros que li no ano:

10 – Como funciona a ficção – James Wood –

Brilhante livro que analisa, sendo fiel ao próprio nome, como funciona a ficção na literatura. Com uma linguagem cativante e diversos exemplos e análises, o autor analisa a construção de metáforas, o discurso indireto livre e muito mais.

9 – Madame Bovary – Gustave Flaubert –

Flaubert é apontado por James Wood como o “fundador do romance moderno”. Ninguém saberia usar, como ele, o discurso indireto livre. Por conta disso li Madame Bovary e precisarei de uma releitura para prestar atenção à história. Só me concentrava na forma, e quanto a isso Flaubert é mestre, mestre, mestre.

8 – Vidas Secas – Graciliano Ramos –

Havia lido Vidas Secas há uns quinze anos, imagino, e dele só havia ficado a imagem de uma cachorra chamada Baleia e o rótulo de clássico brasileiro do segundo grau. Relendo agora, com muito mais maturidade e um pouco mais de bagagem literária me deixou impressionado demais! Graciliano Ramos é demais! Com que habilidade ele faz seu fluxo de consciência sertanejo, econômico, mas não menos eficiente! Narradores múltiplos, devaneios, uma cadela que “conta” a história! E ainda tem a linguagem crua, violenta, sem qualquer glamour, sem querer transformar ninguém em herói. Quando, já na primeira página, ele mostra o pai pensando em matar o filho famélico, como não sentir o coração gelar?

7 – Os Desvalidos – Francisco J. C. Dantas –

Saber que há em Sergipe, recôndito nalgum ponto de Riachão de Dantas, um homem que foi capaz de produzir Os Desvalidos, me deixa desconcertado . Por que este homem não escreve mais? Será que terei oportunidade de conversar com ele algum dia? Os Desvalidos é Cormac McCarthy, é Faulkner, é um dos melhores romances que já li.

6 – O Aleph – Jorge Luis Borges

Infelizmente acabei não escrevendo uma postagem para falar um pouco de O Aleph, do argentino Jorge Luis Borges. Já havia lido um e outro conto deste gênio, mas considero este meu primeiro contato oficial com ele. A inventividade de Borges é ímpar. Pergunto-me: como ele conseguia pensar naquelas coisas? Apesar de ficar impressionado com contos como A casa de Astérion, O imortal, Os teólogos, são os contos mais “simples”, mais lineares que me cativaram. O morto, História do guerreiro e da cativa, Emma Zunz (sobre o qual falei rapidamente aqui), são narrados com autoridade tal que é impossível não ficar de queixo caído ao final. Enfim, sobre Borges, só posso me derramar em elogios.

5 – A Guerra dos Tronos e A Fúria dos Reis –

Já havia lido há alguns anos os dois primeiros títulos da série A Song of Ice and Fire, do americano George R. R. Martin. Não tinha muita esperança de que os livros, tão longos para o padrão brasileiro, fossem traduzidos, mas a Leya acertou em cheio ao apostar na história dos sete reinos, hoje com três livros no Top 10 de todos os sites e revistas no Brasil.

A tradução ficou muito boa, a despeito dos meus temores e já estou com A tormenta de espadas na minha estante à espera de um tempo (e um bom tempo) para ler.

4 – O Complexo de Portnoy – Philip Roth –

Há bastante tempo esperava pela oportunidade de ler Roth, principalmente pelos elogios que Harold Bloom lhe dedica. Essa primeira experiência foi espetacular. O complexo de Portnoy é um livro ao mesmo tempo engraçado e sério, complexo e simples, mas, acima de tudo, literatura da mais alta qualidade. E que venha Homem Comum, próximo Philip Roth que lerei.

3 – Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy –

Eu já disse aqui no blog que sou fã de Cormac McCarthy?

Sem dúvida disse várias vezes. Harold Bloom, em Como e por que ler?, disse que só apreciou o verdadeiro valor de Meridiano de Sangue na sua segunda leitura, e que cada vez que o relê gosta ainda mais do livro. Eu tenho o problema de dar atenção primeiramente para a forma, e depois para o conteúdo. Como a maneira que McCarthy escreve já é uma atração à parte, na primeira leitura fiquei quase só com isso.

Só agora, quando reli, é que pude ter uma dimensão maior do que ele construiu. Meridiano de Sangue pulsa. Sonho com Darren Aronofsky  adaptando-o para o cinema. Ou, quem sabe, os irmãos Coen mesmo, não é?

2 – Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – Marçal Aquino –

Esse tinha tudo para ser o livro do ano para mim. Marçal Aquino escreve com muita simplicidade, com a naturalidade de quem tem uma história muito boa para contar e quer contá-la logo. Comprei por causa do título, que consegue entregar bem o que é o espírito da história. E o romance não decepciona. Quando você lê a frase que dá título ao livro no contexto é impossível não se emocionar.

Ademais, foi esse livro que me impulsionou a procurar novos bons autores. Vieram Cristóvão Tezza, João Gilberto Noll, Milton Hatoum, Antonio Xerxenesky, Marcelo Mirisola, Ronaldo Correia de Brito, João Paulo Cuenca…

Não foi o melhor do ano porque tive a sorte de ler…

1 – Crônica da Casa Assassinada – Lúcio Cardoso –

Este é um livro para gente grande. É o que me vem à mente de imediato. Conhecer a genialidade de Lúcio Cardoso, toda estampada nesta saga da família Menezes, foi o acontecimento literário do ano para mim. Lúcio Cardoso narra a história da derrocada de uma importante família do interior de Minas Gerais a partir de diversos pontos de vista: são cartas de um personagem, depoimentos de outros, a confissão de uma mulher, narrativa de um médico, diário de alguns personagens, livro de memória de outros… E o escritor nos dá uma rasteira narrativa: o linguajar, a forma de expressar as angústias é praticamente idêntica para todos os personagens (a forma, a forma!), o que deixa evidente: não é Timóteo ou o farmacêutico narrando nada, e sim Lúcio Cardoso! Mas a história é tão, mas tão envolvente, que você abandona qualquer escrúpulo linguístico e se deixa mergulhar na lama que são os segredos de cada um daqueles sórdidos personagens.

Ler Crônica da Casa Assassinada dá trabalho. A leitura não flui, é pegajosa, pesada, arrastada, como as vidas daqueles miseráveis. Mas quando você termina, a vontade é reler tudo. Mas aí você para e vai descansar, porque você não aguentaria mais daquilo, não agora. Em breve.

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Uma resposta para “Melhores Momentos – 2011

  1. Desses livros Meridiano de Sangue está na minha lista para o próximo ano, e devo ler Crônicas da Casa Assassinada e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios no futuro. Espero que esse ano consiga ler mais do que eu previ (apesar de que o monte de releituras que vou fazer torna essa missão quase impossível – são mais de 6000 páginas de releituras…).

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