Hugo – Martin Scorcese

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Hugo é o primeiro filme em 3D de Martin Scorcese. Foi indicado a 11 Oscar, o que lhe dá algum favoritismo na disputa pelo prêmio de melhor filme e melhor diretor.

Era isso que eu sabia do filme ao entrar na sala de cinema (na verdade sabia um pouco mais: que havia uma invenção, já que o nome do filme em português é A Invenção de Hugo Cabret; e sabia que Wesley, um amigo que conhece bastante de cinema, ficou impressionado com os minutos finais do filme).

Agora que vi o filme, posso informar algumas coisas além do que vi na tela grande: Hugo é a adaptação para o cinema do livro A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, escrito em 2007. Andei por uma livraria e dei de cara com o livro:  fantástico, absolutamente fantástico (e digo isso sem ter lido). É um livro de mais de 500 páginas, das quais, imagino, umas 80 são de texto, e o restante belíssimos desenhos de grafite. Estabeleço desde já como leitura obrigatória junto com meu filho.
Voltando ao filme, entrei no cinema com o pé atrás com uma coisa: o 3D. Só havia visto até então dois filmes com essa tecnologia, ambos com meu filho: Megamente, ótimo desenho animado, onde o 3D funciona, e Thor, que de 3D só tem o rótulo. Meu filho de oito anos a determinada altura perguntou-me se poderia assistir ao restante do filme sem os óculos. Por aí dá para ver quanta diferença fazia. Não falarei, contudo, do efeito 3D agora, apenas adiantarei que não permaneci com o pé atrás ao final da projeção.

A abertura do filme é belíssima, de encher os olhos, e a primeira coisa a chamar a atenção é o cenário. Apesar de algumas cenas externas (importantes cenas, frise-se), o universo do filme é a estação de trem e seus relógios. Tudo, aliás, funciona como um relógio, e essa é a mensagem mais evidente do filme, a ponto de o pequeno Hugo fazer a determinada altura um discurso afirmando que o mundo é uma grande máquina, e que cada um tem um papel a desempenhar nesta máquina; ninguém pode ficar parado, ninguém pode fugir a essa responsabilidade. Um pensamento que pode ser interpretado das mais diversas maneiras, à luz do capitalismo ou até mesmo do ponto de vista cristão (a parábola dos talentos trazendo talvez a analogia mais clara a este respeito).

Toda a parte técnica do filme é sublime: os efeitos computadorizados, a música, o figurino, os milhares de detalhes de uma pequena loja de bugigangas, a biblioteca, a caracterização de cada personagem e, claro, a torre do relógio, um lugar cheio de vida por meio do qual Hugo, um pequeno órfão, começa a observar o mundo – seu mundo: a estação do trem.
Ele tenta encontrar as peças para consertar um autômato que seu pai encontrou abandonado num museu. Seu pai, um relojoeiro, morreu antes que fizesse o robô funcionar, e o menino acredita que o autômato escreverá uma mensagem do seu pai. Após tentar roubar peças para consertar o autômato numa loja de brinquedos na estação, ele tem seu caderno de anotações confiscado, e aí começa a sua batalha para recuperá-lo das mãos Georges Melies, o velho dono da loja (vivido de maneira absolutamente brilhante por Ben Kingsley), que julga o menino um simples ladrão. Hugo começa a trabalhar para ele para provar seu valor, e enquanto isso vai criando uma amizade com o velho Melies, que lhe ensina alguns pequenos truques com cartas.

Enquanto isso acontece, Hugo ainda tem que se virar para escapar do Inspetor da estação, um veterano de guerra com uma estrutura de ferro acoplada à perna para ajudá-lo a andar, mas que não funciona bem (uma máquina com defeito). A principal missão do Inspetor, vivido com muita competência por Sacha Baron Cohen, é mandar garotinhos sem família para o orfanato. Ele, que viveu lá, diz a certa altura a Hugo, que o orfanato é um bom lugar para aprender coisas, como obedecer e como sobreviver sem uma família, porque você não precisa de uma.
Mas a vida de Hugo muda mesmo é quando entra em cena aquela que é, para mim, o maior destaque do filme: Isabelle (Chloë Grace Moretz), a neta de Georges Melies. O contato inicial entre os dois se dá quando Hugo pede ajuda à menina para recuperar o caderno que o avô confiscou. Ela aceita ajudá-lo, dando como justificativa o fato de que aquilo tudo poderia se tornar uma grande aventura.

Ela leva-o à biblioteca (quando ele pergunta aonde ela o está levando, ela responde: “Simplesmente para o lugar mais maravilhoso da terra. É a Terra do Nunca e Oz e a Ilha do Tesouro tudo num lugar só”), e quando Hugo diz que gostaria de pegar um livro, ela faz uma pergunta com tanta autenticidade que é impossível não se emocionar:

– Você não gosta de livros?

Em troca, Hugo a leva ao cinema, aonde costumava ir com seu pai. É uma cena simples, mas bela.

Não vou contar mais nada sobre o roteiro. Há pequenos detalhes, floreios à história, para compor o cenário e para “completar a máquina”: o romance entre o Inspetor e a florista, o romance entre a dona do café e o jornaleiro, a bandinha que sempre se vê ameaçada pelo Inspetor, o cachorro…

Não vou contar como eles fazem o autômato funcionar nem o que descobrem depois, o que muda completamente o rumo da história. Acrescento apenas que o filme é uma homenagem de Martin Scorcese ao que ele faz de melhor. Foi-me impossível não lembrar de Cinema Paradiso, apesar de o clima aqui ser muito mais animado. Mas quem ama o cinema tem que assistir a este filme.

Em relação aos personagens, três breves comentários: acho que Ben Kingsley merecia ser indicado ao Oscar; Chloë Grace Moretz é uma princesa. Ela atua com tanta vitalidade, emana tanta alegria dela, que é quase impossível lembrar que ela interpretou (muito bem, por sinal) um personagem tão pesado quanto a pequena vampira de Deixe-me Entrar. O que me chama a atenção nela não é somente a beleza em si, mas é que quando ela sorri, dá vontade de sorrir junto (para mim foi inevitável projetar Beatriz, minha pequena filha de um ano alguns anos mais velha, sorrindo daquele jeito). Já Asa Butterfield, o pequeno Hugo, foi para mim o elemento menos brilhante do filme. Não que ele seja ruim. Mas ele é meio inexpressivo. Quando recebe a notícia da morte do seu pai, seu rosto praticamente não se altera; quando ele vê as cinzas do que supostamente era seu caderno, sabemos que ele chora por causa das lágrimas, mas sua expressão não denuncia exatamente tristeza. Talvez eu esteja sendo rigoroso demais porque o contraste foi muito grande: Ben Kingsley e Chloë Grace Moretz estão estupendos, ele está apenas… bem.

Por fim, o 3D: nas mãos de um mestre é possível entender que essa ferramenta pode ser utilizada para dar contornos à história, não para dar sustos ou apenas efeitos “WOW” de cinco em cinco minutos. Desde a abertura do filme até o encerramento, o 3D é parte da história e ajuda a contá-la, torna aquele mundo mais mágico. Duas cenas em particular me chamaram a atenção: logo no começo, a câmera passando pelas pessoas entre dois trens em movimento, e a mais espetacular, o mundo visto através de um aquário. Sensacional!

Cada minuto de Hugo vale a pena. A velha mensagem de que cada um tem seu papel no mundo e que cada um vai conseguir fazer aquilo que é sua missão é exatamente isso: velha. Mas dá para contar com inteligência e com sensibilidade. E o rumo que o filme toma no seu desfecho é a cereja no bolo, tornando Hugo um filme inesquecível para quem gosta de cinema.

Minha Avaliação:

4,5 de 5

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5 Respostas para “Hugo – Martin Scorcese

  1. Hugo impressiona pela leveza. Apesar de ser um filme que tem apelo dramatico (um orfao, sozinho numa estacao de trens, incompreendido e ameacado de ser recolhido a um orfanato), o filme flui com a suavidade dos ponteiros de um relogio. Agrada a adultos, especialmente os que amam o cinema, e certamente atrairah o olhar das criancas, envolvidas nas aventuras de um menino com seu automato e de sua fiel amiga Isabelle. Essa relacao de Hugo com o automato eh peculiar. Ha momentos em que Hugo busca o olhar do pequeno robo, como se com ele interagisse ou dele pudesse extrair a presenca de seu pai. Ha um subtexto no filme, que remete a questao paradoxal do progresso (representado pela guerra) e da arte. Na verdade, esse paradoxo acompanha outros momentos: o automato (progresso) e as fotos e desenhos de Georges (arte); o ritmo frenetico da estacao de trens (progresso), embalada pela banda que toca ali mesmo e pela sensibilidade da florista (arte). Martin Scorsese sintetiza e resolve esse paradoxo, com o uso competentissimo da tecnologia 3D (progresso) como ressaltou o Leo, para contar uma estoria com sensibilidade (arte). Hugo eh pura arte, embalada em cinema de melhor qualidade, que encanta e emociona.

  2. Eu vou reler teu texto antes de comentar com mais propriedade. Em mais de um sentido, concordamos nos pontos principais: as diversas “interpretações” possíveis e o talento dos intérpretes que tu destacaste. Eu acrescentaria um comentário sobre a sagacidade em, ao oferecer a perspectiva carente do personagem ambíguo do Sacha Baron Cohen (que fala que “a família não é tão importante!” Num filme infantil, pasme!), demonstra que Hugo é apenas uma peça no organismo maquinal que é o filme como um todo, com bem disseste.

    Não sei se tu leste meus comentários iniciais sobre o filme, mas… Eu o destetei até cerca de 82 minutos. Destetei mesmo, odiei! Do meio para o final é que a minha porca torceu o rabo: justamente quando a Isabelle o ensina a valorizar tudo o que pode ser encontrado de sobrevivencial numa biblioteca. E Hugo retribui com amor ao cinema… Os créditos do filme são apaixonantes, bem como as homenagens aos irmãos Lumière e ao impagável Mèliés. Pena que, aqui em Sergipe, o 3D só estreou dublado e não verei o trem rasgar a tela novamente, tal qual em 1895, mas fico contente em receber os teus prazeres por procuração textual… (WPC>)

  3. Eu li A Invencao de Hugo Cabret em 2007 e gostei, literatura infantil de excelente qualidade. Recomendo. E lembro de reparar que o livro ja era super cinematografico, provavelmente mais por causa das ilustracoes, mas tambem pelo seu ritmo. Uma proposta bem interessante, estou curiosa pra ver o filme.

    • Como falei no post, Carolina, este é um livro que certamente vou comprar para ler com meu filho e, daqui a uns dois anos, com minha filha. Fiquei impressionado com a beleza dos desenhos.

  4. Pingback: Os Vingadores (filme) « Catálise Crítica

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