Uma moça

Leia, clicando aqui, o início de A história de Elias.

Uma moça

Samuel escovava os dentes quando o telefone tocou. Ele voltou o olhar para o espelho, em seguida para a pia e cuspiu. Enxaguou o que tinha de enxaguar, colocou mais um pouco de água na boca, gargarejou e cuspiu novamente. O telefone ainda tocava quando ele apertou com o indicador o buraco direito do nariz e assoou e repetiu o processo do outro lado. Pegou o pano e esgaravatou as narinas e caminhou ao encontro do aparelho. Por fim, atendeu.

Diga. Que tipo de merda? Onde? E Elias? Sei. Certo. É aquele corredor do aviãozinho? Certo. Vou de moto. Certo. Saindo agora mesmo. Certo.

Ele devolveu o telefone ao gancho e entrou no quarto.   Sobre a escrivaninha de mogno, pegou um molho de chaves e com uma delas abriu uma gaveta e retirou o revólver calibre 38 niquelado e enfiou a arma no cinto na altura das costas.

Na garagem, deu partida na motocicleta e seguiu pela estrada de chão. Atravessou a cidade e chegou à estadual indo na direção oeste. Então, cerca de três quilômetros, avistou a estrada de calhau rolado.

Ladeando o caminho, um ou outro casebre alternado entre pastos e milharais ainda verdes. Aqui e ali, um senhor de chapéu de palha e calças puídas limpando o aceiro com a sua enxada, enquanto moças miúdas trafegavam silenciosamente com seus baldes de água equilibrados na cabeça.

De repente, rasgando a quietude, um longo e estridente zunido de três motos às suas costas. Quando se emparelharam, o garupa da última moto voltou o rosto para ele e ficou assim até sumir numa curva adiante. Quem é esse cabeça de fósforo? Pensou Samuel.

Cerca de um quilômetro e meio adiante chegou ao corredor. Dali, avistou as três motos, a viatura, muitos alguéns, Elias conversando com o policial e, no meio deles, o cabeça de fósforo.

Encostou a moto no aceiro, ajeitou o revólver, desceu e foi ao encontro do irmão. Elias tinha dois metros de altura e pesava noventa e cinco quilos. Grande como uma geladeira. Quando se aproximou dele, abraçou-o e ouviu-o chorar. O choro de um homem adulto. Ela era minha, ele disse. Era minha.

Eu sei.

Vou matar esses caras, Samuel. Eu juro por Deus, que mato quem fez isso.

Não se preocupe, a gente dá um jeito, disse Samuel em seu habitual jeito monocórdio, apenas sacudindo a cabeça com mais freqüência do que de costume. Onde ela está?

Venha, venha. Tá ali naquele aceiro.

Caminharam devagar até onde estavam os muitos alguéns. Ao passar pelo policial, Samuel acenou com a cabeça. O policial repetiu o gesto. Quando se aproximaram dos muitos alguéns, estes abriram caminho, como o mar diante de Moisés.

Apenas um policial? perguntou Samuel.

Diz o gordo que os outros estão no outro carro procurando a moto.

Qual moto?

A minha. Ela foi com a minha moto para a casa da mãe. Dormiu por lá. Disse que voltava para casa hoje cedo. No meio do caminho aconteceu essa desgraça.

Sei.

Agora eles olhavam para o corpo. Uma moça baixinha, de não mais de um metro e meio, deitada de bruços. Dúzias de moscas zumbiam à sua volta. Uma ou outra pousava voraz no olho. Havia muito sangue e pedaços de cérebro esmigalhados sobre as pedras. Ela tinha um grande rombo na nuca e um furo entre os olhos. Eles ainda estão abertos, disse alguém. Feche os olhos dela, isso não é bom para alma não.

Elias se agachou junto ao corpo e apoiou os cotovelos no joelho e com as mãos afugentou as moscas. Samuel estancou ao seu lado e pousou a mão no seu ombro. Os olhos, ele disse. Feche os olhos dela. Elias obedeceu. Por favor, não toque na vítima, disse o policial que se aproximava. Elias fingiu não ter escutado. Passou suavemente os dedos próximos a testa da esposa. Droga, ele sussurrou. Em seguida, levantou-se e correu os olhos nas pessoas e perguntou Quem a encontrou?

Silêncio.

Quem a encontrou?

Eu. Foi eu, senhor, disse um estrábico revelando-se em meio aos muitos alguéns.

Elias caminhou em sua direção e apertou a mão magra do homem – um senhor dos seus 60 anos, torto, como feito de trapos, que parecia algo entre um jardineiro e um apanhador de ratos. Você não viu nada, não escutou nada?

Não, senhor. Não vi nada não, senhor. Apenas fui passando e ela estava ali, morta. Ai fui à cidade chamar a polícia.

O policial se aproximou de Elias e pôs a mão em seu ombro e em tom suave disse A gente conversa com ele depois. Não é hora de interrogatório, não é verdade?

Elias fixou por um instante os olhos do policial. Apertou com muita força a mão do estrábico e, então, disse: Certo. Depois a gente conversa, Mili-raio. Com fuga.

Ele assentiu com a cabeça. Mas num fui eu quem matou a moça não, ele disse, pelo amor de Deus. Não fui…

Eu sei. Fique tranqüilo, e deu dois tapinhas afetuosos no ombro dele e virou as costas e andou cabisbaixo até estancar no meio da estrada a alguns metros das pessoas. Por que? ele pensou. Por que?

Em seguida, ergueu a cabeça e olhou para a grimpa do aviãozinho que girava ao sabor do vento. Baixou-a mais uma vez e cutucou algumas pedrinhas no chão com o bico do sapato. Depois, voltou o olhar para os alguéns que se dispersavam sob comando do policial. Voltem ao trabalho, senhores, ele dizia. A festa acabou. Então os alguéns recolheram as suas enxadas e carrinhos de mão e sacos de adubo e voltaram para suas roças de milho. 

Elias caminhou em direção de Samuel, que conversava com o policial. Ao se aproximar, ouviu a autoridade especular sobre o possível motivo que causou a morte da sua mulher. Deve ter sido alguma rixa antiga, ele disse. Vamos e convenhamos que o histórico de vocês não aju…

Os irmãos se entreolharam. O policial pigarreou.

Ou pode ter sido roubo mesmo.

A alguns metros dali, estacionou a segunda viatura. Dela, saiu um policial. Ele marchou imponente em direção ao companheiro de profissão e disse alguma coisa a ele. No mesmo instante, este voltou o olhar para Elias. O segundo policial ficou. O primeiro, com as mãos na cintura e meio desengonçado, veio ao encontro dos irmãos e então disse. Roubo.

Por que tanta certeza? perguntou Samuel.

Encontraram a moto a sete quilômetros daqui. Próximo à casa de Cinja. Foi deixada largada no aceiro.

Mas…

Com o pneu estourado. 

Continua…

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Uma resposta para “Uma moça

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