O garoto da bicicleta – Jean-Pierre e Luc Dardenne

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Hoje foi um dia meio triste para mim. Estou prestes a voltar para casa depois de mais de três meses e a saudade beira o limite suportável. Não consigo me concentrar quando estou só no hotel: tento escrever, ler um livro, mas nada, passo o dia a pensar no próximo domingo, quando chegarei a Aracaju. Fui ao cinema ver um filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e me preparei para me emocionar. Vi há algum tempo A Criança, dos mesmos diretores, um filme que se comunica diretamente comigo e é, dentro daquilo que espero no cinema, perfeito. Eis que este filme, O garoto da bicicleta, é o que Antes do Pôr-do-sol é para Antes do Amanhecer, só que num tom bem amargo e realista.

Para quem não viu (escrevi um pouco sobre o filme aqui), A Criança conta a história de um jovem casal de namorados, Bruno, um delinquente, e Sonia, que sobrevive do seguro-desemprego. Ela fica grávida e eles não têm a menor estrutura mental para cuidar de uma criança. Bruno acaba decidindo vender o bebê para o mercado negro da adoção.

O garoto da bicicleta conta a história de Cyril, um menino abandonado pelo pai, interpretado por Jérémie Renier, o mesmo pai desnaturado de A Criança (não que isso por si só signifique muito, pois parece que este ator está presente em quase todos os filmes dos irmãos belgas). Cyril tem 12 anos e sua inocência para lidar com a rejeição do pai é tocante. Ao mesmo tempo, ele é determinado, e chega a bancar o detetive para descobrir onde seu pai foi se esconder, sempre tentando se convencer de que ambos vão voltar a morar juntos.

Como no caso de A Criança, apesar de o tema ser muito delicado, o filme não tenta manipular a audiência ou induzi-la às lágrimas. Há algumas cenas de cortar o coração, mas a câmera se mantém discreta, e os diretores respeitam os personagens, dando-lhes espaço para sofrer suas dores.

O que acho mais interessante é como a história é contada de maneira imparcial. Mesmo o pai sendo o maior miserável de todos os tempos, você nem consegue ter tanta raiva dele, porque você vê o quanto ele é fraco… A moça que acolhe Cyril não quer bancar heroína, nem o namorado dela, nem o próprio Cyril, que, naturalmente, é o centro da história e é apenas um menino que não sabe ainda como lidar com a ausência de um pai que na realidade nem se importa se ele vai virar um bandido ou não.

A bicicleta é o que move o menino e move também a história. Há uma tomada em especial em que vemos Cyril pedalando por uns dois minutos. Há tanta angústia, tanta tristeza, que não é preciso dizer mais nada. Para mim, aquela cena é mais emocionante do que filmar um choro.

O garoto da bicicleta mostra também as virtudes do uso contido da música. Em quatro momentos do filme o 2º movimento do Concerto para Piano nº 5 de Beethoven é usado. São apenas os primeiros quinze, vinte segundos de uma música perfeita, que poderia arrancar lágrimas de uma pedra. Isso, aliado ao momento em que a música é utilizada, enriquece sobremaneira a experiência de assistir ao filme.

Sou desde já fã desses dois irmãos, que sabem como contar “pequenos” dramas pessoais, ou melhor, grandes dramas de pequenas pessoas. Saí do cinema emocionado. Não menos triste, mas mais feliz.

Minha avaliação:

5 estrelas em 5

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4 Respostas para “O garoto da bicicleta – Jean-Pierre e Luc Dardenne

  1. OK, aceito os elogios, entendo, aplaudo, me emociono com tua emoção e com as saudades prévias e sou fã incondicional de ambos os diretores, já vi quase tudo deles, se não tudo, mas… ODIEI ESTE FILME! Detestei, achei-o traiçoeiro, vendido, “fácil”, me irritei mesmo, não reconheci o toque magistral dos dois gênios aqui… Admito que volta e meia nos deparamos com algumas de suas marcas registradas secas ao extremo (aquele desfecho, por exemplo), mas o filme é, em minha opinião, indigno deles, muito! (WPC>)

  2. Quando acabou a sessão do filme, perguntei aos meus amigos se eles tinham gostado do filme. para minha surpresa (e, admito: tranqüilidade), eles expuseram argumentos de não-apreciação muitos semelhantes aos meus, antes de mim. Temi que minha rejeição ao filme adviesse de meu desentendimento crasso em relação a esta necessidade de procurar/amar o pai, mas fui desmentido por A PROMESSA, filme anterior dos diretores em que a pujança da paternidade é tão incisiva (e cruel) quanto em O FILHO, A CRIANÇA ou O SILÊNCIO DE LORNA (em que a mãe grávida é que sofre)…

    Em suma, entendo o porquê de este filme ter funcionado tanto contigo e te arrebatado nesse contexto, mas, para mim, é um filme indignante: saí bufando na sessão, de tanto desagrado! E achei o menino um porre, no pior sentido do termo e por mais coerente que isso seja em relação à obra prévia dos cineastas (basta ver ROSETTA, em que não gostei justamente por detestar a protagonista, mas, ainda assim, é um filme sagaz, ao contrário do que achei deste aqui). Ao término da sessão, até brincamos: é uma metáfora ‘pop’ para a reconciliação da União Européia. Mas não rimos muito: estávamos tristes. Dois mestres se desperdiçavam num filme menor, óbvio, capcioso… Que venha o próximo! (WPC>)

  3. Agora fiquei curioso para saber o que lhe causou tanto desagrado nesse filme. Achei uma rima quase perfeita com A Crianca. Cyril eh mesmo irritante, mas isso para mim eh merito do roteiro/direcao. Eles conseguiram emular bem o que poderia se passar na cabeca de uma crianca abandonada pelo pai, obcecada por ele. E uma crianca que certamente nao recebeu boa educacao nos anos em que conviveu com o pai.
    Para mim o filme eh uma fabula: os encontros com o traficante, uma clara inspiracao na figura paterna; a bicicleta e seu girar sem sair muito do lugar, sem mudar de vizinhanca, mas ao mesmo tempo abrindo portas; a obstinacao e o silencio do menino, que eh ao mesmo tempo resignado em relacao a outras coisas; a secura do pai quando da proposta de partilhar o fruto de um roubo; em tudo isso eu lembrava do filme A Crianca, como o pai vivia, que educacao recebeu e que educacao passou (ou nao passou) para o filho.
    Sem duvida minha situacao emocional no momento em que vi o filme e, claro, as minhas idiossincrasias, me levaram a ter essa impressao, mas mesmo tentando olhar o filme objetivamente, nao consigo encontrar tanto demerito a ponto de inverter minha opiniao: de belissimo a indignante.

  4. Como disse ontem, ao telefone, a irritabilidade do Cyril é um ponto positivo no estilo coerente e firme dos diretores…

    Não dá para explicar o porquê de arrebatamentos tão intensos de um lado e decepções tão prementes do outro: é subjetivo, é o que torna a Arte bela. Mas prometo rever o filme e, na ocasião, te citar no comentário sobre o filme, visse?

    WPC>

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