Algumas perguntas

Algumas perguntas

Eram três da tarde quando Samuel chegou em casa. Foi para o quarto, acendeu a luz, pegou o molho de chaves sobre a escrivaninha e abriu a gaveta e guardou o revólver e saiu.

Entrou na oficina e tirou a camisa de botão e a pôs no prego atrás da porta e vestiu o avental de couro. Abriu a janela de madeira e depois começou a preparar a fornalha e o fole. No canto da bancada, dentro de um embrulho feito com jornal, retirou um pedaço de ferro em forma de cano e pousou-o sobre a bigorna e começou a martelar, tilintar, martelar, tilintar.

Alguém passou pela janela fazendo sombra e disse Bom dia. Ele parou de martelar e, um pouco ofuscado pela luz encanecida, disse Bom dia. Rodeie, por favor. A porta está aberta.

O homem circundou a oficina e apareceu na porta e estendeu a mão e disse Bom dia, Seu…

Samuel.

Isso, Samuel. Desculpe-me. Tenente Chris Welber.

Sim, eu me lembro. Em que posso ajudar, policial? perguntou Samuel em tom seco, como quem trata de negócios.

Tenente.

Certo. Em que posso ajudar?

Responder a algumas perguntas. Só isso.

Um minuto, por favor, disse Samuel, e dando as costas entrou no quarto contíguo e voltou com um banquinho de madeira e colocou no chão aos pés do tenente e o convidou a sentar.

Ah, obrigado.

Samuel encostou-se na parede e apoiou o pé nela deixando a marca da sandália. E então?

O tenente ajeitou a pistola no coldre, tirou o caderninho do bolso da calça, a caneta do bolso da camisa, bateu com a ponta no caderninho por duas vezes e então disse Pois bem. Humm, o funeral aconteceu há cinco dias, não foi?

Samuel olhou para o calendário com a imagem de São Jorge e fez o cálculo na cabeça e disse Sim, treze de setembro de noventa e nove.

O seu irmão estava lá?

O tenente sabe a resposta.

Conhece o motivo de ele não ter comparecido?

Não posso responder por ele, não é verdade? Sei apenas que ele não esteve presente. Mas posso dizer, se isso ajudar em alguma coisa, que ele precisou tomar remédios para conseguir dormir e que…

E que no meio do velório apontou uma 12 para a cunhada.

Samuel fez que sim.

O tenente franziu as sobrancelhas e pigarreou e escarrou no chão. Desculpe-me, ele disse. Humm, certo. Ainda não me acostumei ao clima daqui. Poderia me dizer como era o relacionamento deles dois?

De Elias e Nancy?

A respeito de quem estávamos falando? Sim, deles. Humm, brigas?

Eram casados, tenente.

Quero saber se eram constantes.

Samuel fez um gesto impaciente com a cabeça. Muito idiota, ele pensou. Não, não que eu saiba.

Humm. Eu não sei da veracidade dessa informação, mas corre o boato de que eles estavam em crise conjugal e que não tinham se separado unicamente por causa da filha. Sabe algo a respeito?

Não, não sei, policial.

Tenente. Sinto como se tivesse algo que você não está me contando, Samuel.

Samuel pareceu achar uma certa graça nisso.

Falam também que ela estava tentando levar a casa dele. Há alguma verdade nisso?

O senhor pode me fazer um favor?

Disponha.

Dê uma olhada a sua volta. Agora olhe pela janela. O que o senhor vê?

Pés de milho ainda verdes.

Esse sou eu. Essa aqui é a minha vida. A oficina, as espingardas e a roça. Eu não me interesso pela vida dos outros. Sobre o meu irmão, apenas me interessa saber que nascemos da mesma mãe e do mesmo pai e que eu mato e morro por ele, só isso…

Você já esteve preso.

Como disse?

Eu disse que você já esteve preso.

Sim. Uma noite. Como soube?

Um amigo policial da outra cidade me contou.

E o que foi que esse seu amigo contou e o que isso tem a ver com o resto?

Não me disse muito. Disse apenas o que estava escrito no boletim de ocorrência. Que o senhor foi acusado por uma senhora de atentar contra a sua integridade moral. Tentou estuprá-la.

Foi assim que ele contou? Que eu tentei estuprar uma senhora?

Assim está no boletim.

O rosto de Samuel enrubesceu e ele desviou os olhos para o martelo sobre a bancada e pensou em pegá-lo. Procurou disfarçar o ódio pelo homem que trouxera à tona a lembrança do dia em que foi algemado e atirado às grades como um bandido. Um homem honesto, criado às sacudidelas, na enxada, arrancando topo, acusado de um crime que não cometeu.

Eu fazia fretes, disse Samuel, sem rodeios ou proêmios. Tinha uma C10 azul, 1974. Arrumei uma viagem para um povoado próximo. Levar um carregamento de galinhas. Na pista, uma mulher levantou o braço me pedindo carona. Nunca gostei de fazer isso, mas parece que naquele dia eu estava com o capeta e quebrei uma das minhas poucas regras. Parei no acostamento e abri a porta do carro e ela entrou. Uma senhora de meia idade, bonita, cabelos castanhos, perfume forte, vestido azul escuro que roçava os joelhos. Trocamos poucas palavras. Dirigi durante uma meia hora e não me adverti do ponto que ela pediu para descer. Era noite e tinha muita neblina. Tentei convencê-la de que eu não podia simplesmente parar em qualquer lugar. Cheguei a apontar a estrada para ver se a convencia, mas a mulher estava louca (devia ter fumado alguma coisa. O cheiro dela não me enganava). De repente, assim, do nada, ela abriu a porta com o carro em movimento e pulou para fora. Parei o carro a alguns metros de onde ela havia caído e desci para prestar socorro. Estava com um corte profundo na testa. Sangue escorrendo pelo rosto. Peguei-a nos braços e a coloquei no carro e fiz o retorno para a cidade e fui ao hospital. Sem médicos no momento, disse uma das enfermeiras. Só em Simão Dias (maldita hora que não a deixei por ali mesmo). Cheguei à cidade e fui para o hospital.

Como era o hospital?

Branco e com azulejos também brancos.

O tenente desviou o olhar fixando-o nos pés da bancada como se tentasse lembrar alguma coisa que aquilo vagamente lhe recordava.

Fiquei gelando por alguns minutos. Por fim, depois de muita espera, levaram a mulher e entraram numa sala ali perto. Sentei numa cadeira azul ao lado de duas mulheres e elas me perguntaram o que havia acontecido e eu contei tudo. Ouviram caladas e acreditaram na minha história (mas também não tinham por que duvidar). Meia hora depois, a mesma porta se abriu e da sala me apareceu uma enfermeira gorda e um médico careca e rosa. Quem trouxe a paciente com o ferimento na cabeça? ele perguntou. Eu me levantei e me apresentei e repeti a ladainha. Ele virou a cara de porco para o lado e depois me veio com essa: Não, é porque a senhora acordou e disse que o senhor tentou estuprá-la. Gelei na hora. Todos me olharam ao mesmo tempo, como se tivessem combinado com antecedência. Não, Seu Doutor, eu já disse o que aconteceu. Pergunte as senhoras aqui (elas enfiaram a língua no cu e não disseram nada). Comecei a argumentar. Perda de tempo. Até que resolveram chamar a polícia. Maldita hora que deixei a pessssste daquela mulher entrar no meu carro. Por que não deixei o diabo no primeiro hospital e segui o meu caminho? Mas não. Gente besta demais tem que se arrombar mesmo para aprender.

E a policia?

Sim, a policia. Dois homens. Um deles era daqui. Mais ou menos do seu tamanho, só que tinha uma barriga igual a de um barril. Preto. Preto mesmo. Daquele que quando ri no escuro a gente só enxerga os dentes. O outro não faz diferença. Era pixote. Mas o daqui conhecia o meu pai de tempos. Cortou fumo com ele. Sabia da minha procedência. Chegou sem dizer nada, passou por mim como se eu fosse um poste, falou com o médico, e o porco de jaleco branco só fez apontar com os olhos e falar É esse, policial. O preto virou para mim e me mandou encostar a cara na parede e colocar as mãos nas costas…

Mas ele não tinha o direito, interrompeu o tenente. Você sabia disso.

Fiquei sem reação. Juntou a fome com o medo de cagar, diria o meu pai. Nunca tinha passado por uma daquela

O tenente riu de leve, afetado. Porém, ao notar a seriedade sepulcral no rosto de Samuel, ficou sério e disse Desculpe-me. Prossiga.

Coloquei as mãos para trás e, de cabeça baixa, como uma rapariga ruim, fui escoltado até a viatura e levado para a delegacia. Uma noite apenas. Mas aquilo me marcou (ah se marcou). Pela manhã, o peste do preto apareceu e disse que a mulher havia tirado a acusação, que tinha se confundido e… Mais alguma coisa que não me lembro agora. Vieram me trazer em casa. Detalhe: Algemado. Pararam o carro e buzinaram. A minha mulher abriu a porta e viu o homem dela saindo de uma viatura, algemado, como fariam a um bandido.

O tenente tossiu mais uma vez e perguntou Você conta essa história a todo mundo?

A todo mundo que pergunta.

Você não precisava contá-la para mim.

Precisava sim.

E o policial “Preto”? ele disse, levantando-se e soltando um bocejo.

Que é que tem?

Viu-o de novo?

Mataram.

Humm.

Curioso isso. Às vezes penso se não foi castigo de Deus o que fizeram com ele.

Pela forma que ele o tratou?

É.

Não, acho que não.

Samuel tirou o pé da parede e pegou o martelo e caminhou até a janela e cobriu o tenente com a sua sombra. Mais alguma coisa? ele perguntou.

O tenente anotou alguma coisa e disse, em tom calmo, pontuado, como se lesse em um livro: Uma ultima pergunta.

Diga.

Você conhece alguma Sueli?

Samuel olhou para ele, avaliando a pergunta.

Conhece?

Não, não faço idéia. Por quê?

Por nada, ele disse, e estendeu a mão e esperou.

Samuel franziu a testa e disse Certo.

Apertaram as mãos num gesto formal. A conversa foi proveitosa, ele disse. Mas preciso ir agora. Samuel anuiu em silêncio. Levou-o até onde estava a viatura e o observou entrar no carro e dar a partida. Aproximou-se do carro e colocou a mão no capô e disse Tenente.

Diga.

Você conheceu J. Leal?

Não. Não faço idéia. Por quê?

Por nada, ele disse, e sorriu e deu dois tapinhas no capô e se afastou do carro. O tenente armou um sorriso débil e disse Certo, e pegou a estrada no sentido da cidade e dirigiu até sumir por completo no horizonte.

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Uma resposta para “Algumas perguntas

  1. Esse capitulo ficou especialmente bom. Espero que voce continue nesse ritmo, de uma pausa de vez em quando nesses livros de direito e termine essa bendita historia. Sua habilidade em reproduzir dialogos eh “digna de nota”.

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