Deuses Americanos – Neil Gaiman

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Neil Gaiman ficou famoso pela série de quadrinhos Sandman, mas seu portfólio inclui, além dos quadrinhos, roteiros de filmes, biografias de bandas (seu primeiro livro foi sobre a banda Duran Duran), crítica literária, contos e romances.

Deuses Americanos é seu romance mais premiado (venceu o Hugo e o Nebula, tradicionais prêmios na área de fantasia), e provavelmente é o mais ambicioso trabalho do escritor inglês.

A premissa é a seguinte: quando os Estados Unidos foram colonizados, os ingleses, irlandeses, poloneses, africanos, enfim, cada um dos povos trouxe suas crenças, seus deuses, suas superstições, que se encontraram com as crenças dos nativos. Na visão de Gaiman, a fé dessa gente os acompanhou de maneira personificada. Diversos deuses vieram da Europa, da África, da Ásia, onde eram adorados, para ser esquecidos aos poucos na América. Em seu novo habitat poucas pessoas lhes rendiam louvor, lhes ofereciam sacrifícios, lembravam-se de seus nomes em suas orações. Com isso os deuses foram se enfraquecendo. Eles, que vieram poderosos de seus antigos lares, agora viviam como os humanos, ganhando a vida, muitas vezes de forma miserável, com trabalhos algumas vezes honestos, outras vezes nem tanto. Acabaram engolidos pelo gigante americano, pelo monstro de tecnologia e eficiência, que despreza as tradições e cospe nos velhos valores. Os velhos deuses passaram a ver seus altares esvaziados, enquanto os altares dos novos deuses recebiam todo tipo de oferta. Surgiram assim os novos deuses, os deuses americanos: o rádio, a televisão, a internet, o jornal. Deuses ainda ébrios pelo poder recém-adquirido e que acham que não há mais espaço para os velhos deuses. Vislumbra-se, num horizonte perigosamente próximo, um confronto: o novo versus o antigo.

Gaiman possui uma prosa direta, simples, mas bastante elegante. Em sua narrativa há espaço para um humor requintado, para uma dose razoável de suspense e aqui e acolá algumas amostras de ação. Mas se há algo que me pareceu característico em Deuses Americanos é que não há urgência no seu modo de contar a história, mesmo considerando-se que dentre os fatos que ele narra, pode estar incluído o fim do mundo – ou algo parecido.

O centro da narrativa de Deuses Americanos é Shadow, um homem grande, bastante grande (característica que é percebida e lembrada por quase todos os personagens que cruzam seu caminho). O livro começa com Shadow prestes a sair da prisão e reencontrar sua esposa. Ele tem um pressentimento bem leve de que algo não está certo, de que aquela ansiedade para deixar a prisão, aquele sentimento de que finalmente sua vida vai recomeçar podem ser o prenúncio de que nem tudo vai dar tão certo assim.

Depois de uma série de surpresas, que é melhor não revelar por aqui, Shadow acaba trabalhando para um homem misterioso autodenominado Wednesday. Seu trabalho inclui pequenos golpes, dirigir, pegar algumas coisas pesadas, conversar com deuses… Durante essa jornada com Wednesday, Shadow tem conhecimento dos planos dos novos deuses e do que Wednesday, um dos antigos (é só verificar seu nome para ver quem ele é), planeja fazer em retaliação. Shadow encara com estranha e inesperada naturalidade todas essas histórias, inclusive os bizarros encontros com as mais diversas divindades. Um desses encontros, um dos mais interessantes, envolve um truque de prestidigitação com a lua e uma aposta arriscada num jogo de damas.

Como expliquei acima, Gaiman não tem pressa. Há um confronto por vir, e ele adianta algumas coisas, cria a expectativa de que logo veremos ação. Mas ele está preocupado em contextualizar. Às vezes interrompe a narrativa para contar uma pequena história que se passou há duzentos anos ou que se passou na noite anterior, a dois mil quilômetros de onde Shadow está.

Gaiman investe tempo para dar vida a Shadow. Nós o vemos criar e perder amizades, fazer boas ações, comprar pão, passar frio, negociar um carro, tomar uma cerveja, querer morrer, querer viver, rejeitar uma refeição… Em tudo isso, todavia, há um domínio narrativo. Percebemos que não se trata de “encher linguiça”. Gaiman tem tudo na mão. Sabe exatamente que história quer contar e como quer contá-la. A seguir um trecho que ilustra bem essa preocupação do autor, bem como o espírito da prosa do livro:

– Deixe eu falar uma coisa – disse o senhor Nancy. – Pode passar muito tempo até a próxima refeição. Se alguém oferece comida, você aceita. Eu não sou mais tão jovem quanto era, mas posso dizer… nunca perca a oportunidade de mijar, comer ou dar um cochilo de meia hora. Está entendendo?

– Estou. Mas não estou com fome mesmo.

– Você é grandão – disse Nancy, olhando nos olhos cinza-claro de Shadow com seus olhos velhos cor de mogno. – Um pedaço de mau caminho, mas eu preciso falar, você não parece muito inteligente. Você lembra meu filho, que é tão imbecil como se tivesse comprado sua burrice numa liquidação de dois por um.

– Se não se importar, vou considerar isso um elogio.

– Ser chamado de idiota como um homem que dormiu até tarde na manhã que estavam distribuindo cérebros?

– Ser comparado a um membro da sua família.

O senhor Nancy amassou a cigarrilha no cinzeiro, depois tirou um ponto de cinza imaginário de suas luvas amarelas.

O resultado é um livro cuja leitura é deliciosa. E se tudo parece sem explicação em alguns momentos, à medida que o livro vai chegando ao fim, vemos como tudo (ou quase tudo) se encaixa. Disse quase tudo porque a quantidade de ganchos é imensa. A impressão é que Deuses Americanos pode servir como a matriz de um gigante universo. O livro estabelece o cenário, o ambiente, e a partir daí Neil Gaiman pode trabalhar histórias quase independentes, sem ter que escrever um “Deuses Americanos 2”. Isso é tão verdade que Gaiman já fez isso. Em Coisas Frágeis, coletânea de contos publicada no Brasil em dois volumes, há alguns contos ambientados no universo de Deuses Americanos. Em Os Filhos de Anansi, Gaiman conta a história dos filhos de Anansi (ohhhhh!!!!!! É mesmo?), uma das divindades que aparecem em Deuses Americanos.

E por falar em deuses (a história é sobre eles, lembram-se?), é impressionante a quantidade de divindades descritas por Gaiman. O trabalho de pesquisa deve ter sido intenso, o que, aliado à fértil imaginação do escritor inglês, resultam em uma constelação de deuses que ocupam os mais diversos espaços. Apenas para citar um exemplo, a Rainha de Sabá é aqui uma deusa que trabalha como prostituta e encontra uma maneira mais do que original de ser adorada e de receber oblações e sacrifícios.

Deuses Americanos é um livro que diverte bastante. Apesar de longo, não há altos e baixos: a narrativa é bem construída e todo o processo de leitura é agradável. Depois de ter gostado bastante de Coisas Frágeis, consolido a opinião de que Neil Gaiman é um dos mais hábeis inventores de histórias fantásticas que conheço.

P.S.:  Uma notícia interessante que acabei de descobrir: A HBO está prestes a iniciar a gravação da série American Gods. Há diversos rumores, como um que diz que a previsão é de seis temporadas, mas o próprio Gaiman confirmou em uma entrevista bem recente que os últimos detalhes contratuais já estariam fechados e ele mesmo participaria da elaboração do roteiro. É só aguardar!

Minha Opinião:

5 estrelas em 5

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12 Respostas para “Deuses Americanos – Neil Gaiman

    • Não. Gaiman não faz referência aos personagens de Sandman. Melhor dizendo: eu não percebi nenhuma referência.

      São sete os irmãos Perpétuos:

      Destiny – Destino
      Death – Morte
      Dream – Sonho
      Destruction – Destruição
      Desire – Desejo
      Despair – Desespero
      Delirium – Delírio

      Shadow é um quase “average man”, ou ao menos é assim que ele é apresentado no início. Claro que vamos descobrindo muitas coisas sobre ele também.

      Vale muito a leitura. Recomendo. Melhor (mas menos útil) que Direito Processual Civil.

  1. Pingback: Minhas leituras em 2012 « Catálise Crítica

    • Além de ser muito louco, é um autor divertido demais de ser lido, Lucas. Criativo ao extremo e dono de um senso de humor bem peculiar. Obrigado pelo elogio. Volte sempre ao blog!

  2. Comprei o livro em Janeiro, mas só agora estou lendo. E, por sinal, é mesmo fantástico (como livro e como narrativa).

    Já estou na expectativa da série, pelo que sei será produzida pelo Tom Hanks ( \o/ ) !!!

    • Lembro de ter visto em algum lugar que seria produzida uma série. Precisa ser feita pela HBO, sem dúvida alguma! Padrão Game of Thrones.

  3. Pingback: O oceano no fim do caminho – Neil Gaiman | Catálise Crítica

    • Isso mesmo, Raquel. Deuses Americanos, para mim, coloca Neil Gaiman acima da “categorização”. Ele já não é mais um dos maiores autores de literatura fantástica, mas um dos maiores escritores da atualidade, simples assim.

      Vi seu blog. Muito legal! Daqui a pouco deixo uns comentários nas suas resenhas, que são muito boas.

      Abraços!

  4. Pingback: Resenha – F, de Antônio Xerxenesky | Catálise Crítica

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