Somente a verdade – Parte II

Somente a verdade – Parte II

Samuel entrou na oficina e pôs-se a olhar pela janela com o ar mais lúgubre deste mundo, como se nada estivesse à sua frente. Ficou parado diante dela por um longo período, avaliando, rememorando, acompanhando o som proveniente das palhas de milho que se mexiam e farfalhavam umas contra as outras, e da sonolenta e dissonante canção dos grilos e das cigarras.

Olhou para o relógio de pulso sem pensar, perdido em pensamentos. Eram quase cinco da tarde. Logo mais viria o crepúsculo, e então o sol cessaria o seu brilho e tudo ficaria no escuro mais uma vez…

Aceito… Posso ver a aliança?… E você, Elenice de Carvalho, aceita Samuel Matos de Jesus Fraga, para ajudá-lo e confortá-lo, com amor e carinho?… Até que a morte nos separe… Então, pelo poder a mim concedido, eu agora os declaro Marido e Mulher. O que Deus todo poderoso uniu, não separe o homem… Amém…

Houve um longo silêncio antes que a voz familiar lhe tirasse do transe, fazendo-o colocar de lado aquelas memórias, trazendo-o de volta à realidade.

Elias parou no vão da porta e fitou as costas do irmão. Samuel, sem nem mesmo se virar, disse-lhe para entrar e sentar. Preciso de ajuda, disse Elias. Entre eles houve o silêncio de um instante. Por fim, Samuel se virou e pôs os olhos no rosto transfigurado do irmão. Ele franziu as sobrancelhas e baixou a cabeça e perguntou Onde você esteve nesses últimos cinco dias, Elias?

***

Ele estacionou a viatura sob o pé de amêndoa. Desceu e pisou na brita azul recentemente espalhada e fechou a porta atrás de si e caminhou até a portinhola de ferro e bateu palmas e disse Ô de casa e bateu palmas mais uma vez.

À sua frente, havia um pátio de cimento e algumas roupas dependuradas em cordões amarrados a esteios perfilados. Ele colocou a mão na portinhola, abriu-a e caminhou em direção à porta em meio a uma constante corrente de ar. Ô de casa, ele disse, e bateu palmas pela terceira vez. Um pano branco se soltou do pregador e foi levado pelo vento forte. Um carro passou na estrada e buzinou para alguém. Grilos cantavam. Uma orquestra deles.

 Senhora?

Ele entrou na cozinha e piscou os olhos e esperou até que eles se acostumassem à penumbra. O lugar cheirava a gordura e a sexo recém-feito. A pia estava coberta de pratos e copos sujos. No fogão de lenha, que ficava no canto oposto à porta, uma chaleira produzia um zunido repetitivo. Ele se aproximou e tirou a tampinha redonda e constatou que não havia mais água para ferver. Ô de casa, ele disse, e entrou na sala e viu o sofá e a sua imagem refletida na televisão pequena sobre a peça de madeira.

O odor azedo persistia e ficava mais forte a cada novo cômodo enveredado. Estava escuro. Ele passou a mão e tateou o interruptor na parede. Nada. Em algum lugar um relógio despertador soou. Ele olhou para o chão e viu cacos de vidro e pegadas escuras desenhadas a sangue que começavam na cozinha e findavam numa porta trancada. Agachou-se e, ao aproximar as pontas dos dedos no sangue, ouviu um barulho vindo de dentro do quarto, como o de um corpo pesado caindo no chão.

O som reboou grave e nítido. Ele se levantou e deu duas pancadas na porta e esperou. Senhora? Aqui é o Tenente Chris Welber. Abra, por favor. Esperou um instante. Aproximou o ouvido na madeira fria e escutou com atenção. Silêncio. Então, ele colocou a mão na maçaneta e girou lentamente até o final e abriu a porta.

Senhora, vou entrar…

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