Pedido de desculpas

Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias.

Pedido de desculpas

Elias ficou sentado na cama refletindo sobre as coisas. Passou a mão no cabelo da filha, enquanto observava o copo d’água e a caixa de remédio sobre a mesa-de-cabeceira. Não era para ter acontecido assim, ele pensou. De jeito nenhum.

Levantou-se com cuidado e olhou pela janela e viu Samuel com o braço apoiado no capô da viatura conversando com o policial Otávio.

Estava sem fogo.

Hurum. Hurum. Certo. Fique frio, Samuel. Fique frio.

Podia fazer mal a ninguém não, chefe.

Tranquilo. Mas é bom você ficar de olho nele.

Os dois.

Quando a viatura se afastou e Samuel entrou na casa e trancou a porta, Elias estava atrás do fogão e mexia com a colher de madeira a panela, embora não houvesse nada para misturar. Acompanhou o irmão com os olhos e o viu atravessar o corredor e entrar calado na cozinha. A luz baça da lâmpada não permitia que se enxergasse o seu rosto com perfeição. Ele puxou a cadeira, sentou, entrelaçou os dedos e ficou ligeiramente curvado para frente, numa expressão vigilante e sorumbática.

Virou as costas para ele e abriu a pequena janela e ficou olhando o jardim recoberto de mato emaranhado.  Sobre a janela havia um crucifixo antigo de madeira, que, apesar dos muitos anos, conservou sua robustez e a autoridade. Ele fez o sinal da cruz – movimentando os lábios rapidamente – e olhou para trás por sobre o ombro e viu os cabelos grisalhos de Samuel e agradeceu a Deus por tê-lo como irmão.

Depois de alguns instantes em silêncio ele perguntou E então, o policial, que disse?

Disse para você não se preocupar.

E o que mais?

Só isso.

Só isso mesmo?

É, só isso mesmo.

Não pode ter sido só isso.

Samuel ergueu as sobrancelhas e olhou as costas de Elias e disse Olhe para mim. Elias se virou e enfrentou o olhar imperturbável do irmão e disse Diga.

Lembrei de uma coisa. Amanhã ele vai dar uma festinha e convidou você e Nancy…

Elias engoliu em seco. O pomo de adão subiu e desceu, e com os olhos mirando o piso, fechou a mão em punho e se viu sobre o irmão qual águia em cima de carneiro. Aquelas palavras foram proferidas com um olhar ávido, com ênfase pontuada, com um sorriso estranho, sardônico, que continha uma espécie de bravata.

Um silêncio pavoroso se seguiu depois disso. Elias conseguia ouvir o íntimo murmúrio do se sangue nas grossas veias do pescoço. Então, num salto, Samuel levantou-se da cadeira e esbravejou: Olhe para mim, porra. Seja homem esse caralho e me encare.

Elias não ouviu, e numa teimosia adamantina, manteve o silêncio, a culpa e a postura. Pensou na estrada e na mulher deitada no caixão e imaginou o rosto do atirador e como os dentes dele sairiam pelo nariz quando tudo tivesse acabado.

Samuel levantou-se, deu-lhe as costas e, com a indiferença de quem trata um pedinte na calçada, disse-lhe Boa noite e saiu da cozinha.

No meio do corredor, em frente ao quarto de Elisa, estancou e ficou ali por alguns instantes. Virou a cabeça sobre o ombro e olhou para o irmão e disse As coisas não se resolvem com alardes, Elias. Você sabe muito bem disso. Deveria saber.

Quando Samuel fechou a porta, Elias olhou ao redor em busca de um lugar onde pudesse esconder o rosto.  Apoiou o braço na parede, apoiou nele a testa e, sob o olhar indelével do Senhor Crucificado, chorou.

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