O Festim dos Corvos – George R. R. Martin

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O Festim dos Corvos, quarto livro da série As crônicas de gelo e fogo, conta o que acontece depois de gravíssimos eventos relatados no terceiro livro (sobre o qual você pode ler aqui e aqui. A guerra está praticamente acabada (ou ao menos assim acreditam os Lannister) e é tempo de novos jogadores ocuparem seus postos no jogo dos tronos. É por isso que este volume dá especial atenção a duas regiões que exercerão importantes papéis no desenrolar da saga: as Ilhas de Ferro, e a briga interna pela sucessão do trono outrora ocupado por Balon Greyjoy, e Dorne, com tudo que acontece depois de Oberyn Martell se oferecer como campeão de Tyrion no final de A Tormenta de Espadas.

Muitos novos pontos de vista são acrescentados à história, que tem um ritmo extremamente lento. Apesar de ser um livro longo, mesmo eu, que tenho uma memória péssima, consigo resumir o que acontece com cada personagem de maneira precisa, porque, de fato, muito pouco acontece. Percebe-se que George R. R. Martin preocupa-se mais com o que já aconteceu do que com o presente. Praticamente cada diálogo é recheado de referências ao passado: história, geografia, religião.

Um dos exemplos mais evidentes dessa tendência é quando um pequeno grupo, que inclui Brienne, vai se hospedar numa estalagem de beira estrada e a pessoa que a indica conta a história da estalagem, desde que foi fundada, há uns dois mil anos, até o presente, incluindo figuras importantes que lá se hospedaram, símbolos que já ostentou e quem já foi seu dono.

A impressão que dá é que o autor está empolgado e quer mostrar o quão rico é o universo que ele criou. Da forma como isso foi colocado no livro, fica cansativo e atrapalha o desenrolar da trama. Quando eu lembro como eu fiquei empolgado com o final de Arya em A tormenta de espadas, usando sua moedinha de ferro, e o quanto eu esperava o desenvolvimento da trama da pequena menina-lobo neste quarto volume, é inevitável ficar com um gosto de decepção com o pouco que acontece.

Assim como há, nos outros livros, capítulos de preparação, que, naturalmente, antecedem os capítulos com grandes acontecimentos, esse livro inteiro é de preparação: os homens de ferro começam um grande plano, assim como Doran Martell e mesmo Samwell Tarly (mesmo que indiretamente). Em King’s Landing, tudo vai mudar, e alguns personagens clássicos devem sair do jogo.

O que me deixa apreensivo é que o próximo volume, A Dança dos Dragões, praticamente não avançará no tempo, mas contará a história de personagens que ficaram de fora do quarto livro: Jon Snow, Stannis, Davos, Theon, Melisandre, Tyrion, Bran, Daenerys…

O único alívio é que a trama envolvendo Jaime e Cersei vai continuar e, principalmente, a história de Arya.

Um ponto que vale a pena ressaltar é a preocupação em desenvolver a religião. Pela primeira vez (até onde lembro) o livro sagrado dos Sete é citado (o nome do livro é The Seven-Pointed Star na versão em inglês), e com muito destaque. Profecias, ritos, lendas, histórias, tudo que está relacionado à religião ganha destaque (e com razão, já que, na história, o Alto Septão começa a desempenhar um papel importantíssimo, que deve se intensificar nos próximos livros).

Como personagens de destaque nesse volume, ressalto dois pontos negativos: o jovem Robert Arryn, uma das criaturas mais irritantes já criadas na literatura. Toda vez que ele aparece tenho vontade de bater em alguém (aqui uma pergunta a quem está mais atento à trama: A epilepsia do menino já havia sido citada ou é, como me pareceu, criação desse quarto volume?). E Brienne, mas não por culpa dela, e sim do autor. Toda a narrativa da Donzela de Tarth soa como uma side quest, ou seja, se você a excluísse da história, nada mudaria de fato.

Como ponto positivo, ressalto a habilidade de jogador de Mindinho, dando aula de como preparar a mesa para o jogo dos tronos (se ele sairá efetivamente vitorioso, não sei dizer, mas que é um jogador ambicioso e habilidoso, isso ele efetivamente é), e a intrepidez (ou deveria dizer estupidez) de Cersei Lannister, que é quem mais consegue movimentar a trama, seja para o bem, seja para o mal.

Por estar viajando, li A Feast for Crows de forma intensiva, o que foi ótimo. Lamento apenas não ter trazido meu volume de A Dance with Dragons…

Isoladamente, o livro é regular, mas dentro da trama, ele ajuda demais a desenvolver algumas motivações, e, como falei antes, ele prepara o terreno para muita ação, especialmente envolvendo a Não Queimada, Daenerys, a Mãe dos Dragões.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5

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6 Respostas para “O Festim dos Corvos – George R. R. Martin

  1. Bom… Ainda não li nenhum dos livros e acabo de ver o último episódio da segunda temporada da versão televisiva, à qual eu relutava em acompanhar, justamente por imaginar uma subsunção do autor a este “deslumbramento” comercializável que tu deixaste entrever… Li a tua resenha, mesmo sem conhecer os detalhes no papel e, assim de supetão, não demonstro tanto afã pela leitura do George R. R. Martin, mas, mais cedo ou mais tarde, intuo que ele me fisgará. Deixo o tempo como juiz!

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    • Os livros dele são muito bons, o que mais surpreende nele é a narrativa e como ele constrói o enredo, incrivelmente você fica preso na leitura e aquele livro de 800 páginas que ao primeiro momento era imenso acaba se tornando curto. As disputas pelo trono de Westeros envolvem não apenas política, guerra, diplomacia, como também religião, é interessante ver como cada personagem usa sua habilidade e quem não se adequar as regras do jogo é eliminado, é preciso muito mais do que força pra conseguir vencer o jogo.

      Quando surgem livros que ficam na moda há certo receio, eu mesmo nunca li Harry Potter, muito menos Crepúsculo e etc…, mas esses livros da Crônica do gelo e fogo, eu recomendo.

  2. Já deveria ter feito o post para esse livro (mal mesmo.. 😛 ), e foram exatamente os mesmos pontos que me surpreenderam/decepcionaram. Não gostei do destino que foi dado a Sor Beric Dondarrion (ou o que foi mencionado sobre ele), e a Senhora que ficou em seu lugar.. Deveriam pelo menos tê-lo feito com uma narrativa própria. Da maneira que foi mostrado fez parecer que Sor Beric não tinha importância nenhuma…
    Sobre Robert Arryn, sua epilepsia já havia sido mencionada, e, salvo engano, até no livro 1, quando Eddard Stark recebe a carta de Lysa, eles mencionam o seu filho doente.
    A minha leitura não foi tão rápida quanto a sua. Comecei antes da convocação pro banco, depois parei por conta disso, e fui voltando devagar. A leitura realmente não me chamou tanto a atenção como os anteriores (A Tormenta eu terminei de madrugada, numa maratona de 12 horas seguidas de leitura.. muito viciante).

  3. Amigo, discordo de ti. O que Martin escreve nesse livro é uma obra prima. Embora tu paresceste não perceber, cada fala e cada história contada vai ter importância. A mesma história da estalagem que tu citastes, é uma metáfora do que irá acontecer adiante. abraços.

    • Sem dúvida, Estéfano, cada história e cada fala vai ter sua importância. A profecia dos dragões, a ausência de um rei com um legitimidade para usar a coroa, a chegada de Daenerys, o poderio do exército do Alto Septão, tudo isso precisa de justificativa histórica e teológica, e ele se esforça bastante para criar ambos os backgrounds (e consegue com êxito). Minha crítica ao livro é a falta de equilíbrio dessa criação de background. Enquanto os três primeiros livros são muito mais fluídos, balanceando bem os fatos presentes com a história de Westeros (e dos outros continentes), esse, eu arrisco dizer, tem mais de metade das linhas voltadas ao passado.
      Se o brilhante George R. R. Martin tivesse diluído esse background ao longo dos outros três livros e fosse mais dinâmico nesse, o resultado, na minha opinião, seria bem melhor.
      Claro, é a minha opinião, e é só uma. Não foi com opiniões similares à minha que o Festim dos Corvos foi escolhido por muitos como o melhor dos volumes publicados.

      Obrigado pela visita ao blog e volte sempre!

  4. Pingback: Minhas leituras em 2012 « Catálise Crítica

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