Somente a verdade – Parte 1

Somente a verdade

Eram quase cinco da tarde e não havia carros na pista. Ele manteve o olhar para frente e esticou o braço e girou o botão de sintonização, devagar, para um lado e para o outro, pensando: Quem terá sido esse J. Leal?

Passou por um matadouro em reforma e uma antiga fábrica de cimento. Quando avistou o posto de gasolina, reduziu a velocidade e estacionou a viatura ao lado da bomba e baixou os vidros e desligou o rádio. Quantos litros, Seu policial? perguntou o frentista de feições embezerradas e macacão verde.

Ele girou a chave de ignição e pôs fim ao ronronar do motor. Tenente, ele disse. Pode colocar 50.

Desculpe-me, Sssenhor Tenente.

Não se martirize por tão pouco. Você não foi o primeiro e nem será o último.

O rapaz fez que sim com a cabeça e forçou um sorriso elástico. Pronto, ele disse, e estendeu o braço e recolheu a importância da mão do Tenente. O senhor é novo por aqui.

Sim, sou.

Mais alguma coisa, Tenente?

Chris Welber sorriu cheio de si e deu partida no carro. Não, muito grato pelos seus serviços, ele disse. Tenha um bom dia, e pôs o carro em movimento, mas parou poucos metros à frente. Então, ergueu o braço para fora da janela e, curvando os dedos, chamou o frentista com um aceno e disse Faça-me um favor.

O rapaz aproximou-se devagar, movendo-se com uma lentidão acintosa, contando os passos, inclinou-se sobre a porta do carro e disse Senhor?

Uma pergunta apenas.

Diga.

Quem foi J. Leal?

J. Leal.

Sim. Quem foi ele?

O senhor quer dizer Ela.

Ela?

Sim. Uma radialista. Jussara Leal. Trabalhou na rádio daqui a mais ou menos um ano e pouco. Moça bonita. Loura. Tinha uns trinta anos. Valente. Não perdoava ninguém. Linguaruda que era o Diabo. Foi jovem… Uma pena.

Tenho negócios com ela. Sabe onde posso encontrá-la?

Acho que o senhor não entendeu.

O tenente fitou de soslaio os olhos do homem, e num tom de voz delicado e ambíguo disse Humm, certo. Mas como aconteceu?

Ele encostou as costas da mão na boca e em seguida espreguiçou-se. Um mistério, ele disse.

Do qual tipo?

Daqueles que vemos no programas de televisão. Uns acreditam no suicídio, outros no assassinato. Ela mexeu em cobra com vara curta, ninguém pode negar isso. Falou muitas verdades; disse muitas mentiras. Plantou. Colheu. É assim que as coisas funcionam. Fazer o que, né?

O tenente meneou a cabeça. E você, em que acredita?

Assassinato. Pegaram a moça, colocaram num carro, levaram até a ponte do vaza barris e mandaram ela se atirar de lá de cima. Foi repentino. Num dia ela estava na rádio, falando, descendo o pau, no outro, a notícia: encontrada morta.

Humm, certo. Bem, preciso ir. Obrigado mais uma vez pela sua atenção. Tenha um bom dia.

O tenente pisou no acelerador e pegou a estrada, deixando para trás o homem e o posto.

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