Na loja de livros usados

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento


Só para lembrar que este é um blog que também fala de literatura (faz um tempinho que não posto nada sobre isso), relato um dos melhores momentos que tive aqui em Washington (nem foi em Washington, na verdade, mas explico já):

No dia anterior à corrida, fui a Alexandria, cidade da Virginia que faz parte da região metropolitana de Washington, buscar a minha camisa, o chip e meu número numa loja de esportes. Esta loja fica na King Street, uma rua bastante animada, cheia de restaurantes, lojas e tudo mais. Encontrei justamente nela o que vinha buscando desde que havia chegado a Washington, mas ainda não tinha encontrado: um sebo. Por aqui não existe um nome específico. Loja de livros usados é used books store, nada criativo. A Book Bank used books é pequena, mas tem um enorme acervo, que vai de livros infantis, passando por biografias, direito, jardinagem, até, claro, literatura. Naturalmente passei um bom tempo examinando as prateleiras de literatura. O que eu buscava: bons livros escritos originalmente em inglês. Claro que encontrei por lá gente como Thomas Mann, Dostoievski ou Flaubert, mas para mim não faz o menor sentido ler em inglês o que foi escrito em alemão, russo ou francês. Encontrei até dois brasileiros por lá: o conterrâneo Jorge Amado, ocupando um respeitável espaço, com vários títulos como The War of the Saints, Gabriela, Clove and Cinnamon, Captains of the Sand e alguns outros títulos curiosos (deixo para vocês se divertirem descobrindo que livro é esse primeiro aí); e o quase onipresente Paulo Coelho, também ocupando um grande volume de estante. Se alguém for avaliar a literatura brasileira só olhando para esses dois escritores, vai chegar rapidamente à conclusão de que metade do que se escreve no Brasil não presta…

Saí de lá com sete livros debaixo do braço, comprados a preço de sebo mesmo, e todos em ótimas edições e em perfeito estado de conservação. Grande negócio.

Até o final do ano é provável que pelo menos uns dois deles apareçam por aqui no blog, com as minhas impressões finais sobre a leitura, mas adianto aqui alguns breves comentários a respeito dessas minhas aquisições:

1 – The Comfort of Strangers – Ian McEwan

Escrevi recentemente sobre Atonement, de McEwan, um dos livros mais festejados dos últimos anos, não sem razão, em minha opinião. Quero conhecer mais da obra do britânico, por isso escolhi essa novela curta (apenas cem páginas), que foi seu segundo trabalho, escrito e 1981.

O verso do livro resume a história mais ou menos da seguinte forma, numa tradução meio tosca:

À medida que suas férias se desenrolam, Colin e Maria se prendem à sua própria intimidade. Eles cuidam da própria imagem meticulosamente, como se esperassem por alguém que se importa profundamente sobre sua aparência. Quando eles encontram um homem com uma história perturbadora a contar, eles são arrastados para uma fantasia de violência e obsessão.

Só agora, escrevendo esse post, descobri que o livro já virou filme, dirigido por Paul Schrader (roteirista de pelo menos duas obras-primas – Raging Bull e Taxi Driver). O nome em português é “Uma estranha passagem em Veneza”, e tem a participação de Cristopher Walken, Rupert Everett e Helen Mirren.

2 – American Pastoral – Philip Roth

Já escrevi sobre Homem Comum e O Complexo de Portnoy, dois belíssimos livros de Roth. Este é considerado por muitos sua obra-prima, tendo ganhado o Pulitzer em 1997. Não me inteirei a respeito da trama. Sei apenas que conta a história de Swede Levov, um homem que tinha tudo – foi um atleta lendário nos tempos de faculdade, casou com a ex-Miss New Jersey, herdou uma fábrica do pai – até que a sua “bela sorte americana” o abandonou. O que acontece daí em diante, só quando eu ler, para não estragar a minha própria surpresa.

3 – Freedom – Jonathan Franzen

Alardeado pelo jornal The Guardian como o livro do ano e do século, fiquei muito curioso para ler esta história, e encontrar a edição de capa dura no sebo, dando sopa, ajudou. Segundo o site da Companhia das Letras (que lançou a edição e português no Brasil),

“A história de Liberdade gira ao redor de um trio de protagonistas. Walter e Patty Berglund formam, junto com os filhos adolescentes Joey e Jessica, uma típica família norte-americana liberal de classe média. Richard Katz é um roqueiro descolado que tenta fugir da fama que tanto buscava no passado. Os três se conhecem no final dos anos 1970, na Universidade de Minnesota, e a partir daí suas vidas se entrelaçam numa complexa relação de amizade, paixão, lealdade e traições que culminará com uma série de conflitos decisivos na primeira década do novo milênio, época em que o conceito de liberdade parece tão onipresente quanto fugidio.”

Sei que começarei a leitura com o nariz meio torcido, talvez por conta de na capa da edição que comprei ter um pequeno mas significativo selo “Oprah’s book club 2010 selection”, mas só poderei me pronunciar daqui a um bom tempo.

4 – The Western Canon – Harold Bloom

Este é um livro que me desperta muita curiosidade. Depois de ter lido o excelente Como e Por Que Ler, do mesmo Bloom, queria saber que cânone ocidental era esse tão ousadamente eleito pelo crítico, e que excluiu, apenas para dar um exemplo simples, Dostoievski. Sei que não concordarei com tudo que ele escrever, mas ler sobre literatura me dá quase tanto prazer quanto ler literatura.

5 – Life of Pi – Yann Martel

Um garoto

Um tigre

E o vasto Oceano Pacífico

Este é um romance de narrativa tão rara e maravilhosa que pode, como uma personagem diz, fazer você acreditar em Deus.

Pode um leitor realmente pedir mais alguma coisa?

Esta é a orelha do livro, e não preciso mesmo pedir mais nada. A vida de Pi vai ser um dos primeiros livros que lerei quando voltar, não tenho dúvida.

6 – Gravity’s Rainbow – Thomas Pynchon

Um dos mais aclamados escritores americanos e talvez o mais recluso. Tanto que uma das únicas fotos conhecidas dele, que tem 74 anos, é de quando ele servia na marinha, ainda bastante jovem. Essa sua fama já rendeu até duas curiosas aparições em Os Simpsons, em que ele gravou sua voz original, mas seu personagem, quando aparece, traz um saco de papel na cabeça e faz brincadeira com a sua própria fama de recluso.

Gravity’s Rainbow é considerado sua obra-prima, e, considerando que nunca li nada dele, parece ser um ótimo começo, apesar de ser um grande desafio, já que li alhures que o livro tem mais de 400 personagens e é bastante complexo. Assim o resume o site da Livraria Cultura:

“Lançado em 1973, ‘O arco-íris da gravidade’ foi o primeiro grande romance impregnado dos valores e da linguagem da contracultura norte-americana. Num clima ao mesmo tempo de pesadelo e de desenho animado, uma sucessão de peripécias se desenrola num ritmo estonteante. Mas o verdadeiro protagonista do livro não é Slothrop, o anti-herói picaresco que atravessa o cenário devastado da Europa ao final da Segunda Guerra, e sim a linguagem de Thomas Pynchon. É tal sua força poética que, apesar do grotesco dos incontáveis personagens e do absurdo das situações por eles vividos, o leitor se vê totalmente envolvido e fascinado pelo universo mágico da narrativa.”

Deixei a livraria com um pouco de peso na consciência por ter deixado lá Mason & Dixon, outro livro de Pynchon, numa belíssima (e barata) edição. Escrito em 1997, este livro de quase 800 páginas mistura fatos históricos reais com abdução alienígena, robôs, religião e muito mais. Se eu voltar à Book Bank acho que não resistirei…

 7 – The Butcher Boy – Patrick McCabe

O filme de Neil Jordan me deixou com um nó na garganta e muita vontade de ler esse livro. Apesar de saber que esse romance não é o de maior “valor literário” dentre os que comprei, foi ao avistá-lo na prateleira que meus olhos brilharam, porque já o procurei bastante, sem sucesso. Narra a história de Francis, um garoto irlandês que passa a viver num violento mundo de fantasia à medida que seus dramas familiares vão se tornando cada vez maiores. E não dá para dizer mais que isso.

Anúncios

3 Respostas para “Na loja de livros usados

  1. Todos me pareceram bastante interessantes, especialmente Life of Pi. Vou tentar procurá-lo por essas bandas de cá.

  2. Life of Pi é sensacional. Falando sobre Pynchon eu não li nenhum desses que você mencionou. Parei de ler “O leilão do lote 42” sem chegar na metade do livro, que é considerado o romance menos complexo do autor. Agora resolvi ler “Contra o dia” e estou amando. Livros como esses a gente só encontra mesmo em espaços troca-livros.

    • Tenho O leilão do lote 42 em inglês, além de Gravity’s Rainbow. Ainda estou juntando coragem para ler Pynchon, famoso por ter uma literatura hermética e repleta de referências. Também estou devendo a leitura de American Pastoral, de Roth. Homem Comum e O Complexo de Portnoy são espetaculares.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s