The Hunger Games – Jogos Vorazes

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Eu devo estar ficando muito burro com o passar do tempo.

Fui hoje ver no IMAX o aguardadíssimo The Hunger Games, baseado no livro da escritora americana Suzanne Collins. O mundo do cinema espera uma nova franquia, e há muita esperança de que esta série “substitua” Harry Potter ou a saga Crepúsculo, principalmente porque os livros já são sucesso de vendas. Fui ver o filme por um motivo: o IMAX. Há duas semanas vi John Carter, da Disney, um filme fraquinho, fraquinho, mas que valeu a pena por causa da tela gigante, da imagem cristalina e do som fantástico. Eu queria repetir a dose, e a julgar pelas prévias que vi em sites como o rottentomatoes.com, The Hunger Games tinha tudo para ser bem melhor.

Uma das coisas que haviam me chamado a atenção na trama do livro é o fato de ser mais uma distopia. A história se passa no futuro, em uma nação chamada Panem, fundada após o fim dos Estados Unidos. O poder se concentra na sede do governo, a Capital, que comanda com mão de ferro os doze distritos. Depois de uma rebelião frustrada do 13º distrito, a Capital realiza todos os anos uma competição transmitida pela televisão – no melhor estilo Big Brother – da qual participam um garoto e uma garota entre 12 e 18 anos de cada um dos 12 distritos. Eles lutam até só sobrar um vivo, uma forma que a Capital encontrou para manter viva a lembrança da rebelião entre os 12 distritos e ao mesmo tempo desencorajar novas revoltas. Vi textos na internet compararem a trilogia de Suzanne Collins a obras como Admirável Mundo Novo, 1984 e até Fahrenheit 451, o que me deixou meio com o pé atrás. Tudo bem comparar porque são o mesmo estilo – distopia –, mas mesmo sem ter lido a série, sei que Suzanne Collins tem que comer muita farinha, mas muita mesmo, para chegar perto de Huxley, Orwell ou Bradbury (depois de ter visto o filme cheguei à conclusão de que ela pode comer toda a farinha com rapadura do mundo que não vai fazer diferença).

Alguns dos textos que li diferenciam a trilogia da qual Jogos Vorazes é o primeiro volume de séries como Harry Potter e Crepúsculo por ser mais “cerebral” que a história do bruxinho e dos vampiros (fadas?) e lobisomens. Isso porque Suzanne Collins descreve um mundo em que há intriga política, crítica à passividade da população, a mídia manipulativa, ao espetáculo da violência, enfim, crítica social para dar e vender.

Em relação ao filme em si, pelo menos uma das minhas expectativas não foi frustrada: Jennifer Lawrence, a protagonista. Ela já havia me conquistado em Inverno da Alma e X-Men, e nesse filme mostra mais uma vez que ela tem tudo para se tornar uma grande estrela. Ela é muito expressiva, e se destaca em relação ao resto do elenco, mesmo com um Woody Harrelson sempre interessante e Donald Sutherland fazendo uma ponta de luxo. E é só isso que tenho a dizer de bom do filme, infelizmente. Saí com raiva, com a impressão de que esse foi um dos piores filmes que vi nos últimos tempos (o que não significa muita coisa, já que não vejo tantos filmes assim, e busco fugir de filmes ruins).

Não consigo entender como alguém pode dizer que esse filme desafia a mente, que é provocador, que é complexo. O filme parece ter sido feito para criança de dez anos! Não dá para comentar muito porque eu acabaria trazendo spoilers, mas a impressão que dá – e não sei se nesse caso a culpa é de Suzanne Collins ou dos responsáveis pelo filme – é que a plateia foi completamente subestimada. Talvez por imaginar que a trama política complicaria a vida dos imberbes espectadores, tudo o mais é rasteiro, mastigado, não deixa espaço para ninguém chegar a uma conclusão sozinho. O maniqueísmo é absurdo, e começa pela caracterização do povo: no distrito 12 parece que as pessoas vivem na década de 30, além de andarem mal vestidas, famélicas, tristonhas. Na Capital parece que todos saíram do filme Moulin Rouge: cada um a demonstrar mais opulência e extravagância que o outro, com sobrancelhas e cabelos coloridos, bigodes e barbas impraticáveis no dia-a-dia, e sorrisos barulhentos de quem oprime. Na hora de mostrar os jovens escolhidos para a competição, nem por um segundo você pensa quem vai ser mau e quem vai ser bom: o último adversário (não estou antecipando nada, você vê isso logo quando ele aparece em cena) faz questão de ser um canalha, até na hora do sorriso malévolo, enquanto os “bonzinhos” são usualmente mais reservados, tímidos.

Mas o que mais me frustrou foram os “jogos vorazes”. Também aqui não dá para contar muita coisa, mas apenas digo que um filme trash de 2007 que vi há algum tempo na televisão é mais verdadeiro que Jogos Vorazes. É o filme Os Condenados, em que dez criminosos altamente perigosos, e que estão no corredor da morte são “comprados” por um programa de televisão que pretende fazer “o maior reality show de todos os tempos”. Eles são soltos numa selva e o último sobrevivente ganha a liberdade. Claro que eles começam a fazer o óbvio: matam uns aos outros. E por isso, simplesmente por isso, prefiro Os Condenados a Jogos Vorazes, mesmo o primeiro sendo um péssimo filme.

Falei no começo do post que devo estar ficando muito burro com o passar do tempo. E deve ser isso mesmo. O rottentomatoes.com traz um percentual de 86% para o filme; Pablo Villaça, do Cinema em Cena, apontou diversos erros e falhas da película, mas deu 4 estrelas em 5, mesma pontuação dada pelo Omelete. Para completar, vários sites (inclusive esses que citei) ressaltam como mérito do filme que ele traz o que pensar, chegando ao cúmulo de uma crítica que li definir o filme como “diversão com nível intelectual elevado”. E é justamente isso que falta no filme inteiro! E olha que nem estou discutindo, por exemplo, a artificialidade de algumas coisas, como o romance entre dois personagens e a ingestão, numa cena chave, de umas frutinhas. Mas deixo um exemplo abaixo que resume bem o meu ponto de vista a respeito do filme. É uma cena que reúne o que há de pior em Jogos Vorazes.

Katniss (Jennifer Lawrence) está sendo perseguida na floresta por cinco adversários. Prestes a ser alcançada, ela sobe em uma árvore, uma das coisas mais estúpidas que alguém poderia fazer, a não ser que estivesse fugindo de algum animal que não conseguisse subir em árvores… Mas ela faz e seus perseguidores a vêem subindo e tentam acertá-la com flechas, sem sucesso. O outro tenta subir na árvore, mas, mesmo sendo um jovem extremamente atlético, não consegue. O que eles fazem? Acampam embaixo da árvore. Katniss passa todo o tempo sentada num galho da árvore, com a perna machucada por uma queimadura obtida alguns momentos antes.

Durante a noite seu mentor manda um remédio num pequeno paraquedas, que fica preso alguns metros acima da sua cabeça. Ela aplica o remédio ainda durante a noite e passa o dia seguinte inteiro sem poder descer da árvore, vigiada pelo grupo. Mais uma noite se passa e no amanhecer do outro dia todos dormem lá no chão e uma outra competidora, uma menina bastante jovem, chama a atenção de Katniss, mostrando à jovem um imenso vespeiro poucos metros acima da sua cabeça. Esse é um momento “ahn?” do filme: como Katniss conseguiu passar dois dias sentada num galho de árvore sem ter percebido um vespeiro daquele tamanho tão perto da sua cabeça (uns três, quatro metros acima, no máximo)? Mas esqueçamos esse detalhe. A menina mostra o vespeiro e no mesmo instante a câmera mostra os perseguidores de Katniss dormindo embaixo da árvore. Uma criança de oito anos teria entendido o que Katniss precisaria fazer, certo? Os telespectadores de Jogos Vorazes não conseguiriam, pelo que se sucede: a menina fica fazendo mímica indicando que Katniss deve cortar o galho, depois faz sinal que o vespeiro cairá e atacará o grupo. Aí entra o absurdo. Nesse momento corta para Stanley Tucci, o “mestre de cerimônias” do jogo, o Pedro Bial de Panem, que explica: aquelas não são abelhas comuns, são… e diz o nome dos bichos geneticamente alterados. Elas ferroam, ele explica (que surpresa!) e suas ferroadas doem muito (outra surpresa!), provocam alucinações e podem até mesmo levar à morte!

Katniss sobe até bem próximo do vespeiro e começa a cortar o galho. No meio do seu trabalho duas abelhas a atacam, mas ela consegue derrubar o vespeiro e o grupo se dispersa, desesperado, com exceção de uma moça, que morre vítima do ataque de milhares de abelhas. Katniss desce da árvore em seguida e começa a ter alucinações, evidenciadas por aqueles zooms super-rápidos e por perdas do foco da câmera. Qualquer um entenderia que ela está tendo alucinações, mas Stanley Tucci aparece de novo e explica sabe o que? Que ela está sofrendo alucinações porque foi atacada pelas abelhas.

Apenas para completar a cena, quando Katniss vai pegar o arco e as flechas que estavam com a menina que morreu, não tem mais uma abelha em cena! Todas foram atrás dos quatro outros jovens fugitivos.

Não consigo entender onde está o desafio intelectual aqui. Para quem acredita que Jogos Vorazes é uma distopia inteligente, recomendo, com urgência, ler Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451. Se quiser ler algo mais recente, leia A Estrada, de Cormac McCarthy. Vão entender rapidamente que quando a pessoa decide escrever uma distopia isso não inclui automaticamente inteligência na narrativa.

Minha avaliação: 2 estrelas em 5 (uma estrela pelo IMAX e outra por Jennifer Lawrence)

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6 Respostas para “The Hunger Games – Jogos Vorazes

  1. Eu nem sabia do lançamento do filme quando peguei o livro para ler, lá pela metade descobri que ele já estava em cartaz, mas não cedi em assistir antes de terminar a leitura. Falando primeiramente do Livro: um dos melhores livros que li, entrou para o meu top 10, uma narrativa dinâmica e sim com críticas sociais, nunca a leitura ficou massante e sempre me instigava a querer saber o que vinha a frente. as cenas e explicações muito bem conectadas, nunca te fazendo parecer idiota com explicações boas, e principalmente nunca deixando o leitor perdido entre o que está lendo e o que acabou de acontecer, extinguindo àquela pergunta “como ele chegou ali?”, uma incrível seqüência lógica dos fatos. Agora do filme: quando fui ver o filme esperava certas cenas, sabendo que passar para imagens o que a autora descreve muito, que e são os sentimentos, seria um tanto diferente do que ler sobre eles, muito do livro se passa e depende dos pensamentos de katniss e de como ela vê as coisas, esperava que o filme pelo menos passasse esse ponto de vista… bom, um decepção.. o dinamismo do livro, onde um cena se encaixava na outra sumiu, uma onda de marasmo tomou conta de todo o filme, a ação acabou, tudo que ficou claro no livro, sobre como ela se sentia em relação as pessoas, sobre como a sociedade era construída, e sobre o que ela pensava de tudo que acontecia por lá, deixou de existir e deu lugar à explicações idiotas como se o púbico que estivesse assistindo tivesse 10 anos. Você simplesmente achava estranho que as coisas acontecessem e que fosse aceitas assim tão facilmente. Se eu tivesse assistido o filme antes de ler o livro nem me daria ao trabalho de lê-lo. simplesmente eles não deram conta de transmitir para as cenas tudo o que o livro passou com palavras.

    • Que bom ler isso, Priscila. Como você deve ter percebido, não gostei nada do filme, e não li o livro. Analisando apenas o filme, tive exatamente a mesma impressão que você manifestou: eles pareciam estar contando uma história para crianças, que não conseguiriam chegar a nenhuma conclusão sozinhas.
      Apesar disso, tem um monte de gente falando que é um ótimo filme, e isso e aquilo. Não consigo entender.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! Continue acessando nosso blog!

  2. José, se você pegar a série “Battle Royale” para analisar, e perceber que fora feita 10 anos antes de Jogos Vorazes, e que trabalhou as críticas e a narrativa de um ponto de vista extremamente realista de uma forma infinitamente melhor que Jogos vorazes, você irá duplicar sua ira por dois, e entender de onde Suzanne Collins “tirou” tanta inspiração.

    • Eu li em muitos lugares que Batte Royale tem a mesma premissa, mas levando ao extremo a ideia de jogos de sobrevivência. É um filme que tenho que assistir, provavelmente para ficar com mais raiva ainda, como você falou, desses Hunger Games…

      • BATALHA REAL é maravilhoso, deixa-nos agoniados, tamanha a genialidade e crueldade envolvendo crianças que matam para sobreviver…

        Quis ver o filme do Gary Ross, mas “forças cósmicas” me impediram: o ônibus em que eu estava simplesmente desviou o seu percurso e me atrasou em meia-hora em relação à última sessão legendada do filme aqui no Estado. Fica para outra vez… Mas, ainda assim, tenho um resquício de curiosidade! (WPC>)

  3. Na minha opinião, muita gente foi assistir o filme só pra ver os adolescentes se matando e sem saber todo o contesto e, esse foi o grande problema! Além disso o livro é narrado em primeira pessoa, e nos permite saber oque a protagonista esta pensando e acho que por isso em algumas cenas do filme o telespectador fica meio perdido.

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