The Big Sleep (1946)

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Ver um clássico de cinema, como falei no último post, no cinema, é um atrativo especial. Se esse clássico tem Humphrey Bogart, é dirigido por Howard Hawks, é baseado em um livro de Raymond Chandler e tem o roteiro escrito por William Faulkner… Tenho que ver, não é mesmo?

The Big Sleep foi um dos filmes apresentados no Warner Bros. Theater, recém-inaugurado dentro do National Museum of American History. Foram quatro filmes em homenagem a Bogart: Casablanca, The Maltese Falcon e The Treasure of Sierra Madre. Como os outros filmes passaram durante a semana, só consegui ver mesmo The Big Sleep.

O fato de ser baseado num livro de Raymond Chandler já dá a dica: é um filme noir. Conta a história do detetive Philip Marlowe, contratado por um milionário para resolver um caso de dívidas de aposta que sua filha mais nova tem com um misterioso dono de uma loja de livros antigos. A filha mais velha do milionário aborda Marlowe e pergunta o motivo de ele ter sido contratado, insinuando que teria sido para encontrar seu amigo Sean Reagan, que desapareceu misteriosamente há pouco tempo.

Depois disso, vemos muita ação, muita confusão e muito mistério. O filme tem diálogos sensacionais e momentos muito engraçados. A primeira cena, entre Marlowe e o velho Sternwood já é hilária: eles estão numa estufa quentíssima, e Marlowe sua aos cântaros. Os diálogos entre Marlowe e Vivian (a filha mais velha, interpretada por Lauren Bacall) são ótimos, sempre precisos, provocativos, ferinos. A cena em que Marlowe improvisa um disfarce para entrar na livraria é preciosa, e mostra o talento de Bogart, engraçadíssimo. Em várias cenas é evidenciado de forma bem humorada o talento natural de Marlowe com as mulheres. Destaque para a cena da outra livraria, em que é travado um diálogo primoroso.

A cena mais engraçada, sem dúvida alguma, é quando Vivian vai ao escritório de Marlowe e liga para a delegacia e eles começam a pregar uma peça no policial que atende. Além do lado do humor, a cena serve para mostrar a sintonia existente entre os dois.

Mas nem só de momentos engraçados vive o filme. Há muitas mortes e muito, muito mistério. Não consegui entender todos os desdobramentos do filme, mas fiquei aliviado quando, depois, pesquisando, cheguei à seguinte informação: Raymond Chandler, ele mesmo, o autor do livro, contou em uma entrevista que quando faziam o filme, Howard Hawks e Humphrey Bogart entraram numa discussão sobre se um dos personagens teria sido assassinado ou cometido suicídio. Ele teria respondido algo como “Diabos se eu sei isso!”

Se o próprio autor do livro não estava certo a respeito dos acontecimentos, imagine eu. Há ainda outros fatores que complicaram o filme: no livro de Chandler (que entrou definitivamente para a minha lista) os mistérios estão diretamente ligados à pornografia e ao homossexualismo de dois personagens, ambos os temas proibidos pela censura da época, forçando roteiristas e diretor a picotarem a história.

O certo é que, independentemente de o roteiro ser bem fechado, o filme é diversão de alto nível. Está lá Bogart, escolhido a maior lenda do cinema americano, num papel inesquecível. Philip Marlowe é o típico detetive “hard-boiled”, que quando vê uma arma apontada para ele sorri e não manifesta o menor medo (e nós sabemos que ele não está fingindo. Ele não tem medo mesmo!).  Muito parecido com o Sam Spade de The Maltese Falcon, a minha impressão é que Marlowe é mais “feliz”, mas isso se deve provavelmente à mão habilidosa de Hawks, a fazer cada cena valer a pena.

Dois detalhes adicionais que tornaram a experiência cinematográfica ainda mais divertida: antes do filme houve uma palestra de alguém da Warner, falando da carreira de Bogart e dos detalhes por trás da história de The Big Sleep; e desta vez a tela era grande, tela de cinema mesmo, e não percebi indícios de que pudesse ser um blu-ray.

Minha avaliação:

4,5 de 5

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Uma resposta para “The Big Sleep (1946)

  1. Ver este filme em tela grande é um sonho mesmo…
    Ah, quem me dera…

    É um filme complicadíssimo, lembro que quando o vi pela primeira vez, fiquei atordoado com tantos ‘mcguffins’… Mas… que roteiro, que direção, que fotografia, que elenco, que obra-prima, mesmo com todas as sanções burocráticas da época!!!!!!!

    Muito boa a tua observação sobre a “felicidade” do Sam Spade. De fato, ta,bpem percebi isso: por isso, ele cai com mais força do cavalo aqui (no sentido erótico do termo). Lauren Bacall faz com ele todo o gato-e-sapato que a Mary Astor não teve vigor para fazer no filme anterior do John Huston (risos) – Maravilha!

    WPC>

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