Khodorkovsky (2011)

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Assisti hoje a esse documentário que tenta desvendar um pouco da impressionante história de Mikhail Khodorkovsky, que chegou a ser o homem mais rico do mundo antes dos quarenta, e que se tornou em pouco tempo o mais famoso prisioneiro russo, acusado de sonegação de impostos.
Nunca tinha ouvido falar dele, mas quando vi o filme em cartaz no Landmark Theatre, procurei o resumo e li que tinha a ver com corrupção, tema que sempre é do meu interesse. Vi alguns reviews elogiando o documentário e pronto: decidi-me a vê-lo.
O autor do filme, o alemão Cyril Tuschi, passou cinco anos envolvido com a pesquisa, bastante difícil, como demonstrada ao longo do filme: quase ninguém quer da informações sobre o caso. O motivo é que há muitas evidências de que Khodorkovsky é na verdade um preso político.
Tuschi parte das informações básicas para ir investigando mais a fundo: Khodorkovsky aproveitou-se do momento de abertura do mercado russo, fez um bom dinheiro com o primeiro banco privado russo, começando a sua carreira rumo aos primeiros bilhões com a privatização da Yukos, empresa petrolífera que ele passou a controlar. Ele começou então a se envolver na política e a projetar sua imagem como “líder”do emergente capitalismo. Depois de questionar a corrupção no governo Putin, foi acusado de sonegação de impostos e preso, sentenciado a oito anos de prisão na Sibéria.
Talvez o melhor do documentário (além da interessantíssima história, com toques altamente dramáticos), seja a contextualização feita pelo autor. Ele não apenas conta a história do bilionário russo, mas desenha bem como foi a transição entre o socialismo e o capitalismo na Rúsia e como “funciona” a política atualmente.
Tuschi começa sua empreitada tentando falar com ex-sócios, ex-amigos, ex-colaboradores e qualquer um que tenha tido algum relacionamento com Khodorkovsky. Tenta até mesmo falar com Putin, sem sucesso. Aliás, nesta primeira parte do documentário, ele dá bastante destaque a essa dificuldade, já dando os contornos do que ele acredita estar por trás desse julgamento: a questão política. Quase ninguém que ele cita dá entrevista, o que é meio desanimador no início. Ele consegue aqui e acolá alguns bons colaboradores mais isentos: um jornalista que fora contratado pela Yukos para melhorar a imagem da empresa; um ex-ministro da economia; um jornalista inglês que morou alguns anos na Rússia; um ex-ministro das relações exteriores da Alemanha; um ex-companheiro de cela de Khodorkovsky (falarei sobre ele daqui a pouco); um jovem membro de um partido de oposição que diz que Khodorkovsky é o primeiro capitalista que ele defende, e alguns outros. Mas a maior parte das entrevistas acaba sendo com gente ligada diretamente ao bilionário: dois ex-sócios e um ex-advogado, também sentenciados a prisão, exilados em outros países; um consultor financeiro da Inglaterra; dois membros da Open Russia, organização filantrópica fundada pelo próprio jovem bilionário; a mãe; a ex-esposa; o filho mais velho; o ex-responsável pela segurança de uma de suas empresas, ex-integrante da KGB; e finalizando, como grande trunfo do autor, como ele mesmo reconhece, cartas da prisão e, ao final do vídeo, uma entrevista em vídeo (a primeira concedida depois que ele foi preso) com o próprio Khodorkovsky.
Khodorkovsky não era um santo, e isso ele mostra bem no documentário. Era um sujeito muito esperto, que conseguiu se aproveitar bem da glasnot e da perestroika, políticas de transparência no governo e de abertura do mercado. Fez dinheiro com seu banco, mas seu grande salto foi com a aquisição da Yukos, empresa de extração de petróleo, comprada segundo relatado, por 300 milhões de dólares e avaliada, meses depois, em mais de 5 bilhões. O próprio ex-ministro da economia deixa claro: a Rússia estava se abrindo para o mercado internacional e queria se modernizar, privatizando algumas empresas. Mas não queria vender a empresas americanas, francesas, inglesas ou quem quer que fosse de outro país. Só que os empresários locais não tinham nem de perto o suficiente para cobrir o valor de mercado das empresas (o país era socialista, então ninguém acumulava capital, lembram?). Por esse motivo essas aquisições eram de fachada, e sempre envolviam corrupção para desclassificar empresas de fora e favorecer alguns “futuros bilionários russos”. Claro que o governo esperava, com esse presente, manter o controle sobre os rumos das empresas e também receber alguma contribuição financeira.
Em uma das cartas que Khodorkovsky envia ao autor do filme, ele diz algo mais ou menos assim:
“Fizemos coisas erradas, adotamos atitudes antiéticas e desrespeitamos a moral em alguns assuntos, mas não fizemos nada diferente daquilo que é normal em nosso país.”
Ele não se referia à acusação de sonegação de impostos, que ele considera infundada, mas ao modo como conquistou sua riqueza, sendo beneficiado pelo governo em troca de uma boa mesada.
Um dos pecados de Khodorkovsky, segundo um dos entrevistados, foi começar a se julgar uma das grandes mentes de seu país e projetar-se em relação ao resto do mundo. Ele começou a romper o pacto implícito com o governo e iniciou conversações com a Exxon, por exemplo, para vender parte das ações da Yukos à gigante americana. Também teve encontros pessoais com altas autoridades, até mesmo com George W. Bush, querendo facilitar os negócios entre “sua empresa”, a maior pagadora de impostos da Rússia, e empresas americanas.
Já manifestando evidentes aspirações políticas, fundou em 2001 a Open Russia, organização que procurava, dentre outras coisas, estimular e incentivar a educação, que segundo ele próprio, era fundamental:
– Para que os cidadãos russos deixem de desejar apenas ter um trabalho e passem a desejar viver.
Neste ponto é bem evidente como há ainda uma pressão política fortíssima na Rússia. O autor do documentário cita a resposta dada por um dos mais ricos empresários Russos à pergunta “Você doaria dinheiro para a educação dos pobres?”:
Não. Dinheiro se dá para crianças doentes. Pensar em educação já é ideologia.
Putin e Khodorkovsky, segundo o autor, mantinham relações amistosas até o momento em que o bilionário começou esse envolvimento com política, chegando a apoiar um partido de oposição. O presidente russo teria enviado recados para ele se afastar, mas Khodorkovsky se fez de rogado. A gota d’água teria acontecido no encontro anual do presidente com os empresários mais ricos do país, ocorrido em 2003. Khodorkovsky fez uma crítica dura à corrupção no governo, e segundo alguns dos entrevistados, foi demais, já que ele sabia que o encontro estava sendo transmitido para todo o país e praticamente acusou a pessoa do presidente, sendo que ele próprio foi quem mais colheu frutos dessa rede de corrupção.
A resposta de Putin é colocada na íntegra no documentário e é impossível não ver o que ela encerra. Ele desconversa quanto ao assunto corrupção, mas diz que há outros problemas a serem considerados, como o fato de algumas empresas terem problemas com impostos, como é o caso da Yukos. Deveríamos, diz ele, nos perguntar por que essas empresas têm dificuldade e o que poderíamos fazer quanto a isso. E termina mais ou menos assim: não sei se você entendeu, mas estou devolvendo a bola para o seu lado da quadra.
Depois disso começam as acusações de sonegação até que o vice-presidente da Yukos é preso. Tratava-se de um recado para o bilionário: segundo alguns dos entrevistados, a primeira opção que foi dada a ele era dar 100 milhões de dólares para o governo para encerrar o assunto. Como ele se negou, havia ainda a opção de fugir do país e não mas voltar à Rússia. Mas Khodorkovsky se recusou. Ele estava fora do país, nos EUA, quando soube que seu retorno à Rússia implicaria sua prisão, mas mesmo assim decidiu voltar e ainda deu palestra numa universidade, entrevista na TV e foi meio como mártir para a prisão.
O documentário ainda aborda o segundo julgamento de Khodorkovsky, dessa vez acusado de fraude e lavagem de dinheiro. Segundo entrevista do próprio bilionário, as acusações eram absurdas e seu julgamento seria um marco na história da Rússia, pois seu resultado indicaria inevitavelmente que seu país estava dando um novo passo rumo ao progresso, mostrando ter um judiciário imparcial. Claro que ele não esperava o resultado: foi condenado a mais seis anos de prisão, e só deve sair em 2017.
O documentarista atribui muito dessa nova condenação a um possível acordo que seu companheiro de cela teria feito para deixar a prisão: tornar-se companheiro de cela de Khodorkovsky por um tempo e inventar algumas mentiras quando saísse da prisão. A entrevista com esse ex-companheiro é quase a confissão de que isso é verdade.
Ele sorri tristemente em um determinado ponto e diz:
– Eu só tenho uma vida, tenho que fazer as escolhas certas. Viver é caro, mas a vida é barata. Se eu vivesse em outro país, poderia falar mais abertamente sobre esse assunto…
O toque final é a hipótese lançada por um dos entrevistados, um inglês contratado para dar consultoria financeira no início da carreira de Khodorkovsky, sobre o motivo de ele não ter fugido do país quando teve oportunidade:
– Ele tem aspirações políticas. Mas num país ex-socialista, é um pecado grave ser rico, e ele se tornou muito rico. Acredito que ele se deixou ser preso para “purificar” a sua imagem frente à sociedade. Ele não mudou uma vírgula no seu discurso desde que foi preso. Sairá como um vitorioso.
Apesar de ter muito mais gente “favorável” ao russo, o autor consegue dar um toque de imparcialidade ao seu documentário. Para mim, prova disso é que ao final do filme, fiquei com a convicção de que muito possivelmente Khodorkovsky é culpado de muitas coisas. Mas ele não está preso por causa disso.
Minha avaliação:
4,5 de 5

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2 Respostas para “Khodorkovsky (2011)

  1. As duas frases finais dão o tom de meu interesse. Afinal de contas, documentário que se pretende a tal testemunho realista ganha o meu afeto desde já! Também não conhecia o personagem real, mas… Nada que o tempo não resolva. And, as said by The Beatles, “with a little help of my friends”… (WPC>)

    • Recomendo vivamente o documentario, Wesley. Nao possuo muitos parametros para falar de sua qualidade cinematografica, pois foi o primeiro documentario que vi no cinema e, na televisao, nao vi tantos assim. Alem disso, o tema me eh muito caro e fiquei interessado toda a duracao da pelicula (duas horas). Nao tenho como separar quanto deste interesse veio do tema e quanto veio do documentario em si.

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