Rasga-mortalha

Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias.


Rasga-mortalha

Em algum ponto distante, não se sabia onde, um pássaro cantou, de modo metálico e triste. O grito do pássaro misterioso se fazia sempre à noite, mas não se sabia como ele era nem de onde vinha.

Samuel ergueu-se de supetão e no impulso virou a cadeira e ela caiu. Fitou os olhos enraizados de Elias e para a as mãos que tremiam sob o peso da escopeta. Baixe a arma, ele disse. Baixe… a… arma.

Ouçam, ouçam, disse Elias, e segurou com apenas uma mão a escopeta e colocou o indicador na boca e disse Xiiiiiii, ouçam.

O quê? O que é para ouvir, Elias?

A rasga-mortalha. Eu quero que vocês ouçam a rasga-mortalha. Conseguem ouvir? Eles silenciaram e olharam para o teto, como se pudessem ver através dele. Elias sorriu. Elas nunca erram, não é Nôra?

A cunhada estava de pé atrás da cadeira, pálida, espremendo-se nas bordas da mesa próximo à quina. Com as mãos estendidas e trêmulas ela disse Pelo temor que você tem a Deus, homem, baixe essa arma.

Elias, não brinque com essas coisas, disse a mãe. Você não está bem. Baixe a arma, por favor. Baixe a arma. Não desgrace ainda mais a sua vida.

Ele olhou para mãe.

Filho… Filho… Pense na sua filha. A coitadinha não tem culpa de nada.

Elias esticou de leve o pescoço. Isso é o que todo mundo faz, não é Samuel?

O que é que todo mundo faz?

Colocar Deus no meio. Todos eles quiseram colocar Deus na frente do cano, mas nunca adiantou. Não foi, Samuel?

Chega, Elias. É melhor parar por aqui. Você já está falando merda demais.

E você acha que manda em ninguém, porra?! E vocês aí, ele ergueu ainda mais a voz, cada um de vocês, vá procurar suas casas antes que eu comece a brincar de tiro ao alvo.

Alvoroçadas, as senhoras saíram em tropel e gritos esganiçados, como se formassem um rebanho de ovelhas em frente à porta. Não se distinguiam mais os conselhos das súplicas. Mas Elias não poderia ouvi-los de qualquer modo. Estava cego e surdo. Baixando a cabeça, pareceu refletir um instante. Em seguida, ergueu a voz e, renovando aos espectadores a ordem de abandonar o recinto, disse Vão tudo para o inferno, comboio de falsos, ruma de corno!

Ninguém tinha idéia de que atitude tomar, ninguém sabia fazer nada. Então, de repente, os movimentos e os sons cessaram. Naquele instante, todos olhavam para a menina que apareceu no corredor. Ela trajava um vestido rosa na altura dos joelhos e segurava a boneca de pano pelos cabelos e coçava os olhos com os dedos de modo destoante e desconfortável. Pai? disse ela, inocente, tão inocente que ele ficou olhando para ela, imóvel, com algo mais do que mera surpresa.

Elias manteve a arma apontada para a cunhada. O olhar enraizado e fixo. Trocou a escopeta de mão e esticou o braço para a filha e disse Elisa, volte para o seu quarto. Agora.

Ela olhou para o pai com perplexidade, atônita, sem entender o porquê de tamanha brutalidade.

Eu disse Agora.

Elisa começou a lacrimejar, e com a voz lânguida e cadente disse Mainha, quero Mainha. Elias tirou os olhos da cunhada e olhou para a filha e disse Vá para o seu quarto. Vamos. Obedeça. E pare de chamar pela sua mãe.

Elisa tateou a parede e galgou em direção ao pai. Ele fitou o corpo da mulher. Temia que acontecesse. Não sabia o que fazer. A criança atravessou o corredor e entrou na sala, e ao avistar o caixão, largou a boneca e, com os olhos arregalados, bradou dois longos gritos, seguidos por outros dois mais breves.

Elias resmungou algo incompreensível e, num movimento abrupto e ágil, cruzou o salão e estendeu o braço para socorrer a filha que caia inconsciente. Ele soltou a arma e contornou o braço em torno de Elisa. Por um instante ela ficou ali, um pouco nauseada, piscando os olhos convulsivamente. Elisa, fale comigo, ele disse. Elisa.

É melhor chamar um médico, disse Samuel à porta.

Cale a boca. Eu sei cuidar dos meus, ele disse, e ao olhar para a mulher morta amaldiçoou a si mesmo.

A cada arfada da filha, ele sentia o lado esquerdo da terra estremecer. Aos poucos, o seu olhar indômito e os seus traços duros arrefeceram em lágrimas à mera lembrança daqueles gritos. Ele coçou a cabeça e franziu as sobrancelhas até a testa ficar delineada por linhas escuras e aflitivas. Então, de repente, as órbitas dos olhos de Elisa giraram e saíram da obscuridade e ficaram abertos e imóveis.

Ela está acordando, ele disse. Está acordando.

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2 Respostas para “Rasga-mortalha

  1. Do jeito como está, me dou como satisfeito enquanto leitor…
    Muitos ecos pessoais foram reverberados na trama, o que me faz pensar numa vertente autobiográfica embutida na estória. Existente ou não, esta tal de rasga-mortalha já causou muitos olhares indômitos por aqui, de onde escrevo nesta madrugada… (WPC>)

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