O Clube do Suicídio – Robert Louis Stevenson

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Até bem pouco tempo, ao ouvir o nome de Robert Louis Stevenson, minha memória evocaria, de cara, A Ilha do Tesouro (em minha imaginação – de quem não leu o livro – um livro de aventuras para crianças) e O médico e o monstro, uma história clássica à qual nunca dediquei muita atenção.

Aí vem a Cosac Naify e lança este livro. Encontrei-o numa livraria há algum tempo e folheei-o, e só então descobri que era um volume de contos. Fui ao site da Cosac Naify, fiz mais algumas buscas e li que gente como Poe, Henry James, Jorge Luis Borges, Nabokov, Joseph Conrad, Bertolt Brecht, Ernest Hemingway e muitos outros prestam reverência a Stevenson, considerado um grande narrador, um autor cujos escritos ensinam a ler e a escrever, além das óbvias qualidades literárias.

Fiquei de queixo caído e decidi que tinha que ler esse livro.

Antes de começar a falar do texto, porém, abro um pequeno parêntese para falar desta edição da Cosac Naify. Além da já esperada qualidade gráfica, cuidado com revisão, estética etc., o livro traz, em adição aos seis contos, quatro presentes aos leitores:

  • Logo na abertura, um esclarecedor artigo de Davi Arrigucci Jr., A poesia da circunstância. Cerca de quarenta páginas analisando a escrita de Stevenson, a partir de alguns de seus contos. Ao terminar, o leitor até então desinformado (como era meu caso) parte para os contos com uma perspectiva ampliada;

  • No apêndice, um artigo de Henry James – Robert Louis Stevenson, a análise do O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde por Vladimir Nabokov e, para finalizar em grande estilo, sugestões de leitura para se aprofundar na obra do escritor escocês.

Por essas e outras que o selo Cosac Naify é, para mim, segurança de que o livro é bom. Neste caso, meus caros amigos da Cosac Naify (se é que alguém vai chegar a ler isso aqui), vocês se superaram. Parabéns!!!

Agora sim, falo dos contos. A orelha do livro lembra que Stevenson desafia todo tipo de classificação. E os seis contos que compõem essa coletânea comprovam isso. Apesar de o estilo elegante do escocês ser visível ao longo das seis histórias, ele não se prende a uma forma de narrar. Enquanto O Clube do Suicídio parece, à primeira vista, uma história de aventura, temos narrativas de alta carga psicológica, como O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide e Markheim e histórias curtas, mas impressionantes, como O Ladrão de Cadáveres e O Vestíbulo.

Abaixo, um pouco sobre cada um dos contos:

O Clube do Suicídio

Em um dos artigos se fala da visão cinematográfica de Stevenson, e nem lembro se o autor se referia a este conto. Para mim, contudo, a leitura desta história foi suficiente para eu ter a certeza de que tinha nas mãos os escritos de um grande escritor. A narrativa pode ser assim resumida (quase uma versão Twitter): O príncipe Florizel, da Boêmia, é um homem corajoso e com gosto por aventuras. Tendo residido um tempo em Londres, ele, ao lado de seu fiel amigo, o coronel Geraldine, perambulava pelas noites, disfarçado, em busca de emoções. Chega ao seu conhecimento a existência de um Clube do Suicídio, uma sociedade altamente secreta para quem quer morrer sem deixar sobre si (ou sobre sua família) o opróbrio de uma morte vergonhosa. O “associado” paga uma taxa e tem sua morte providenciada pelo clube. O príncipe, contra toda a prudência (e os conselhos do coronel), resolve por fim ao clube.

Nem de perto deu uma versão de 140 caracteres, mas o conto tem quase cem páginas, portanto, muita coisa acontece.

A primeira sacada de gênio é a maneira como Stevenson narra a história: ele divide-a em três capítulos – A história do rapaz das tortas de creme, A história do médico e do baú de Saratoga e A aventura das carruagens de aluguel.

Cada história começa com personagens diferentes, e é como se outra aventura estivesse sendo contada. Aos poucos, e de maneira extremamente habilidosa, Robert Louis Stevenson vai nos dando pistas das relações entre aquela narrativa e o clube do suicídio. No final das contas, as três histórias se casam e você tem a impressão de já ter visto isso em algum filme.

O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide

Nunca havia lido “O Médico e o Monstro” por achar que se tratasse de “baixa literatura”, puro entretenimento. Quanta ignorância a minha, meu Deus! Ainda bem que esse tipo de ignorância tem cura!

Para começo de conversa, as paródias e brincadeiras sobre o Médico e o Monstro que eu já tinha visto nada têm a ver com este conto. Narrado de maneira grave, precisa, atenta, é impossível resistir à vontade de ler mais uma página, e mais outra, e mais outra. É outro conto longo (ou novela?), com cerca cem páginas. Mas cada uma delas vale a pena. Não vou comentar sobre a história, já bem conhecida. Faço uma observação somente a respeito de um “detalhe” que o autor utiliza para narrar a história: o ponto de vista. Ao invés de se colocar no meio da história, narrando tudo a partir do Dr. Jekyll, Stevenson primeiro nos apresenta Mr. Utterson, o condutor da história. Mas o autor não tem pressa. Ao invés de adentrar logo no drama de Jekyll e Hyde, ele fala do que Mr. Utterson gosta, como ele é visto pelos amigos, quais são seus hábitos. Quando vemos, o caso que dá nome ao conto se tornou o centro das atenções, tudo de maneira fluída, magistral.

Este é, sem dúvida, um conto para ser relido sempre (eu ia colocar esta observação no final deste texto, referindo-me a todos os contos de Stevenson, mas O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde merece uma leitura enquanto ficção científica, outra enquanto horror, outra pelo estilo, várias para se analisar os aspectos psicológicos presentes, e inúmeras pela obra literária que é, independentemente de tudo isso.

Markheim

Este é um dos contos curtos desta coleção, com vinte e três páginas. Esta afirmação, é claro, não carrega entonação qualitativa.

Um homem chega a um antiquário, em plena noite de Natal, dizendo que quer comprar algo para uma dama. O antiquário é seu velho conhecido, sabe do seu pendor para a gastança, por isso tem má vontade com ele. O homem tem outras intenções e não posso ir além disso. Vá ler o conto. Adianto que há muito de Crime e Castigo, com uma pitada de fantástico.

O demônio da garrafa

Ao terminar a leitura deste conto, me perguntei: por que este não é um conto dos mais conhecidos de Stevenson?

Em nota no início do conto, o próprio Stevenson lembra que a ideia do conto não é originalmente dele, mas de uma peça célebre em sua época. Ele diz que procurou transformar a história em algo novo.

Qualquer um de nós vai reconhecer elementos do velho conto do gênio da garrafa, mas aqui com ares mais cruéis. Há uma garrafa que tem passado de mão em mão há incontáveis tempos, sempre sendo vendida por um preço menor do que foi comprada da última vez. Seu dono pode pedir o que quiser, e será atendido. Ele não poderá se livrar da garrafa, a não ser que a venda. Caso morra de posse dela, sua alma irá para o inferno.

Um havaiano chamado Keawe acaba comprando a garrafa e ficando rico. Conhece seu grande amor e uma série de contratempos faz com que repetidas vezes ele perca a posse da garrafa e a recupere.

É uma história com elementos sobrenaturais, algo comum, aliás, na obra de Stevenson, pelo que pude ver, mas também é uma história sobre desejos, insatisfações, amor. É, enfim, uma história deliciosa de ser lida, escrita com maestria.

O ladrão de cadáveres

Essa é a história mais sombria do volume. Fettes é um velho homem que costuma frequentar uma taverna onde bebe com seus amigos. Pouco se sabe sobre ele, além do fato de ter tido uma formação não concluída em medicina. Numa determinada noite, o destino leva-o a reencontrar um antigo conhecido, hoje um eminente médico, mas, segundo ele, um homem sem caráter, capaz de fazer as piores barbaridades. Os seus amigos começam a pesquisar sobre essa história, já que ele mesmo não revela mais nenhum detalhe. Acaba descobrindo que, muitos anos atrás, ambos foram colegas da faculdade de ciências médicas. Eles trabalharam na sala de dissecação com um prestigioso médico, o Sr. K, para quem eles faziam um mórbido serviço: roubar cadáveres. Com o passar do tempo, Fettes percebe que há mais do que o simples roubo de cadáveres. E ele começa a questionar o que se passa naquela faculdade.

Mais do que uma história de horror, mais uma vez Stevenson joga com valores, com conflitos éticos e morais. A passagem em que é narrado o roubo do corpo de uma senhora muito conhecida numa pequena vila é exemplar. Modelo de precisão e de beleza, não tem como não se envolver com aquela narrativa. O escuro, a chuva, o corpo, a luz que se apaga… Conto de leitura obrigatória para quem ama a literatura.

O vestíbulo

Este é o conto mais curto do volume. Curtíssimo, aliás. Menos que cinco páginas. Mas é de uma inventividade estonteante. É, sem sombra de dúvidas, a maneira mais original por meio da qual alguém cometeu um assassinato. Um homem odeia outro, que não sabe desse ódio. O homem que odeia, contudo, sabe que o alvo de sua ira é supersticioso, e após quase sofrer um acidente num canto recôndito, resolve levar o outro à morte, começando pela narrativa de um sonho.

Posso resumir o que pensei ao terminar a leitura deste conto em três palavras: genial, genial, genial.

Conclusão

Robert Louis Stevenson é um artista da palavra. Ele tem boas histórias para contar e sabe contá-las com maestria. Você acaba se questionando: as histórias são tão boas assim ou se tornam melhores porque a técnica dele é soberba? Não importa. É um círculo virtuoso: um homem com uma imaginação estupenda que sabe como poucos como transformar ideias em obras de arte, que prendem, capturam o leitor até a última linha.

Não vejo a hora de ler mais alguma deste brilhante escritor.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

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3 Respostas para “O Clube do Suicídio – Robert Louis Stevenson

  1. O título é promissor…

    Sou um mau analista de edições (risos), mas as tramas me parecem deveras convidativas – e inusitadas, considerando a “fama” aventureira do autor. A ser achado…

    WPC>

  2. PS: o conto que serviu de base para O MÉDICO E O MONSTRO é de uma consistência filosófico-existencial impressiva: a primeira versão fílmica consistente do mesmo (ao menos, que eu conheça ou tenha visto), datada de 1931, é genial, me deixou em transe reflexivo por horas, dias… Vai muito além do mero “horror”, equiparando-se ao “horror, horror…” conradiano. Te recomendo! (WPC>)

  3. Pingback: Minhas leituras em 2012 « Catálise Crítica

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