Beatriz e Virgílio – Yann Martel

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Quando li Maus, quadrinhos clássicos de Art Spiegelman sobre o Holocausto (leia mais aqui), fiquei impressionado. Isso foi há uns dez anos, e de lá para cá fiquei cheio de tanta exploração que se faz em cima da Segunda Guerra Mundial. Vi Bastardos Inglórios e detestei, como escrevi aqui. Fico tentando imaginar como se sente um jovem alemão que nada tem a ver com o que fizeram seus avós, mas tem que sempre ver encarnado o estereótipo nazista, muitas vezes de maneira ofensiva, como se vê no filme de Tarantino. Fui recentemente visitar o Museu do Holocausto e saí ainda mais convicto de que já escutei/vi demais sobre o tema. Certo que é algo que não se deve esquecer, mas é uma tragédia, e ver tanta gente fazendo dinheiro em cima disso é um tanto desrespeitoso, em minha opinião.

Dito isso, começo a falar de Beatriz e Virgílio, livro de Yann Martel, escritor canadense que escreveu A vida de Pi, livro que há algum tempo estou curioso para ler. Comprei Beatriz e Virgílio numa promoção e nem planejava ler agora. Comecei, contudo, a folheá-lo no ônibus e terminei de ler no aeroporto. O livro narra a história de Henry, um escritor de sucesso que é obcecado com o tema do Holocausto. Ele escreve o que julga ser a sua obra-prima, um livro que mistura ficção e crônica para falar da tragédia ocorrida com os judeus. Sendo rechaçado pela editora, ele resolve abandonar o ofício de escritor e viaja para uma grande cidade, onde acaba entrando em contato com um taxidermista já bastante idoso que lhe pede ajuda para terminar de escrever uma peça, cujos personagens principais são Beatriz, uma jumentinha, e Virgílio, um macaco.

A habilidade de Yann Martel como escritor é notável: ele relata os incidentes com Henry, seu alter-ego, ao mesmo tempo em que se aventura na crônica, ao explicar, por exemplo, as concepções que Henry tem sobre o Holocausto, ou o que é um “flip-book”, aqueles livros duplos, que têm duas capas e duas histórias que terminam no meio do volume. Ele alterna a linguagem várias outras vezes: a narrativa é em terceira pessoa, mas em alguns momentos são mostrados textos escritos por Henry; noutros, a ficção produzida pelo taxidermista, em linguagem teatral; e, finalmente, até “artigos impessoais” sobre o taxidermismo, que mostram claramente uma influência de Melville e seu Moby Dick.

Comecei o livro pensando encontrar uma fábula, e encontrei uma história sobre um escritor frustrado. Só que isso é só o começo. A fábula entra em cena e muito mais. À medida que vamos acompanhando o cotidiano de Henry, vamos nos envolvendo com a história de Beatriz e Virgílio e do taxidermista, e ao final… bem, aí é que são elas.

Beatriz e Virgílio é um dos livros mais tristes que já li na vida. Já contei demais sobre a trama, por isso resta-me apenas um apelo: leiam este livro. Ao virar o que pensava ser a última página da narrativa, já bastante tocado pelo desfecho terrível (e belíssimo) do livro, Yann Martel caprichou na maldade e conseguiu me deixar com um gosto péssimo na boca com os “Jogos para Gustavo”.

Mais uma vez: leiam. Sendo bem específico: Reinaldo Filho, você precisa ler esse livro. Gaste R$ 39,00 e compre. Wesley, você precisa ler esse livro. A versão em inglês está à disposição.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

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10 Respostas para “Beatriz e Virgílio – Yann Martel

  1. Tentando controlar a empolgação que me tomou de assalto enquanto lia teu depoimento, uma observação prévia: quando tua filha nasceu, eu estava lendo A DIVINA COMÉDIA, numa das minhas infindas tentativas de conseguir a atenção de teu irmão. Por isso, sempre que leio este nome, não consigo deixar de associá-lo mutuamente a tua filha e à musa danteana. Se tu tens um filho que identifica Shakespeare facilmente, não tardará para que a outra enverede pelos caminhos egrégios da literatura italiana de cunho religioso, inclusive.

    Quanto ao livro: não deves duvidar de que, sim, eu preciso, quero, desejo e anseio muito, muito, muito ler isso. Não apenas a palavra TRISTEZA, quando associada a uma narrativa me encanta deveras, como a palavra NARRATIVA, associada aos jogos com alter-ego e recursos metalingüísticos que descreves, muito me encanta em sua (in)falibilidade. Aceito de muito bom tom o empréstimo, portanto.

    E, quanto ao teu parecer sobre a exploração sobre o Holocausto, tu bem sabes como isso me enfastia também. Detestei o mesmo filme que tu, me surpreendi deveras com a suma conscientização sobre o “jogo duplo” que perpetrava o Art Spiegelman enquanto escrevia seu poderoso acerto de contas familiar e… Puxa, que postagem emocionante, obrigado por incluir meu nome nela!

    WPC>

    • PS: como legítimo bressioniano (já viste DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, por falar nisso), eu choro em estórias com burrinhos… (WPC>)

    • Eu nem comentei aqui, mas é bem claro que os nomes dos personagens são uma referência explícita a Dante e sua Divina Comédia: Virgílio, que conduz o poeta pelo Inferno e pelo Purgatório, e a bela Beatriz, que o conduz pelo Paraíso. E, claro, não podia esquecer da minha pequena Beatriz enquanto lia.

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  5. Nem sei o que falar muito do livro… Talvez por ter terminado agora a pouco, ainda estou com o desfecho e “as brincadeiras” ecoando na minha cabeça…

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