Festa na Usina Nuclear – Rafael Sperling

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Não lembro como cheguei até o blog Somesentido, de Rafael Sperling. Sei que a primeira coisa que li dele foi Um passeio até a farmácia, que me deixou impressionado. É evidente, nesse conto, o esforço (bem sucedido) do autor em concatenar absurdos, narrando eventos em que o sentido realmente some, fazendo jus ao nome do blog. Identifiquei, na minha leitura, sinais de quem estava amadurecendo sua escrita, e por isso ainda se deixava levar por alguns “exageros estilísticos” (não sei bem se esta expressão esclarece bem o que tento dizer, mas alguns exemplos disso são o uso recorrente de adjetivos antagônicos ou mesmo de duplos adjetivos, como em “besouro alegre e formiga melancólica” e “rir de forma desorganizada e ambiciosa”, “dançando de forma sexualmente provocante e pejorativa”, dentre outros). Apesar disso, o potencial daquele conto me chamou a atenção, e tive a impressão de que o autor ainda daria o que falar.

Depois de um ano da leitura de Um passeio até a farmácia, finalmente li o Festa na Usina Nuclear (só agora reli o post que escrevi na época e vi que cheguei até Rafael Sperling por meio do Portal Cronópios, mas não vou alterar o que escrevi no começo).

São 25 contos, em sua maioria bem curtos. Rafael é objetivo (se isso é possível, considerando os absurdos que ele escreve) e não é de usar adereços. Também não se importa de usar uma linguagem crua, parecendo bem à vontade quando o assunto é sexo. Há, aliás, pelo menos três contos que apostam numa visão bastante heterodoxa da sexualidade: Amôres Efêmeros 2, que narra a visita de um bebê a um bordel, A eterna busca pelo buraco, cujo título é autoexplicativo (sim, é aquele buraco mesmo!) e Minha puta querida, em que um cliente ultraviolento narra como usa os serviços de sua prostituta preferida.

Como é bem natural num livro de contos, gostei de alguns dos 25 contos, desgostei de outros. Quero pontuar, contudo, que há um critério bem objetivo que me levou a ter essas duas opiniões distintas, que vou esclarecer adiante.

Grosso modo, Rafael Sperling usa o absurdo, o nonsense, em todos os seus contos, mas em diferentes graus. Em alguns casos ele flerta com uma narrativa mais usual, uma trama mais cartesiana, e aí perde a sua força. Em alguns poucos contos há também um didatismo que me incomoda. A situação absurda está lá, mas ele tenta explicar ou esclarecer, o que, para mim, atrapalha o efeito do que o autor quer passar. O exemplo paradigmático deste caso é o conto Certo dia, em algum lugar, em que o narrador tenta explicar que está preso a uma dimensão onde tudo é efêmero.

Na grande maioria das narrativas, todavia, Sperling mostra porque deve ser lido. O primeiro conto, Amores e um século, é curtíssimo, mas abre espaço para diversas leituras e interpretações. Amores efêmeros, que narra um casal que compra filhos de acordo com a necessidade, é brilhante, forte, muito bem narrado em sua distopia, tendo me lembrado tangencialmente o genial Never Let Me Go, de Kazuo Ishiguro. A “série” Um homem chamado homem, em três partes, tem seu ponto forte na primeira parte, quando somos apresentados à taxonomia óbvia e original de Sperling: A banda que se chama banda, o filme que se chama filme e assim por diante.

Éz, sobre funcionários públicos que se esforçam para serem tão inúteis quanto possível, não me deixou indiferente, já que eu mesmo sou funcionário público e volta e meia me vejo tentado a escrever algo com temática similar (mas não nesse estilo absurdo, já que sou bem ortodoxo, se comparado ao Rafael Sperling, na hora de escrever).

O autor mostra que seu estilo casa bem com o assunto violência. Aplausos da plateia, Noite Poética (e sangrenta) e Manoel, se hoje fosse amanhã (que ainda homenageia David Lynch, que, imagino, seja uma grande referência para o autor) são perfeitos exemplos disso.

O último conto, que dá nome ao livro, é provavelmente aquele que mais se assemelha ao conto que citei no início desse texto, Um passeio até a farmácia. Rápido, dinâmico, cheio de mudanças bruscas e repleto de absurdos que são encarados com a mais absoluta naturalidade e que se resolvem num piscar de olhos, o conto é delicioso de se ler.

Mas, para mim, o conto que define a escrita de Rafael Sperling (pelo menos aquilo que ele apresentou neste livro) é o que é “menos conto” de todos: Manual de Comportamento.

O autor dá instruções objetivas e detalhadas sobre atividades cotidianas realizadas em público: defecar, beber água, comer, falar, cometer suicídio. Não há nada no conto que denuncie o absurdo presente nos outros contos senão o próprio absurdo de se instruir alguém civilizado sobre como limpar o ânus depois de defecar ou como não falar enquanto mastiga.

Este manual de sobrevivência foi escrito para os personagens que habitam o mundo insano de Sperling. Num mundo em que não há leis morais, físicas ou lógicas e que uma pessoa vai à farmácia depois de se matar, imagino que, de fato, as pessoas não saibam como beber água em público ou até falar em público, precisando de instruções detalhadas para se enquadrar na normalidade.

Rafael Sperling possui, decerto, muita criatividade, e consegue transmitir para seus contos uma visão curiosa e que torna inevitável a pergunta: há sentido nisso tudo?

Some sentido, eu me pergunto, se refere a sumir ou a somar? Se fosse arriscar uma resposta, seria: AMBOS.

Apesar da dualidade do que foi exposto acima, não há dúvidas quanto ao seguinte:

Vale a pena ler Rafael Sperling e conhecer seu mundo.

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2 Respostas para “Festa na Usina Nuclear – Rafael Sperling

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