Lolita – Vladimir Nabokov

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Este certamente é um dos inícios de romance mais famosos da literatura, e está sempre presente nas listas desta espécie, como aqui e aqui.

Lolita conta a história de Humbert Humbert, um “homem branco e viúvo” e pedófilo. Ele é mais inteligente do que a maioria das pessoas, mais sensível, mais sagaz e exatamente por conta disso sabe o quanto é doente. Escrito no formato de memórias ele relata como conheceu Charlotte Haze, uma viúva com uma filha de doze anos, Dolores Haze, Lolita.

Humbert Humbert (naturalmente este não é o real nome dele) relata da seguinte forma a primeira vez que avistou sua ninfeta:

Ao ler um grande escritor, meu foco se divide, inevitavelmente. De um lado, a história, a narrativa; do outro, e talvez com preponderância, o estilo, o feitiço com as palavras que é domínio exclusivo daquele autor. Gosto de listas, e gosto especialmente de listas sobre livros. Naturalmente dou atenção a listas elaboradas por quem merece atenção. Examinando listas como a da Modern Library, da revista Time , Harvard) ou da World Library) é possível ver que Lolita sempre aparece em destaque. Isso foi despertando em mim um interesse em conhecer o romance e ver o que Nabokov tem de mágico, como ele conseguiu transformar a história de um pedófilo em um clássico da literatura mundial.

O começo do livro e a passagem citada acima já são suficientes para identificar um pouco do estilo do russo. Autocrítica, ironia, acidez, uma imensa capacidade de observação e, especialmente, de colocar no papel o que vê, tornam a leitura de Lolita agradável e fluída.

Mas não é o estilo de Nakobov que mais chama a atenção. É Humbert Humbert, o terrível. Com muito bom humor e demonstrando um imenso desprezo pela sua própria pessoa, ele muda seu próprio nome, montando trocadilhos, de acordo com a situação. Humburger, The Humble Hunchback (o corcunda humilde), Humburger, Hummer, Hummerson, Humbert the Hoarse (o áspero), Humbert the Wounded Spider (a aranha ferida), Jean-Jacques Humbert, Hamburg, Humbird, Humbug, Humbert the Hound (o cão de caça), Humbert the Humble (o humilde), Herr Humbert e muitos, muitos outros.

Ele ama Lolita. Mais do que isso, é obcecado por ela, louco, dependente. Ele sabe muito bem o mal que faz à menina, as marcas que ficarão para o resto da vida dela, mas seu desejo é mais forte, sua doença cala sua consciência. Um belo exemplo disso está na página a seguir, que narra o dia seguinte da primeira relação sexual dos dois. Humbert Humbert sabe o ato monstruoso que fez, mas não consegue evitar que o desejo volte mesmo vendo a fragilidade e a dor da sua presa.

É uma história triste, e não poderia ser diferente. Trata de um tema sério, com consequências terríveis para todos os envolvidos, mas a narrativa é hipnotizante e você quer ir até o fim. E a parte final é bastante louca, ou pelo menos assim me pareceu. Não vou contar o que se passa, mas um terceiro personagem aparece como responsável por uma série de ações passadas, e muda o rumo da trama. Sei que o fato de eu ter lido em inglês, tornou a compreensão de determinados trechos mais difícil, mas quando Lolita está prestes a revelar a identidade deste terceiro personagem, por exemplo, Humbert Humbert antecipa: você, meu caro leitor, sabe quem ele é há muito tempo. Eu confesso: não tinha a menor pista de quem poderia ser. Mas pelo que já pude verificar, há “Easter eggs” no livro, especialmente um na introdução (ainda não consegui descobrir, mas sei que o farei na minha releitura). Apenas para reforçar o aspecto insano do final do livro, há um assassinato que é uma das cenas mais surreais que se possa imaginar. Nabokov mostra todo o seu potencial narrativo, misturando pastiche, certo clima noir, drogas, nonsense e nem sem mais o quê.

Ao final, a impressão de que Humbert Humbert é real é tão forte que não pude deixar de imaginá-lo como alter ego de Nabokov. A obsessão, as pequenas e grandes perversões, o olhar viciado, a narrativa confessional tão próxima e vibrante… Cheguei a pensar: é a confissão de Nakobov. Aí leio uma nota no final do livro, escrita e assinada pelo próprio Nabokov, que desfaz esse “encanto maléfico” e me faz lembrar: ele é “só” um escritor de imenso talento, só isso.

Lolita tem uma “lição de moral”, quer passar uma mensagem? Dentre outras brilhantes observações, Nabokov diz o seguinte a respeito disso (tradução livre minha):

Há almas gentis que afirmam que Lolita não faz sentido porque não lhes ensina nada. Eu não sou nem leitor nem escritor de ficção didática, e, a despeito da afirmativa de John Ray, Lolita não traz em si nenhuma moral. Para mim uma obra de ficção só existe na medida em que me permite o que eu vou chamar desajeitadamente de êxtase estético, que é a sensação de estar de alguma forma, em algum lugar, ligado a outros estados do ser, onde a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) é a norma.

Para encerrar essas breves considerações, uma curta passagem que mostra (especialmente dentro do contexto da história) como Humbert Humberté louco por Dolores Haze e como Nabokov merece ser chamado de gênio:

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

14 Respostas para “Lolita – Vladimir Nabokov

  1. 5 estrelas e meia, de minha parte!

    Comentei sobre este livro, com a alma nua, em mais de uma situação.

    Concordo contigo, em tudo.
    Em tudo!

    Tanto que desgosto do filme do Kubrick baseado nesta obra-prima: ele não pôs em prática a argúcia moral estendida do desfecho… Glupt!

    WPC>

    • Uau!!! Você estava só de olho no blog esperando que eu publicasse o post, é? Praticamente só cliquei em publicar e já vejo seu comentário!

      Mesmo tendo visto a versão de Adryan Lyne, e sabendo que nem a versão dele nem a de Kubrick são fiéis ao livro (especialmente por conta da censura), vou conferi-las.

  2. Lolita é um livro espetacular! Apesar de ter um vocabulário simples, achei difícil de ler. Tem uma carga de emoção muito forte, que torna a narrativa impactante e árdua. O que só deixa a obra mais incrível e digna de releituras.

    Já vi o filme do Kubrick e mesmo concordando com o “pseudokane 3” na parte do desfecho, gosto do filme e o considero válido. Toda adaptação é decepcionante, mais Kubrick ainda é Kubrick! rsrs…

    • Também penso que um Kubrick será sermpre um kubrick, Aléxia. Realmente o vocabulário não é pomposo, mas a fina ironia e a angústia perene de Humbert Humbert, que não consegue narrar sem vagar pelo espaço e pelo tempo, sempre em busca de reminiscências traumáticas, exigem uma leitura cuidadosa.
      Obrigado por mais uma visita e volte sempre ao nosso blog!

  3. Meu contato com esse livro foi aos 13 anos achei super interessante, fiquei fascinada pela leitura simples e carregada e não conseguia parar de ler levava pro colégio pra ler nos intervalos, um dia ele desapareceu e até hoje não sei o final, depois de tanto tempo procurando achei pra comprar aki na net vou adorar reler e ver o final !!!

    • Pretendo reler Lolita em português, mas não está na lista dos próximos, digamos, dez livros, Lorena. Mas Lolita realmente nos deixa sem palavras, é um grande livro mesmo.

      Volte sempre ao blog, Lorena, e obrigado pela visita.

  4. Pingback: Minhas leituras em 2012 « Catálise Crítica

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  6. Acabei de ler Lolita nesse exato momento e saí caçando outras visões do livro na internet, e entre várias, achei a sua. Talvez a que mais concordo. Também fiquei confusa quanto ao 3º personagem, quanto ao Humbert ser só um personagem ou de fato algum tipo de confusão do autor. Enfim, é um livro fantástico mesmo, e sua análise foi ótima! Pretendo relê-lo pra perceber esses detalhes e refêrencias que não entedemos na primeira leitura.

    • Obrigado pelo elogio, Tay. Eu terminei de ler o livro bastante confuso, ou melhor, certo de que Nabokov confessava ali se não uma experiência vivida, pelo menos imaginada por ele. Aí leio o texto ao final da edição que tenho, em inglês (não sei se esse texto consta em todas as edições de Lolita), e ele fala do processo de criação, da técnica etc etc e aí sim fico confuso.
      É inegável o imenso talento de Nabokov e é também inegável como Humbert Humbert é um personagem real, quase de carne e osso. Lolita é um livro para ser relido sim, e pretendo reler quando chegar às minhas mãos a edição da Alfaguara.

      Volte sempre ao blog, passeie por outros textos, seja bem vinda!

  7. Pingback: Resenha – A verdadeira vida de Sebastian Knight – Vladimir Nabokov | Catálise Crítica

  8. Gostei muito de sua análise.
    Estou quase terminando o livro e preciso ler outras coisas para espairecer esse tema tão delicado e polêmico. Com certeza voltarei ao blog mais vezes.
    Abraço!

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