O velório

Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias. 

O velório

Samuel chegou e disse Boa noite às visitas estacionadas em frente a casa. Eram todos homens. Eles estavam sentados em cadeiras e bancos e conversavam sobre futebol, namoro, mulheres e festas. Ele entrou e ficou em pé na soleira e viu mais pessoas e mais cadeiras. Eram todas mulheres. Boa noite, ele disse, e elas responderam Boa noite.

Sondou o ambiente e por um momento lembrou-se da casa dos avós e como a casa do irmão tinha o mesmo desenho: salão de entrada com teto alto, corredor comprido e escuro; quartos ladeando; sala de visitas e, no final, a cozinha de teto baixo, uma salinha contígua – onde ficava um velho e volumoso armário com farinha, feijão e milho -, e o fogão de lenha próximo a uma pequenina janela.

Ele pediu licença, ajeitou a gola da jaqueta e, acanhado, atravessou o corredor e parou de novo ao chegar à soleira. Ele fez o sinal da cruz e acenou com a cabeça e as mulheres responderam com um honesto Boa noite. Estavam todas fechadas em si; com as mãos no colo, olhos baixos, como se estivessem sempre à espera de partir. A mãe, que estava debruçada sobre a filha morta e parecia poder esfarelar-se a um simples toque ou um olhar mais sério, ao notar a presença de Samuel, devolveu a vela à mesinha e andou em sua direção e o abraçou. Samuel ficou imóvel. Receoso, não quis tocá-la.

Por que, Deus? Minha filha, minha filha…

A gente vai dá um jeito, não se preocupe, ele disse, e colocou com cuidado a mão encorajadora sobre os cabelos compridos dela e soltou um suspiro e balançou a cabeça.

Meu Deus, por quê? Ela era uma pessoa tão boa. Minha filha…

Samuel olhou para a carpideira sentada na cadeira – uma velhinha muito magra, de olhar sofrido, tranqüila em sua ascética mediocridade – e gesticulou com os olhos, como se dissesse Faça alguma coisa, mulher, e me livre disso aqui! A senhora de 86 anos se levantou e disse Venha comigo, Dona Carmem. Vamos tomar uma aguinha com açúcar. A vida é assim mesmo, mulher. É a vontade de Deus. A carpideira virou já havia adentrado a cozinha, quando, de supetão, virou-se e disse a Samuel Elias tomou o remédio e está dormindo desde as três horas. É melhor nem chegar perto dele.

Certo, disse ele, e em silencio abriu a porta e entrou no quarto.

Elias estava largado de bruços sobre a cama. No chão, a garrafa de cachaça, algumas pílulas e vômito. Samuel se agachou e pegou a caixa de diazepam; em seguida, sentou-se na cabeceira, pousou a mão no ombro do irmão, com um toque feminino, colocou os dois pés – que pendiam para fora – no seu colo, tirou os sapatos e cuspiu. Depois, depositou-os na cama, ergueu-se, circundou-a, aproximou-se da janela, abriu-a, e o ar que entrou bateu em seu rosto e espantou o ar abafado às suas costas. Ele olhou para o irmão e pensou Onde está?

Foi até o armário e passou a mão na parte de cima e não encontrou nada, a não ser poeira acumulada. Sacudiu-a na calça e destrancou a portinhola. Duas camisas e duas calças sobre dois travesseiros brancos. Ajoelhou-se com cuidado, abriu a gaveta e encontrou sob o forro de lã e uma coberta, a escopeta calibre 12, seis estojos, o revólver calibre 38 e doze projéteis de munição.

Levantou-se com a arma em mãos. Meneou a cabeça. Pensou. Tamborilou com os dedos na coronha. Droga, ele pensou. Extraiu as balas, agachou-se mais uma vez e devolveu a arma à gaveta. Recolheu os estojos e os projéteis, pegou o revólver, retirou o pente, colocou no bolso da jaqueta, ergueu-se e saiu do quarto e fechou a porta atrás de si sem fazer barulho.

Samuel entrou na cozinha e disse Boa noite; pediu licença e sentou-se à mesa ao lado da cunhada do irmão. Ele pegou a garrafa e perguntou Mãe, ainda tem? e ergueu a garrafa como se fosse brindar à sorte; ela respondeu atrás do fogão de lenha Sim, mas está quase acabando… E está meio frio.

Muita gente, disse a cunhada.

O quê?

Eu disse Muita gente.

Ah, sim. É verdade, e olhou para trás por sobre o ombro. É, muita gente.

Quando custa um pobre a viver e um rico a morrer.

É.

O velório está bom. Vieram muitas pessoas.

É.

Ele balançou a cabeça em admiração à frase, olhou a xícara e sorveu o resto do café e disse Ainda está quente. Olhou para o lado, e percebeu a inquietação da cunhada – um bebê-elefante com saias que iam até a metade das coxas. Ela tamborilava com os dedos a mesa, mordia os lábios inferiores e passava a mão nos cabelos, como se fosse arrancá-los. Samuel encheu o peito de ar até o fundo e então disse Diga.

O quê?

Pode dizer. Diga. Diga o que a senhora quer dizer e não se agüenta mais.

Samuel, por favor, suplicou encarecidamente a Mãe.

Não, Mãe, deixe que ela fale. Do contrário, ela vai terminar sufocada com a própria língua.

Ela fechou a cara e deu um suspiro que elevou o peito volumoso. Deve ter sido o mais barato, ela disse.

O que foi o mais barato?

O caixão. O caixão que deve ter sido do mais barato. Diga se não foi mesmo?

Não sei. Quer que eu me levante e vá acordar Elias e peça para ele vir aqui e converse com a senhora e diga o valor?

Vim só para não deixar de vir. Ela balançou a cabeça, como para espantar um mosquito e disse E quanto às flores? Deus benza. Eu sei que eles não se casaram na igreja, que viviam como cão e gato, mas pelo menos tivessem arrumado a coroa de flores… Também, numa casa onde só os pombos gemem. A minha irmã merecia um velório mais digno… Muita coisa mais digna na verdade. Sinceramente… Eu vou dizer… E a carneira? Vão fazer igualzinho à família do meu pai, que já faz uns oito anos da morte do meu avô e ele só tem a cova e as formigas nos dentes.

Isso tudo é ilusão, Nôra. Nem isso ele tem.

É muita miséria mesmo. Eu vou dizer, viu… MEU DEUS DO CÉU!

ELIAS! gritou a Mãe, deixando cair a chaleira, esparramando o café nos pés e no chão.

Ele andou em ziguezagueando até porta com a escopeta apoiada na perna e fechou a passagem. Agora eu quero que você repita tudo na minha cara, e puxou a bomba e armou a escopeta e apontou para a cunhada.

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