Abraçado ao meu rancor – João Antônio (continuação)

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Publicitário do ano

Mais uma vez um sujeito chamado Jacarandá aparece num conto de João Antônio, só que agora não é um dos tipos marginais de quem ele tanto gosta, mas justamente aquela classe “mérdia”, como ele mesmo chamou, que ele detesta: filhinho de papai, incompetente, desinteressado, mas que a vida teima em fazer vencer, por mais que ele não faça nada para merecer.

De playboyzinho passou a publicitário, mesmo sem estudar, e usando de todos os clichês possíveis – boa parte deles aprendidos numa viagem aos Estados Unidos – acaba ficando famoso, chegando ao ponto de receber o título de cidadão benemérito.

A temática desse conto aparece com força total em Abraçado ao meu rancor, conto que dá nome ao livro: o marketing que tenta vender uma São Paulo que não existe, ou que só existe para 0,1% da população, jogando os 99,9% restante ainda mais para escanteio. É a São Paulo que nunca dorme, onde tudo se vende e tudo se compra, a São Paulo dos Shopping Centers e da volta ao mundo em 80 lojas. Um pouco de João Antônio sobre o que fez Jacarandá, o publicitário do ano:

“Apoderou-se indebitamente de palavras do norte-americano Francis Scott Fitzgerald e do carioca Sérgio Porto e furtou à grande. Em São Paulo, a noite, uma criança, é suave e as boates, famosas e animadas. Os teatros, mais modernos; os cinemas, mais confortáveis e atualizados. As mulheres, mais elegantes. Restaurantes? Os melhores da América do Sul e, como remate, na noite de São Paulo você vê o dia nascer.”

 

Televisão

Mais um conto dos excluídos, esse com forte crítica ao consumismo e, claro à televisão. Um homem (Jacarandá é o nome dele mais uma vez) encasquetou que o negócio do ano é plantar menta. Nada de plantar soja, ou milho ou alface. O negócio é menta. Mas para isso ele precisa conseguir financiamento no banco, e descobre que só emprestam a quem aparenta não precisar. Por isso começa a sair todo garboso de casa, com roupas que já nem mais usava, colocando perfume, lustrando o cabelo. A mulher chora porque pensa em traição. Ele não revela seu plano, com medo do fracasso. Depois de enfrentar tanta dificuldade, chega à seguinte conclusão:

“E, apesar de sua obstinação pelo plantio da menta, o poeta passou em revista o caráter dos que o cercavam durante aqueles anos todos e concluiu que cinco valores andavam estremecidos nos quadros da nacionalidade:

  1. a.      fortuna de paulista
  2. b.      honradez de mineiro
  3. c.       valentia de gaúcho
  4. d.      inteligência de nortista
  5. e.       o quinto valor estremecido: azar de Jacarandá.”

O parágrafo em que o herói repara na televisão, e em como ela conta suas histórias é um dos mais expressivos que eu já li, principalmente dentro do contexto do conto:

“Os olhos do herói bateram naquelas imagens otimistas, promissoras e tão festivas. A tevê mostrava gente bonita, crianças bem-alimentadas e limpas, não havia gerentes mal-encarados, nem agiotas esquivos. As mulheres eram lindas e desejáveis; os homens, sorridentes e convictos, em suas afirmações eufóricas. Os velhos, sábios, lúcidos, atualizados, extremamente agradáveis, além de bons conselheiros. As estradas não tinham barro, nem buracos. Os automóveis, sempre novos. Aviões brilhavam cortando os ares, locomotivas dos trens eram moderníssimas, potentes, rápidas. Jacarandá reconhecia, humilde, nunca ter visto aquilo em lugar nenhum. Uma maravilha, em especial, o encafifava. Todos os gerentes de bancos prometiam facilidades, jovens, bem-vestidos e melhor falantes, bons cidadãos em dia com o imposto de renda, e insistiam em esclarecer que os estabelecimentos bancários eram uma espécie de segundo lar. Estendiam sua proteção a todas as criaturas desvalidas.”

O final desse conto lembra Nelson Rodrigues. Mas é João Antônio.

Abraçado ao meu rancor

Esse conto mostra a capacidade de observação que tem João Antônio. Ele tem raiva porque “alguém, importante, buliu nos papéis aqui, além, provavelmente em Brasília. E o turismo oficial paulista se tocou”.

São Paulo não é mais a mesma. Os tipos marginais de quem ele tanto gosta foram escorraçados. Já não há mais sinucas de verdade, nem a média com o pão com manteiga, nem os sambas do jeito que eram antes. O narrador, um jornalista, se ressente também dos jornais, dos jornalistas, dele mesmo. Tudo para vender. Reportagens inúteis que insistem em enterrar a velha e boa São Paulo. Que fazem de conta de que não existem milhões que não fazem parte daquela festa. E ele se ressente dele mesmo por também fazer parte da festa, por mais que despreze tudo aquilo.

Estou descobrindo a prosa de João Antônio, e estou curiosíssimo para saber se ele se arriscou no lado do humor. Sua ironia é finíssima. Sentado à mesa com os mais finos integrantes da aristocracia, ele os insulta, mesmo jogando o jogo deles:

“ Ratatuia, cambada, patuleia. Aborrecem-me, que os aturo. Eles faturam. Mas como na mesa deles, engulo e sinto a bebida deles. Até a sinto e, de porre, gosto. Muita vez, noto. Vou criando casca, creio que me ensinaram a sorrir na moda, profissionalmente e sem ter vontade. Boa corja é. Mas vou cordial, cordato, milimetrado, direitinhamente. Ou, se convier, ouço com paciência astuta uma besteira atrás da outra. Afinal, num festival de bonifrates misturados a cartolas e grandalhões, asneira também pode valer como espírito. E há quem dê a isso o nome de elegância.”

Numa das melhores passagens, ele critica a visão sociológica que “menininhas universitárias” querem aplicar aos seus marginais e à sua cidade quando é justamente reconhecido e abordado por um grupinho delas:

“É raça. Sem dúvida, essas futuras colegas e sucessoras são estudantes que estudam muito. Lá à moda delas e de seus professores. Só tem que enchem de desgosto as medidas de quem as vê fuxicando, aporrinhando por aí, amiguinhas do povo e zangadas da boca pra fora com a crise, com a ditadura e o misere geral. E nomeiam isso de pesquisa social de campo. Cientificamente. Dão um giro, saracoteiam com suas pranchas de acrílico colorido, botam cara preocupada, metem uns tragos da bebidinha aguada e ficam alegrinhas ou comovidas, olhos úmidos diante da pindaíba e da crápula. Logo se arredam de volta à casa num bairro de bacanas.

Alguém lhes dê trela.

Um grupo desses me pega num canto da Praça da República. Sou identificado e, rápidas, alimentam a conversa. Jogam teorices alheias, semânticas catada em algum artigo de cientista social, desses que, traduzidos, pontificam nos jornais de domingo em cadernos especiais. Elas debulham entre termos técnicos de mistura a um patuá de gírias sem graça ou força. Fáci, fácil, julgam brilhar.”

Elas querem informações e ele pensa em lhes dizer:

“Aposentaram os bondes, enlataram a cerveja, correram com o sambista, enquadraram até os poetas. Lanchonetaram os botequins de mesinhas e cadeiras; pasteurizaram os restaurantes sórdidos do Centro e as cantinas do Brás, mas restaurante que se prezava era de paredes sujas, velhas! Plastificaram as toalhas, os jarros, as flores; niquelaram pastelarias dos japoneses, meteram tamboretes nos restaurantes dos árabes. Formicaram as mesas e os balcões. Puseram ordem na vida largada e andeja dos engraxates. Na batida em que vão, acabarão usando luvas. Caso contrário, farão cara de nojo ao bater a escova no pisante do freguês. Ficharam, documentara os guardadores de carros. Silenciou-se a batucada na lata de graxa. Acrilizaram a sinuca”.

Bastaria esse longo parágrafo para entender o título do livro, não?

Mas João Antônio também tem frases de efeito, mas elas são geniais:

“Nenhum sabido da profissão fez o inventário dos sonhos impossíveis que embalaram essas vidas perdidas no incêndio”.

“Um homem empanturrado não pode entender um faminto. Disso sei. Mas já sabiam antes de mim os russos e escreveram isso há mais de cem anos.”

Depois de observar um pessoal descarregando umas bobinas enormes de papel de um caminhão, trabalho pesadíssimo, ele ouve o seguinte de seus colegas da redação:

“Nos bares, depois do expediente, meus colegas, nem tão indignados quanto raivosos, chiam contra a censura. Fico em dúvida se não será mais fácil encarar e driblar a censura do que enfrentar o serviço dos carregadores”.

O fino da ironia e do humor:

“A esferográfica garatuja. Este país é um azogue. Corrijo. Este país é um açogue.”

Um conto longo, de sessenta páginas, mas que vale cada sílaba. Pela crítica social (mesmo que você, como eu, discorde de muita coisa), pela arte narrativa, pelos tipos, pelas descrições, pela literatura de altíssimo nível que João Antônio nos entrega.

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