Música para ninguém dormir

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Pessoas que amo correm perigo. E faltam ainda 59 dias. É frustrante olhar para os lados e não encontrar perspectiva de melhora. Seis homens estão sentados ao redor de uma mesa de restaurante. Todos casados. Cinco deles relembram relações extraconjugais ou lamentam oportunidades perdidas. Era para eu ter comido aquela gostosa e você me atrapalhou. Já aprontei muito, mas nunca com uma tão gostosa. Não sei qual dos sete pecados capitais é o pior, mas sei que a luxúria é o melhor.

Lá fora, nas ruas, carros de som gritam músicas em que um candidato ofende o outro. E o povão se anima, veste a camisa, é tudo um grande campeonato. O povo é gado, o povo é gado, o povo é gado, e à força da repetição eu me convenço, a contragosto.

Ninguém compõe nada singelo como “você não vale nada mas eu voto em você”. Talvez fosse algo bem sincero a se dizer por aí. Hoje vi o Santíssimo Sacramento sendo adorado por seis senhoras que facilmente receberiam o rótulo de beatas. Os bancos da igreja estavam vazios, e minha oração foi curta. Tende piedade de nós e do mundo inteiro. E um candidato pode desistir no meio do caminho, mas isso não é o pior que pode acontecer. Nem perder a vida é o pior, tão desolador é o cenário. E enquanto uma caixa d’água é feita fora da especificação, e a água não chega aos seus destinatários, reclamam que o Brasil só ganhou dois ouros nessas olimpíadas.

Alguém perdeu a oportunidade de trair a esposa e diz que mesmo que isso acontecesse, o casamento não acabaria por causa dos filhos, a desculpa mais humilhante e desprezível de todas. E se eu disser que sou feliz no casamento há quem me olhe como um criminoso. Ou como quem necessariamente mente, com o perdão do eco. Deve ser a distância de casa que faz a gente ficar à flor da pele. Uma pessoa é um voto, mas um voto pode custar cem reais, um médico no posto, ou um milhão de reais. Mas aí já não é um voto, é uma pessoa, de onde concluímos que uma pessoa nem sempre é um voto. Aula introdutória de cidadania.

E se mentir é uma questão de sobrevivência e caixa dois é crime, romper o pacto firmado com sua esposa deveria ser crime, portanto. O outro ficou calado. Pessoas que amo correm perigo. E cada dia que termina sem novidades é uma vitória. Mas ainda faltam 59 dias, e nem assim vai acabar. Gosto de lembrar do homem ridículo de Dostoievski, mas ele quase se matou. Só não atingiu seu triste intento porque sonhou com outro planeta no qual as a pessoas eram puras e boas.

Bastaria que todos quisessem e tudo na terra mudaria num instante, ele diz.

Os poucos que querem não fazem tanta força assim. E quem não quer… Ah!, meu caro amigo ridículo… Quem não quer faz todo o esforço do mundo para piorar o que já está insuportável.

Pela Sua dolorosa Paixão, eu rezo, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.

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2 Respostas para “Música para ninguém dormir

  1. Tende muitíssima misericórdia de nós e do mundo inteiro!

    Permita-me elucubrar imaginariamente o quanto esta crônica tem de “si” (no sentido mais componencial e personalístico do pronome), a fim de que eu bata palmas por dentro, num terreno fértil de identificação elogiosa: tua felicidade no casamento é um alento para mim, bem sabes. Em meu coração, eu acredito nisso. E só não concordo com a criminalização do inverso (a traição) porque isto implicaria em legitimar a consideração do interlocutor que escolhe a luxúria como “o melhor pecado”. Não há este: todos conduzem ao mesmo mal, o Mal!

    E os atravessamentos políticos não são casuais: elucubrações mais do que autorizadas, Sr. Wesley!

    Este é o tipo de texto que aprecio: salvo pelo detalhe da caixa d’água, é o tipo de coisa que eu escreveria “se tivesse a tua vida”. Espero que isso não pareça uma ofensa, pois, em verdade, é um sumo elogio agradecido: muito obrigado por isso!

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    • A caixa d’água foi minha crítica fechadíssima à corrupção que assola o país, baseada num caso concreto e ao meu alcance imediato.
      E concordo que não há pecado que não conduza ao mal.
      Entendo que se trata de um elogio e entendo sua sinceridade quanto à minha felicidade no casamento.
      Bom tê-lo de volta comentando no blog!

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