Somente a verdade – Parte III

Somente a verdade – Parte III

Elias não disse nada por quase um minuto. O seu rosto estava retraído e preocupado. As narinas moviam-se para dentro e para fora no ritmo acelerado, pontuado, seguindo o movimento dos olhos, que fugiam do olhar inquiridor do irmão.

Pois bem, sou todo ouvidos, disse Samuel, com a voz baixa e monótona.

Fiz merda.

Samuel empertigou o corpo. As linhas do seu rosto se enrijeceram. Que tipo de merda?

Houve uma pausa.

Eu perdi o controle. Foi isso. Não ando bem da cabeça. Pensei que não fosse acontecer. Mas quando vi já era tarde demais.

Samuel voltou os olhos para o teto como quem apela aos céus e disse Por favor, diga que Sueli não está envolvida nisso.

Elias hesitou.

***

A luz fraca incidia obliquamente pela janela e através das persianas brancas, alcançando a cama desfeita. No chão, coberta por um lençol encardido, encolhida junto à cama, jazia uma mulher nua. Estava pálida e estranhamente bonita. Ela tremia muito. Seus dentes se entrechocavam, como se sentisse muito frio e da sua boca escorria um líquido branco e viscoso.

Senhora, Senhora, disse o Tenente, e, aproximando-se dela, ajoelhou-se e tocou o seu rosto, que pendia sobre os seios. Senhora, acorde.

Chris Welber deixou a porta aberta e deu a volta pela frente da viatura e abriu a porta do outro lado. Deslizou o seu braço nas costas da mulher e a ergueu de encontro ao peito e fechou a porta com um pontapé e dirigiu-se até o hospital. Não se preocupe, ele disse, tudo vai acabar bem.

Sueli acordou na enfermaria. Piscou os olhos várias vezes até que eles se acostumassem com a luz branca. Passou as costas das mãos nos olhos e, por um momento, a névoa que encobria seu rosto sumiu. Estava sozinha. Sua cabeça doía e os seus pés latejavam. O estômago girou e ela sentiu um tipo de ressaibo desagradável na boca a ponto de quase vomitar. Curvou o corpo para o lado e cuspiu no piso um liquido amarelado e pastoso.

Ela ergue-se com força, apoiando-se nos braços da cama. Depois, correu os olhos na sala e viu, à porta, um homem fardado conversando à meia voz com uma enfermeira loura oxigenada. Ela não conseguiu entender o que diziam. As palavras chegavam apagadas, destituídas de sentido. Então, o homem voltou o olhar para trás e disse alguma coisa. Sueli deitou a cabeça novamente no travesseiro e fechou os olhos. Ao abri-los, o homem estava ao seu lado, com as mãos atrás das costas, encostado na cama, esperando. Como se sente? ele perguntou.

Sueli colocou a mão na testa e disse Estou melhor. Acho. Quem é você?

Tenente Chris Welber.

Há quanto tempo você está aqui?

Há cerca de quinze minutos. Pedi para o diretor ligar para mim assim que você acordasse.

Rui.

Sim, ele mesmo.

Humm… Está se sentindo bem?

Sim. O senhor pode me dizer as horas?

Ele puxou a manga da camisa e disse 15:30. Em seguida, colocou a mão no bolso da calça e tirou o caderninho; da camisa, tirou uma caneta, e com a ponta, bateu por duas vezes no centro da folha e então disse Bem o suficiente a ponto de responder algumas perguntas?

O senhor é algum detetive?

Ele riu e baixou a cabeça e disse em tom suave Não, não, apenas um homem da lei querendo fazer a coisa certa.

Sei. Alguém já disse que você parece o apresentador do jornal das oito?

Chris Welber enrubesceu e pigarreou e olhou para o lado e correu a mão pelo cabelo.

Ficou envergonhado, policial?

Ele pensou em dizer, mas não disse.

Podemos começar?

Claro.

Por que a senhora tentou se matar?

Sueli ergueu os olhos para o Tenente, surpresa. Depois virou o rosto e ficou olhando para parede de azulejos. Que dia é hoje? ela perguntou.

14.

Meu Deus! Eu fiquei assim desde ontem?

A enfermeira disse que você gritava muito enquanto dormia. Gritava um nome.

Ela franziu as sobrancelhas e aguardou em silêncio.

Mas agora a senhora está bem. Não tem com que se preocupar.

Você fala como se tivesse certeza de tudo.

Não de tudo. Sei que agora a senhora não corre mais perigo. E eu estou aqui para protegê-la. Tudo vai ficar bem.

Sueli deu um sorriso acanhado e disse que sim com a cabeça.

Humm. Ainda falta responder as minhas perguntas.

Sueli olhava fixamente para Chris Welber, sem piscar, como se refletisse sobre algo. Temia os seus modos lentos, fleumáticos. Irrequieta, olhava para os lados, confusa, preocupada, com medo. Uma enfermeira atravessou o corredor atraindo o seu olhar. Ela baixou a cabeça e, com voz tímida e provocante disse: Não é tão simples assim.

Nunca é, ele disse, e colocou a mão encorajadora sobre a mão dela. Mas é preciso. Como ajudá-la se a senhora teima em protegê-lo?

Ela ficou vermelha e balançou a cabeça e, disfarçadamente, recolheu a mão junto ao peito. Eu não posso fazer isso.

O tenente encolheu os ombros, ajeitou-se na cadeira e, sem preâmbulos, disse: Vejo que a senhora é viúva.

Ela ficou desconcertada por um instante. Então disse Sim. Como soube?

A senhora tem uma mania de ficar esfregando o anular com o polegar, como quem gira o anel no dedo. Como está fazendo agora. Pensei uma coisa e outra e cheguei a essa conclusão.

Sueli olhou de esguelha para os lados, como se procurasse auxílio.

Soube que ele esteve aqui?

Os olhos de Sueli de repente estremeceram. Ela se ergueu alguns centímetros da cama, inclinou-se para frente, sentou-se e, aflita, disse: Quando?

Ontem à noite. Enquanto você dormia.

Ele simplesmente entrou?

Simplesmente. Ficou pouco tempo e depois foi embora. Veio apenas certificar-se de que você estava…

Também, peste de hospital ruim dos infernos!

O tenente pigarreou, e depois disse: O meu companheiro de profissão, Policial Otávio, por exemplo, a senhora deve conhecê-lo, na minha humilde opinião, respeita o seu… respeita-o em demasia. Então por que um pobre funcionário de hospital não faria o mesmo?

Ela assentiu em silêncio.

Eu cheguei nessa cidade faz o que, três meses? Sou jovem. Pouco tempo de serviço. Poucas histórias. Mas não me lembro, de verdade, nesses curtos e satisfatórios anos de experiência, de um lugar tão conivente e inerte com relação a bandidagem…

Ele não é bandido.

Sei. É pai de família, trabalhador honrado, paga impostos etc etc etc. “Mas não pise no meu calo, porque senão – nesse instante ele diminuiu o tom da voz: eu mato você”.

Ele não é bandido, e não fala como um ogro.

Todo mundo sabe das mortes, dos mandantes, mas ninguém faz nada.

E você acha que será o primeiro a fazer? Você acha que pode fazer alguma coisa, policial?

Tenente, ele disse, em tom grave e ríspido. E, sim: eu posso.

Sueli meneou a cabeça e sorriu.

O que é tão engraçado?

O senhor. O senhor é engraçado, querendo dar uma de herói.

Não sou nada disso. Estou querendo fazer…

A coisa certa e blá blá blá.

Os olhos de Chris Welber perderam a sua cordialidade. As sobrancelhas franziram e seu rosto ficou sério e sombrio.

O senhor sabe quem foi J. Leal?

Sei. Por quê?

Se a conhece, então deve saber por que ela teve um futuro tão curto aqui na cidade?

Hurum. Falou demais no programa e resolveram por um fim nela. Pronto. Foi isso?

Foi.

Ela não foi a primeira, senhora. Queima de arquivo acontece em toda cidade. Grande ou pequena. São todas iguais. Um coronel que manda. Um traficante que perde espaço. Um político corrupto. E se isso foi uma indireta para me manter longe, deixe-me dizer: Não funcionou.

Se o senhor é tão destemido e inteligente e sabe de tanta coisa, por que simplesmente não o prende e acaba com isso, e de brinde, leva o irmão junto?

Vou acusá-los de?

Como assim?

Qual a acusação? Vou bater na porta dele, dar ordem de prisão e algemá-lo e pronto?

Sim.

O tenente balançou a cabeça e sorriu. E as provas, as testemunhas? Quem estaria disposto a abrir o bico?

Sueli não respondeu.

Preciso pegá-los no erro.

Ela balançou a cabeça, inconformada.

Humm, pois bem, voltemos às perguntas. E espero ouvir somente a verdade.

Silêncio absoluto.

Nós vamos ficar nessa ladainha até quando?

Sueli manteve-se calada.

Que tipo de relação a senhora mantêm com ele?

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