Um princípio de solidariedade

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O homem ouve uma voz anasalada a tagarelar. No fundo da sala, o dono da voz é o centro das atenções. Protesta. Contra a covardia dos colegas. Contra a dureza daquela mulher, que não cederá uma vírgula. Contra o peleguismo dos ocupantes de cargos de chefia. Outra voz se levanta. E outra. E outra. Uma delas se destaca, dessa vez pelo volume. Solidariedade, ele clama. É injusto. De cima para baixo. Não podemos aceitar. Essas e outras palavras de ordem são pronunciadas, e o homem pensa no filho, que na noite anterior chorou, uma cena tocante, ao menos para o homem, única testemunha.

O homem havia se exaltado por conta de umas pilhas brancas, recarregáveis, que haviam sumido. Não levantou tanto a voz, mas falou com firmeza, condenando o descaso do filho. Minutos depois, ainda com um copo de achocolatado na mão, o filho vem, humilde, perguntar se o homem está bravo com ele. A voz trêmula, quase não sai. Eu não sabia que aquelas pilhas eram especiais, diz o menino. Não chore, diz o homem, mas é o gatilho que faltava, e as lágrimas fogem, pródigas. O homem engole seco e pede desculpas ao filho. Ele deveria ter explicado antes, ele deveria ter deixado bem claro que aquelas pilhas eram especiais, ele que se exaltou sem razão.

Tudo voltou à paz, mas o homem lembra-se da cena e pensa em como é fácil se indignar quando só se olha para o próprio umbigo. Seremos assim tão zelosos ao defender nossos deveres como somos ao defender nossos direitos?, pensa o homem. E ele sabe bem a resposta, a começar dele. É um pequeno hipócrita, que se reveste de máscaras conforme a ocasião pede. Um hipócrita que se especializou em enxergar e analisar a hipocrisia dos outros. Sou tão bom em enxergar o cisco no olho do outro, mas não enxergo a trave no meu olho, pensa o homem. E corrige, constrangido: na verdade, enxergo muito bem a trave no olho, apenas a ignoro, o que é bem pior.

De falácia em falácia se constroem verdades frágeis, que não resistem ao menor escrutínio. O homem vê (e todos ali sabem, até os que falam mais alto) que dentre tantos gritos e tanta revolta há um teatro. Um teatro que se encena nas nuvens, ou pelo menos no décimo andar de um condomínio fechado, com guarita, elevador e duas vagas de garagem. O clamor que ali se eleva é contra uma injustiça que alimenta muitas famílias Brasil afora. O acréscimo que ali se rechaça com tanta veemência é mais do que alguns milhões de miseráveis verão até o final do ano. E não cumprimos nossa parte no acordo, pensa o homem. Queremos um contrato só com direitos. Parece até que cumprir as nossas obrigações é um direito que nos cabe.

O homem não participa do debate. Coloca o fone de ouvido e toca Fix You, do Coldplay, no volume máximo. Atitude simbólica completamente inútil, a não ser pela música, que é muito boa. Esse parece ser seu jeito de resolver as coisas: fingir que elas não mais existem, fingir uma superioridade moral, fingir que não é com ele.

O homem pensa no filho, tenta imaginar possíveis esconderijos para as pilhas brancas, recarregáveis, e se compromete a chegar em casa com um sorriso e um abraço. Sabe que deveria estar trabalhando no momento em que escreveu o texto. Mais um exemplo de quão frágeis são as razões que nos alimentam.

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