Chronicle (2012)

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Só quem já jogou RPG de super-heróis sabe como é ter a oportunidade de ver um filme em que “pessoas comuns” ganham poderes e têm a oportunidade de decidir se serão ou não heróis. É bem diferente de ver filmes como Batman, Homem-Aranha ou Hulk, em que, apesar de cada herói enfrentar seus dilemas, sabemos de antemão que eles são… heróis. Chronicle traz esse apelo, e por isso decidi ver.

Conta a história de três amigos de escola que acidentalmente encontram um estranha caverna com algum artefato extraterrestre que lhes concede poderes telecinéticos que vão evoluindo e ganhando variações interessantes.

O filme diretor faz uma escolha para o filme que eu acho já bastante batida: o falso documentário (ou quase isso). Andrew, o mais novo dos três amigos, tem uma mãe muito doente e um pai alcoólatra e ex-bombeiro aposentado por invalidez, com quem ele tem uma péssima relação. Excessivamente tímido, ele decide comprar uma câmera cara e passa, a partir daí, a filmar tudo que acontece com ele, chegando ao ponto de ir a uma festa com a câmera na mão ou mesmo ir à escola e sofrer bullying enquanto filma/é filmado. É visível o esforço do roteiro para justificar a presença (e, principalmente, os ângulos) da câmera em cada cena, o que obviamente atrapalha a experiência cinematográfica.

A premissa do filme é a mesma do homem-aranha e de tantos outros filmes de super-heróis: grandes poderes trazem grandes responsabilidades. O que então há de diferente neste filme?

Para mim, o diferencial maior é que ele não dá uma dimensão mundial ou universal, mas mantém os fatos, os problemas, numa dimensão local. Eles vivem em Seattle (capital do estado de Washington, no extremo noroeste dos Estados Unidos, e cidade com grande vocação musical. Jimi Hendrix, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Nirvana, Alice in Chains e Soundgarden, por exemplo, vieram de lá.) e o filme não deixa fatos tão relevantes, como o provável surgimento dos primeiros super-humanos, sair do bairro deles ou, já na conclusão do filme, do âmbito da cidade. Não dá tempo, e isso é um mérito do filme.

Os três descobriram que têm poderes incríveis. O que fazer? Começam a brincar de montar lego; pregam peças em supermercados, colocando carrinhos de compra para saírem em disparada pelos corredores; aprendem a voar.

Eles se tornam muito mais próximos por conta deste segredo e o filme vai evoluindo até mostrar que o uso dos poderes pode trazer conseqüências gravíssimas. Isso, contudo, não os impede de montar um espetáculo para Andrew se dar bem com as garotas. Fazendo a transição de um clima leve e descontraído para situações cada vez mais difíceis e dramáticas, a conclusão inevitável do filme é satisfatória. É impossível não associar o filme, especialmente no tocante ao seu desfecho, com o clássico anime Akira.

Há um ou outro furo no roteiro que são “justificados” pela escolha em dar ao filme proporções locais. Duas ressalvas importantes:

A evolução do estado emocional de um dos garotos é esperada, mas não foi orgânica. Aconteceu meio aos saltos, com direito até a um discurso à Magneto.

O estilo de filmagem “falso documentário” atrapalhou o filme. Volto a falar disso porque há momentos em que a lógica pretendida pelo diretor é quebrada. Ele recorre a câmeras alheias, câmeras de TV, câmeras de vigilância, mas em alguns momentos (especialmente numa cena envolvendo um hospital), é a mão do diretor que coloca a câmera naquele lugar, não uma personagem do filme. Filmar de maneira tradicional provavelmente sairia mais caro (terá sido esse o motivo?), mas o resultado seria muito melhor.

Finalizo afirmando que o filme foi uma boa experiência, até me deu ideias para uma ou outra aventura de RPG. E se você também já pensou em ser mordido por uma aranha ou encontrar um artefato extraterrestre que lhe desse poderes, sairá, como eu saí, bastante desapontado com o fato de não ter encontrado aquela caverna no seu quintal, porque voar usando telecinese deve ser o máximo!

Minha avaliação:

3,5 estrelas em 5

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3 Respostas para “Chronicle (2012)

  1. Apesar do excesso de fórmulas vendáveis contida nesta proposta de filme, fiquei com uma vontade sadia de vê-lo. E, sem poder comparar a apreciação com a minha própria visão (visto que, aqui no Brasil, o filme só estréia em março), fiquei muito contente com tua reprimenda às câmeras externas. Afinal de contas, me frustra sempre o poder que o delsumbramento que alguns ‘mockumentaries’ causam nos espectadores que não percebem isto que tu percebeste. Dei até um sorrisinho maroto de satisfação: dá-lhe Leonardo! (hehehehehe)

    WPC>

  2. Concordo nos seus pontos. Assisti ao filme e como fã de Akira, acabei me empolgando a ponto de não notar certas falhas aqui narradas. Os erros em relação ao estilo Cloverfield também me deixaram um tanto desconfortável. Mas, como atualmente, não encaro mais o cinema(boa parte, principalmente USA) como uma arte e sim uma distração, hobby, acabei levando numa boa. Baixei via torrent naquela qualidade péssima, em Março irei assistir nos cinemas. Achei o desfecho muito legal, não muito tradicional e um tanto inesperado. Espero que os outros leitores gostem.

  3. Vi o filme por tua causa e ainda estou aqui surpreso, de tanto que eu gostei do filme, não obstante perceber e ter me irritado deveras com todos os defeitos estruturais violentos que tu enumeraste, principalmente no que tange ao desnecessaríssimo recurso das câmeras subjetivas (neste caso, mais inverossímeis do que quase todos os outros exemplos recentes deste novo clichê formal). Sabe-se lá, entretanto, que pulga gnosiológica me mordeu para que, durante a sessão, eu começasse a suspeitar que toda a inverossimilhança era de propósito e nos levasse a um questionamento formal que vai de encontro aos filmes esquemáticos sobre heróis, em que os tais poderes engendram de fato responsabilidades e não os pantins exacerbados que vemos aqui. Mais: como bem disseste, o desfecho do filme é ridiculamente precipitado, sendo aquela declaração de amor do final particularmente ridícula e inconvincente. mas, puxa, por que é que eu gostei tanto deste filme?! Por causa de um tipo de identificação diferente da que tu mencionaste no primeiro parágrafo? Vai saber… Mas, para mim, que o filme é muito, muito sintomático, ah, isso ele é! (WPC>)

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