A Trilogia Dupin – Edgar Allan Poe

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Nunca fui muito fã da literatura clássica de detetives. Já li algumas coisas de Sherlock Holmes, Aghata Christie, mas prefiro os bons e velhos detetives ao estilo Raymond Chandler ou Dashiell Hammett.

Considerando que quase nada havia lido de Poe, e tendo encontrado essa bela edição com três dos seus contos que têm como protagonista o Chevalier Auguste Dupin, comprei e fiz uma descoberta que me surpreendeu: Dupin inspirou Sherlock Holmes.

Os três contos que compõem a trilogia são o famosíssimo Os assassinatos da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada. Quem narra é um amigo de Dupin, bem à maneira do Dr. Watson. Ele afirma que a sua motivação ao relatar os episódios é evidenciar o incrível poder de análise de seu amigo. E há uma passagem que mostra como Dupin trabalha bem o seu raciocínio e seu alto poder de observação.

Os dois amigos andavam há uns bons quinze minutos em silêncio, até que Dupin disse:

– Ele é baixinho, devo concordar, e se sairia melhor no Théâtre des Variétés.

Seu amigo ficou impressionado, porque aparentemente Dupin adivinhou seus pensamentos. Dupin explicou mais ou menos assim como chegou à inevitável conclusão acerca do que estava na mente de seu amigo naquele momento:

– Foi o fruteiro que o levou à conclusão de que o sapateiro não tinha altura suficiente para interpretar Xerxes et id genus omne.

E passou a explicar como, a partir de um encontrão entre seu amigo e um fruteiro, cerca de minutos antes, Dupin, observando suas reações, o modo como caiu e olhou as pedras no chão, e numa pequena aleia, olhando as pedras utilizadas para pavimentação, murmurou a palavra “estereotomia”, nome pomposo dado àquele tipo de pavimento; como Dupin sabia que ao pensar em estereotomia, automaticamente seu amigo pensaria em átomos e nas teorias de Epicuro, assunto sobre o qual ambos haviam recentemente conversado, relacionando-o à cosmogonia das nebulosas, o que levou seu amigo a olhar o céu, em busca da grande nebulosa de Órion; e que, ao lembrar de Órion, lembraria de uma conversa entre ambos no dia anterior, relativa ao sapateiro ator, lembrança confirmada pelo sorriso que apareceu nos lábios de seu amigo; como seu amigo se empertigou logo depois desse sorriso, pondo sua coluna bem ereta, o que só poderia significar que ele pensava como aquele sapateiro tão baixinho era inadequado para desempenhar determinados papeis no teatro.

Isso tudo, claro, de forma resumida, mas dá para ver muitas similaridades com o famoso detetive da 221B Baker Street, especialmente no que toca a essa capacidade sobrenatural de deduzir.

Dupin não é detetive, é alguém de família abastada que conesguiu perder quase todo o seu dinheiro, vivendo parcimoniosamente de juros do que lhe restou. Passa todo o dia sem fazer absolutamente nada, e cada um dos três casos o atrai por motivos diferentes.

Os contos são narrados de forma bem peculiar: no caso de Os assassinatos da Rua Morgue, por exemplo, o caso é relatado de maneira pormenorizada, para depois serem elencados depoimentos das testemunhas, muitos deles repetitivos. Em O mistério de Marie Rogêt, além da narração dos fatos, são reproduzidas todas as notícias de diferentes jornais ao longo da investigação, que constituem importante fonte de consulta para Dupin. Depois de todas as informações terem sido postas à mesa, Dupin começa a sua análise com o objetivo primeiro de refutar as suspeitas da polícia ou dos jornais. Ele destrói cada hipótese, demonstrando como elas são inviáveis. Só depois disso começa a construir a sua hipótese, que invariavelmente se mostra acertada.

Não foi um tipo de literatura que me conquistou. Acredito que gostarei mais da obra fantástica e de terror de Poe, como um conto recente seu que li, The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall, que é bastante interessante.

Para quem gosta, contudo, de Sherlock, Poirot e seus congêneres, é uma excelente oportunidade de conhecer como tudo começou.

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4 Respostas para “A Trilogia Dupin – Edgar Allan Poe

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