Não neva no sertão

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Finalmente nevou, depois de tanta expectativa. E não estou falando de mim não. A cidade parecia inquieta todos esses dias. Um inverno sem neve não é inverno. Aí vi que nunca tivemos nem teremos um inverno de verdade lá onde nasci. Inverno lá é chuva. E enxada. O frio que a gente sentia lá faz o povo daqui suar. E ainda tem gente que reclama. Eu andando aqui pra cima e pra baixo de luva e gorro e casaco e o frio matando. Mas torcendo para esfriar mais. Até onde posso aguentar, me pergunto. E tem a neve. Só neva quando faz frio, muito frio. Agora, neste exato momento, o termômetro (que termômetro que nada, é o notebook mesmo) marca 28° Fahrenheit, o equivalente a -2,2° C. É frio pra burro. E sabem o que estou fazendo? Aproveitando a oportunidade. Uma da manhã, mas vá que não neve mais. Olho da janela e há pessoas na rua a essa hora, apreciando a neve, pisando, tocando, sentindo-a queimando seus rostos, o que fisicamente não deve ser muito agradável, mas compõe um belo quadro.
Aqui no quarto a temperatura está agradável, tem aquecedor. Se eu quiser sentir calor (saudades dos 34 graus de Aracaju?), é só fechar a porta do quarto e colocar no máximo. Vou sair desse conforto e congelar lá embaixo. Vou sem luvas, claro, e sem touca. Ver a neve e não tocar a neve é… não vou repetir o ditado que meu pai diria, mas é fazer serviço de porco.
Uma da manhã. O sono apertando, nem finjo mais entender o que aqueles caras da ESPN estão falando na televisão. Sei que é sobre Hockey. Que é no gelo. A preguiça de descer está matando, mas não quero perder a chance. Vá que eu morra de besta e não veja a neve, não é?
Imagine que agora, nesse frio, lembrei daquele dia em que o sol castigava, no pino da meidia, e eu abrigado numa bodega que de tão estrategicamente posicionada no ermo encontro de três estradas, parecia cenário para um filme. E a velha debulhando fava, quatro moringas e dois potes alinhados, uma prateleira que tinha – imaginem! – latas de óleo. E o velho. Um velho negro fixe, camisa aberta mostrando a pele maltratada e as costelas contadas, o chapéu de palha imundo e o facão na cintura. E o velho contava histórias. Parece ter nascido com o dom de comunicá-las. Quantos livros ele carrega sob aquele chapéu e jamais serão escritos!
Dizia ele que um homem morreu de besta, coisa de uns cinquenta anos atrás. Não lembro mais da história com detalhes, mas o velho apontava com o beiço pela janela, mostrando em que pedaço daquela imensidão de caatinga o homem morava.
Trabalhou o dia todo com o cavalo para cima e para baixo e pediu água para a filha. A filha chegou, trouxe água, ele bebeu. Ou seria cachaça? Minha memória é péssima. Sei que o velho se empolgava e dava uma entonação quase teatral às falas, com direito a pausas dramáticas e tudo:
– Minha filha! (longa pausa…) Vá na bodega de Sinja comprar minha cachaça (pausa estratégica) … que seu pai tá morrendo de sede.
Tenho quase certeza de que minha memória me engana, porque quem beberia cachaça para matar a sede?
A filha saiu e antes de chegar à porteira, andando naquela indolência típica das préadolescentes, o pai, que segurava as rédeas do cavalo, decidiu amarrá-lo no galho do pé de árvore que ficava no terreiro bem em frente à casa. Deu um passo, dois, três e caiu sozinho, já morto, conforme sentenciou o velho, a essa altura procurando as memórias perdidas num canto da sala, no telhado, na janela aberta. A filha voltou, ainda indolente, o cavalo se afastou, sem saber o que fazer com aquela provisória liberdade, algum bem-te-vi cantou seu nome do alto de uma jaqueira ali perto e o homem… bem, o homem morreu de besta.
Já abrindo a porta para deixar meu quarto peço a Deus que não me deixe morrer de besta. Pelo menos não caindo de cara na neve. Deve ser muito fria.

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2 Respostas para “Não neva no sertão

  1. Tomara que seja fria…
    Estou ansioso pela parte II do relato.
    Em teu lugar, eu já teria caído na neve cinco parágrafos antes (risos): acho que vou morrer de besta, é batata!

    WPC>

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