Visita inesperada

Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias.

Visita inesperada

 No pátio, a roupa branca estava pendurada em cordões. Sueli estava arrancando dali suas saias e blusinhas ainda molhadas e enfiando todas no balde quando Elias entrou no terreiro e estacionou a moto sob o pé de amêndoa. Ela olhou para ele e esperou. Havia no seu rosto um rubor vívido, especial, como se algum ocorrido lhe tivesse causado grande prazer. Caminhou em direção à grade e abriu a portinhola e pegou a mão imensa de Elias e, com um sorriso degenerado, colocou-a entre as pernas. Não sabia que seria tão rápido, ela disse.

Não vai me perguntar por onde andei e nem por que fiz você esperar?

Ela entrecerrou os olhos – um olhar que sonhava com cem homens. Mostrou-lhe a pontinha da língua e em seguida se pôs a rir. Não, hoje não, ela disse. Hoje serei boazinha.

A porta se abriu, empurrada pra dentro. A cama estava desfeita. No chão, uma calcinha vermelha de um tom desbotado e outras roupas de baixo. A janela estava aberta, e o ar que entrava trazia para dentro do quarto o cheiro nauseante das flores. Não era um quarto de moça, ele sabia bem. O odor de perfume barato e os poucos objetos femininos e outras tentativas de torná-lo assim, tinham apenas o efeito de deixá-lo com aquele ar morto e estereotipado dos bordéis. Elias olhou para a cama e disse Tire a roupa. Ela obedeceu. Ficou de costas para ele e, com um único movimento, livrou-se do vestido, deixando-o serpentear sobre o corpo até o chão. Depois, empurrou-o com os pés para o lado e deitou na cama. Venha.

Enquanto olhava para o corpo de Sueli, puxou o zíper e tirou as pernas de dentro das calças. Ficou nu em um segundo, e em dois estava deitado. Ela se virou, mirou os olhos nele e disse Não me odeie por causa disso; e ele, enlaçando-a com os braços, silenciou-a com um beijo violento.

Quanto mais ele a beijava, tocava, apertava os seus seios, mais ela gostava e murmurava coisas ao seu ouvido. Mas ele não queria ouvir nada. Desejava apenas, através do corpo dela, esquecer o que fizera. No fim, abraçou-a com força. Cascatas de suor escorreram da cabeça aos pés. Gemidos nada discretos ecoaram entre as quatro paredes e ribombou nos outros cômodos. Sueli, assustada, soltou-se dos braços de Elias e deitou do seu lado, dando fim àquele paroxismo.

Em que está pensando? ela perguntou, arfante.

Em nada, ele disse, e girou os pés para fora e se levantou e caminhou até a janela.

Quando vai ser o enterro?

Está marcado para as três horas.

Ela olhou para o relógio de parede e disse Já são três horas, Elias.

É, é isso.

Ela se levantou e cobriu os seios com o lençol. Você a amava?

Era a mãe da minha filha.

Eu não perguntei isso. Perguntei se você a amava.

Você é a resposta à pergunta.

Ela congelou…

O que você pensa em fazer agora?

Fumar um cigarro e depois tomar um banho.

É sério, Elias. O que você vai fazer?

Vou procurá-los e matá-los.

Se você não a amava, ela disse de forma inocente, por que então se arriscar por uma vagabunda?

Elias enfureceu-se de repente. Seu rosto começou a ficar sombrio, como uma nuvem de tempestade, e, enristando o dedo indicador para Sueli, esbravejou: Nunca mais fale isso, você está me entendendo? Nunca mais abra a sua boca para falar assim dela, ouviu bem? 

Tá bom, tá bom. Não precisa gritar que não sou surda, porra! Por que arriscar a sua vida, me responda.

Porque não se leva embora o que é meu e fica por isso mesmo. Satisfeita?

Sueli emudeceu ante aquela resposta.

Melhor fechar as persianas, ela disse, e apontou com a cabeça para a janela.

Que é que tem?

As pessoas vão falar.

Elas faziam isso antes de mim e farão depois.

Não seja bruto. Quero dizer que vão falar da sua mulher.

Ela está morta. Não faz mais diferença.

E quanto à honra dela.

Está querendo me dar lição de moral?

Você me procurou, Elias, lembre-se disso.

E sem eu precisar fazer muito esforço, você já estava com as pernas arreganhadas. Eu lembro sim.

Sueli resmungou algo e, de nariz arrebitado, puxou o lençol sobre o corpo e se levantou e foi para a cozinha. Volte aqui, Sueli, ele disse; e com a mão, agarrou-a pelo braço e a empurrou contra a parede. Então, com o rosto bem junto ao dela, disse: Repita. Olhe nos meus olhos, Sueli, e repita se tiver coragem.

Vá para o inferno.

Com a mão aberta e firme ele sentou um tapa no rosto dela com toda a força que tinha e ela caiu de costas e bateu a cabeça contra a parede e no mesmo instante começou a sair sangue do seu nariz. Sueli escondeu o rosto sob o braço e disse Não, por favor.

Elias se agachou e segurou-a pelo queixo apertando com força entre os dedos e disse Olhe para mim. Olhe para mim. Se eu souber que você fez isso, Sueli, eu juro por Deus que corto você ao meio.

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