Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998) – Organização de Bruno Barreto Gomide – Parte I

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Ganhei de presente (na verdade, um presente “sugerido” ao meu irmão, que passava por uma grande livraria em Curitiba, acho) este volume respeitável (648 páginas), que reúne 40 contos de 40 autores russos. A antologia é a primeira, segundo a Editora 34, a ser inteiramente composta de contos traduzidos diretamente do russo, além da peculiaridade de quase todos os contos serem inéditos no Brasil. Há medalhões como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Turguêniev, Tchekhov, Tolstói, Górki, Pasternak, Bábel e Nabókov, mas todos esses tiveram contos menos conhecidos incluídos. Completam o time de autores, naturalmente, escritores pouco conhecidos do grande público, muitos deles publicados pela primeira vez no Brasil.

Como é costume da Editora 34, a edição é caprichada. A capa e o acabamento são sóbrios, mas irrepreensíveis. Há uma excelente apresentação de Bruno Barretto Gomide, organizador da antologia, além de breves – mas esclarecedoras – introduções para cada um dos contos, falando do autor, de sua relevância dentro do universo da literatura russa, além dos motivos para a escolha daquele conto em particular.

Considerando a extensa lista de contos, publicarei a análise dessa publicação em cinco partes, cada uma delas contemplando oito contos, como dita a boa matemática.

A antologia está organizada em ordem cronológica, de sorte que os contos analisados a seguir foram escritos entre 1792 e 1877:

Pobre Liza (1792) – Nikolai Karamzin

Um dos primeiros best-sellers em prosa da Rússia, segundo a introdução ao conto, Pobre Liza é uma clássica narrativa sentimental, tendo influência da literatura francesa que então chegava a Moscou. Conta a história de Liza, pobre moça que vivia com sua mãe, batalhando a cada dia para conseguir o pão de cada dia, depois do falecimento de seu pai. Ela conhece um rapaz, um jovem de classe social mais elevada, bastante supérfluo, de natureza volúvel. Ele se encanta com a pobre Liza, e ambos nutrem um belo sentimento mútuo. Chega a hora, entretanto, em que o encanto se quebra e o interesse do rapaz deixa de ser puro. Surge então a ocasião, assim narrada pelo autor:

“Ela atirou-se em seus braços – e essa hora haveria de ser fatal para a sua pureza! Erast sentiu no sangue uma agitação extraordinária, Liza nunca lhe parecera tão encantadora, suas carícias nunca o tocaram tão fortemente, seus beijos nunca haviam sido tão ardentes – ela não sabia de nada, não suspeitava de nada e nada temia – a penumbra da noite nutriu o desejo – nenhuma estrelinha brilhou no céu, nenhum raio de luz conseguiu iluminar o desatino. Erast sentia-se tremer, Liza também, sem saber por que, sem saber o que estava acontecendo com ela… Ah! Liza, Liza! Onde está o teu anjo da guarda Onde está a tua inocência?”

O conto é trágico e um tanto previsível. A leitura é agradável e me foi mais interessante pela contextualização histórica – trata-se de um conto-chave da literatura russa – do que pelo conto em si.

Viagem a Arzrum (1836) – Aleksandr Púchkin

Não se trata bem de um conto de Púchkin, mas de um relato de uma de suas viagens, em meio à guerra entre russos e turcos. A justificativa para a escolha desse relato como conto, todavia, é que Púchkin alterou tanto o relato, demorou-se tanto para concluí-lo, adicionando detalhes literários, enriquecendo as descrições, que pode ser considerado uma “quase obra de ficção”.

É um dos contos mais longos da antologia – 47 páginas – e é em boa parte descritivo. Não fica oculto em nenhum momento o imenso talento do autor. Ele narra com maestria, descreve as pequenas dificuldades da jornada, a troca de um cavalo, a comida ruim que recebeu, as pulgas num colchão, o risco de emboscadas e até mesmo cenas de batalhas. Quando iniciei a leitura, tive a impressão de ser apenas mais um conto, um obstáculo a ser vencido para terminar a leitura do volume, já que gosto de ler sempre na ordem. Pelo contrário, o conto é interessante, divertido e esclarecedor. Abaixo uma das excelentes passagens, em que o autor fala dos circassianos:

“Os circassianos nos odeiam. Nós os retiramos de suas vastas passagens; seus aúles foram destruídos, tribos inteiras exterminadas. […] Esses lados de cá são cheios de boatos a respeito de seus crimes. […] A adaga e o sabre são como partes do corpo, e os bebês começam a manejá-los antes de começar a balbuciar. Para eles, um assassinato é apenas um movimento do corpo. Mantêm seus prisioneiros na esperança de conseguir um resgate, mas os tratam de forma extremamente desumana, obrigam-nos a trabalhar acima de suas forças, alimentam-nos com massa crua, batem quando têm vontade e colocam para vigiá-los seus meninos, que, por qualquer palavra, têm o direito de matar o refém com seus sabres infantis. Recentemente, capturaram um circassiano pacificado que atirara em um soldado. Ele se defendeu dizendo que sua espingarda estava carregada há tempo demais. O que fazer com um povo desses? […] Há um meio mais fortes, mais moral, mais de acordo com nosso século ilustrado: a pregação do Evangelho. […] O Cáucaso está à espera de missionários cristãos. Mas é mais fácil para nossa preguiça despejar letras mortas ao invés da palavra viva e mandar livros mudos à gente que não sabe ler.”

A carruagem (1836) – Nikolai Gógol

Este é um conto bastante bem humorado, tanto no enredo como na maneira como é escrito. Divertido, leve, carregado de ironia fina, conta uma história ocorrida numa cidadezinha sem nome, onde “reinava o mais profundo tédio” até a chegada da cavalaria?

“Quando a gente passava e olhava as casinhas caiadas e baixas, que espiavam a rua com ar de extremo azedume, então… não, é impossível expressar o que acontecia no coração: tamanha melancolia como se a gente tivesse perdido tudo no jogo ou deixado escapar alguma asneira sem propósito. Em uma palavra: não era nada agradável.”

Este é o tom que domina a narrativa. A cidadezinha ganha vida depois da chegada da cavalaria. Por um motivo que o narrador diz não recordar, o general da brigada oferece um grande jantar, para o qual toda a sociedade se mobilizou, a ponto de o mercado ser fechado apenas para fornecer comida para o banquete. Um cidadão rico e bastante vaidoso está entre os convidados. É, segundo o narrador, a única figura que merece comentários em todo aquele jantar. O general exibe sua belíssima égua de raça e o convidado citado, para não ficar por baixo, comenta a respeito da necessidade de uma carruagem à altura daquele nobre animal. Conversa vai, conversa vem, acabam agendando um almoço no dia seguinte em sua casa – compareceriam o general e uma pequena comitiva de oficiais – para verem quão magnífica é a sua própria carruagem, que teria custado uma pequena fortuna.

A noite já avançava e o visitante preparava-se para ir para casa, encomendar o almoço e providenciar os preparativos para receber seus convidados. Mas ele gosta de beber e jogar, e acaba se distraindo, como mostra o texto a seguir:

“- Senhores, é tempo de eu ir para casa, é mesmo tempo. – Mas de novo sentou-se para mais uma partida. Enquanto isso, nos diferentes cantos da casa a conversa tomava rumos completamente distintos. Aqueles que jogavam whist ficavam bem calados, mas os que não jogavam e que estavam sentados ao lado nos sofás, mantinham uma boa conversa. Ali, um capitão de cavalaria, apoiado em uma almofada, com um cachimbo entre os dentes, contava com eloquência e muito à vontade suas aventuras amorosas e retinha a atenção do grupinho ao seu redor. Um proprietário de terras extraordinariamente gordo, cujos braços curtos mais pareciam duas batatas degeneradas, escutava-o com uma expressão adocicada e às vezes se esforçava para passar sua mão curtinha pelas amplas costas para puxar a tabaqueira.”

Alguém que aplica a figura de “duas batatas degeneradas” para se referir a braços gordos é ou não é genial? Só lembro de Tolstói, que se refere a bracinhos mais graciosos – de um bebê -, dizendo que eram tão fofos que pareciam amarrados por uma linha. Os russos são especialistas em descrever braços? Acho que sim…

Fato é que Tchertokútski, nosso herói (como são difíceis esses nomes russos!) embriaga-se, chega a sua casa carregado, às quatro da manhã, e não avisa a esposa nem aos empregados sobre o jantar. É acordado pela esposa, que vê a aproximação da comitiva, ao longe.

O desfecho é bastante cômico, mas abrupto. Não sei se é o jeito russo de terminar histórias de humor, mas soa diferente.

Nunca tinha lido nada de Gógol, mas gostei demais do seu estilo de escrever. Um dos melhores contos dentre os oito que li.

A sílfide (1837) – Vladímir Odóievski

Conto de conteúdo fantástico, narra a história de um jovem com tendência á hipocondria, que se retira para uma pequena vila, onde assume a propriedade do seu falecido tio. Pensando em melhorar de sua doença, isola-se da civilização e faz um interessante louvor à ignorância, apresentando os seguintes pontos positivos de sua nova morada:

“Eu quase não vejo ninguém e não tenho um livro sequer!”

Ele continua, dessa vez a respeito do livro, um libelo inigualável contra a literatura:

“É impossível descrever essa felicidade: é necessário experimentá-la. Vemos um livro sobre a mesa e involuntariamente estendemos a mão para pegá-lo, abrimos o livro, lemos; o início nos ilude , promete mundos e fundos – mas quando avançamos, vemos que tudo não passava de castelos de areia, ficamos com aquela horrível sensação que experimentam todos os pensadores desde o início dos tempos até os dias de hoje: procurar e não achar!”

A história é inicialmente contada por meio de cartas deste jovem a um amigo seu na capital. Acompanhamos como ele se afeiçoa por uma jovem e bela moça, filha do dono da propriedade vizinha, com quem seu tio tinha uma contenda judicial. O casamento entre o jovem e a moça seria uma forma conveniente e agradável de resolver essa contenda, já que a ação judicial morreria e ambos nutrem sentimentos mútuos. Tudo vai bem até que o jovem sente saudade dos livros. Procura em toda a casa e acaba descobrindo uma coleção secreta do seu tio: livros místicos sobre alquimia, cabala, comunicação com seres elementais etc. O jovem, cuja maior fraqueza, ele mesmo confessa, é a curiosidade, mergulha nesses livros. Acaba fazendo uma experiência descrita em um dos volumes, que assegura ser um meio de comunicação com seres elementais. Após algum tempo, o jovem começa a observar reações extraordinárias, e acaba crendo ter evocado uma sílfide, com quem passa a conversar. Abandona tudo, inclusive a noiva, às vésperas do casamento, para se dedicar à sílfide, pequena criatura que habita um pequeno vaso d’água e que só ele consegue ver.

O conto prossegue sem deixar muito claro que se tratava de uma alucinação. O autor deixa uma pequena fresta para o fantástico. Bela narrativa, em mais um conto de um autor cujo nome não conhecia, mas que se mostrou deveras interessante.

Taman (1840) – Mikhail Liérmontov

Mais um autor que eu não conhecia (serão vários ao longo da antologia). Este é um conto interessantíssimo, repleto de figuras simbólicas, de segredos e de tensão crescente. Um oficial chega com seu auxiliar a Taman, “a cidadezinha mais horrível de todas as que beiram as costas dos mares da Rússia”. Ele se dirige ao front, e terá que esperar um navio. Procura alojamento na cidade e encontra apenas uma casa com fama ruim, como se algo de muito mau tivesse lá acontecido. Um menino cego o atende e esclarece que não há ninguém na casa naquele momento, que a dona saiu, mas que ele pode entrar. O oficial observa o menino cego de nascença e revela sem pudor seu preconceito contra todos os deficientes físicos, a quem faltaria um pedaço da alma. Naquela noite ele demora a pegar no sono. É surpreendido na madrugada com o barulho de passos indo em direção ao mar, sempre revolto. Resolve investigar e, à luz da lua, vê ao longe o menino cego andando em direção ao mar, pulando entre pedras perigosíssimas, naquele horário, até para quem tivesse as duas vistas. Ele continua a observá-lo e vê uma moça se aproximar e entabular uma estranha conversa com o “ceguinho”. Falam de alguém que demora a aparecer. Em pouco tempo, surge entre as ondas um pequeno barco, movendo-se ao sabor das ondas, driblando as poderosas rochas. Há uma troca de mercadorias e cada um volta para seu canto, inclusive o soldado, que não consegue mais pregar os olhos. No dia seguinte, tem contato com a moça da noite anterior. É a filha da dona da casa onde ele se hospeda. Não parecia ter mais que dezoito anos, mas algo nela, além da beleza, enfeitiça-o:

“Decididamente, nunca vira uma mulher como ela. Não era nenhuma beleza, mas também quanto à beleza tenho meus preconceitos. Ela tinha muita raça… e a raça nas mulheres é como nos cavalos, uma coisa muito importante; esta descoberta deve-se, primeiramente, à La Jeune France. Ela (a raça, não la Jeune France) vê-se no jeito de ela andar, nas suas mãos, em seus pés, no nariz, principalmente. Na Rússia, um nariz bem feito é mais raro do que um belo pezinho.”

O relacionamento que se desenvolve rapidamente entre os dois é tudo, menos previsível. É algo mais ou menos como o diálogo que se segue:

“Diga-me, beleza – disse eu – o que você estava fazendo no telhado hoje?

– Estava vendo de onde soprava o vento.

– E por que você queria sabê-lo?

– De onde sopra o vento, sopra a felicidade.

– Você cantava a sua canção para lhe dar sorte, então?

– Onde se canta, se é feliz.

– E se sua canção não lhe trouxer felicidade?

– E daí? Onde não for melhor, será pior; do bem ao mal, a distância é pouca.

– Mas quem lhe ensinou esta canção?

– Ninguém ensinou; fico imaginando e canto. Quem deve ouvir, ouve; quem não deve, não entende.

– E qual é seu nome, minha cantora?

– Quem me batizou, sabe.

– E quem a batizou?

– Como vou saber?”

Esse é um dos contos que constituem aquela gratíssima surpresa, no qual se reconhece talento, potência, habilidade… um tesouro que estava escondido e foi encontrado.

Liérmontov… Será que ele só teria escrito isso de tão extraordinário? Espero que não.

Polzunkov (1848) – Fiódor Dostoiévski

Um lado quase diferente de Dostoiévski, um dos escritores russos mais amados em todo o mundo. Como disse uma vez Nelson Rodrigues, se você tiver lido apenas Dostoiévski, sua vida literária terá valido a pena. É, como consta na introdução ao conto, o primeiro da série de “bufões-filósofos” dostoievskianos. Conta a história do personagem que dá título ao conto, uma espécie de palhaço consciente. Ele é um homem que vive de adulações, que encara a auto-humilhação como meio de vida, e tem um talento natural para se meter em situações constrangedoras e expor-se ao ridículo. Ele narra, neste conto, como não se casou. Em meio à risadaria geral, no meio de um jantar, ele conta como foi preterido no testamento de seu “quase pai”, enganado que foi por aquele que tinha tudo para ser seu parente. Como quase foi incluído na herança, como quase vê resolvidos seus problemas financeiros, como quase entra para a família através de um belo casamento e como pôs tudo a perder por causa de… por causa de uma tola brincadeira que ele mesmo fez num certo primeiro de abril.

É um lado quase diferente de Dostoiévski, como falei, porque há, à primeira vista, uma vertente cômica no conto, mas tão logo se vê a miséria do personagem principal, como ele é ridicularizado, como ele é ridículo… vem à mente O idiota, O sonho de um homem ridículo, meu conto favorito de todos os tempos.

A situação como um todo, como o pobre Polzunkov consegue meter os pés pelas mãos da maneira mais bisonha possível, não é motivo para riso, mas para aquele gosto amargo na boca, aquela sensação de desconforto que caracteriza a leitura de Dostoiévski.

Relíquia viva (1852) – Ivan Turguêniev

Este é um daqueles contos que têm o condão de me conquistar de imediato. “Sutil na arte e forte na perspectiva moral”, como consta na introdução, é um dos marcos literários da década de 1850 na Rússia. Um caçador perde seu dia de caçada por conta da forte chuva. Resolve passar a noite numa propriedade de sua mãe, onde passou sua infância, para no dia seguinte ir caçar em outra área. Vasculhando a propriedade, encontra uma figura deprimente, que o chama pelo nome:

“Aproximei-me – e fiquei petrificado de assombro. Diante de mim estava deitado um ser humano vivo, mas o que era aquilo?

A cabeça estava completamente murcha, inteira cor de bronze – era, sem tirar nem por, um quadro de um ícone antigo; o nariz era estreito como a lâmina de uma faca; os lábios estavam quase invisíveis – apenas dentes e olhos reluziam brancos, e, debaixo do lenço, mechas ralas de cabelo amarelo escapavam para a testa. Ao lado do queixo, na dobra da manta, como palitinhos, moviam-se lentamente os dedos de duas mãos minúsculas, também cor de bronze.”

Após breves explicações, ele descobre que aquela é Lukéria, que na sua infância era “a mulher mais bonita de toda a nossa criadagem, alta, roliça, branca, corada, risonha, bailadeira e cantadeira! Lukéria, aquela moça sabida, cortejada por todos os nossos jovens e por quem eu próprio suspirava em segredo, eu – um menino de dezesseis anos”.

Ambos conversam e Lukéria conta como foi o acidente que disparou esta doença secreta, que a faz murchar, definhar, a ponto de nem poder se locomover. Ele quer ajudá-la, mas ela parece mais do que resignada àquele estranho destino. Conta como valoriza as pequenas coisas: o barulho do vento nas folhas das árvores, o canto de um certo pássaro, uma vez que um coelho entrou no seu quarto… Ela tem apenas vinte e oito anos, mas aspecto de uma múmia. Traz, dentro de si, todavia, a vitalidade de uma jovem feliz. O jovem sai dali impressionado com o encontro. Sente ter conversado com uma santa, um ser que ultrapassou todas as barreiras da dor e do sofrimento – daí o nome do conto, relíquia viva, expressão com dois significados: pessoa extremamente magra ou restos mortais de um santo.

Este é o conto. Não há exatamente uma narrativa. Há apenas o encontro entre os dois e a conversa que entabulam. Mas Turguêniev mostra-se mestre na discrição, na técnica narrativa apurada, na economia das palavras. Conto fabuloso!

Quatro dias (1877) – Vsiévolod Gárchin

Este conto parece pertencer a outra época, e esta opinião também está presente na introdução à história. “Quatro dias” seria uma das experiências literárias mais marcantes da Rússia do século XIX, tendo, inclusive, antecipado procedimentos da arte do século XX, como o fluxo de consciência.

Um soldado ferido em batalha, ao que parece, com suas duas pernas quebradas, aguarda a morte. Ao seu lado, o corpo de um soldado morto. Um inimigo que ele mesmo matou. Enquanto acompanha a decomposição do morto ao seu lado, o soldado tem tempo para pensar na dor, no sofrimento, num cachorrinho, na sua mãe, no amor que deixou para trás.

Mais do que o conto mais interessante dentre esses oito que li até agora, Quatro Dias tornou-se um dos meus contos favoritos de sempre. É impossível não imaginar que este não seja um relato fiel de um soldado que realmente foi ferido em batalha e passou por todos aqueles dias de sofrimento. A sede, a fome, o odor insuportável do inimigo que apodrece ao seu lado, a agonia, a confusão mental, a vontade de desistir confrontando a vontade de reencontrar sua mãe… O conto é angustiante, uma grande e indispensável leitura.

“Eu jamais me encontrara numa situação tão estranha. Estava deitado, parece que de bruços, e via diante de mim apenas um pequeno pedaço de terra. Umas ervinhas, uma formiga deslizando de uma delas, alguns ciscos de mato do ano passado – aí estava todo o meu mundo. E eu o via com apenas um olho, porque o outro estava tapado com alguma coisa dura, talvez o ramo no qual minha cabeça estava apoiada. Sentia um desconforto terrível; eu queria, mas definitivamente não entendia por que não conseguia me mexer. E assim passava o tempo.”

“Neste dia meu vizinho ficou mais terrível do que qualquer descrição. Uma vez, quando abri os olhos para vê-lo, fiquei horrorizado. Ele já não tinha rosto. Havaí escorregado dos ossos. Um sorriso medonho e caveiroso, um sorriso eterno me apareceu tão nojento, tão horrível como nunca, embora mais de uma vez me acontecera de segurar crânios nas mãos e dissecar cabeças inteiras. Aquele esqueleto de farda com botões brilhantes me fez tremer. ‘É a guerra – pensei eu -, aí está a sua imagem.’”

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13 Respostas para “Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998) – Organização de Bruno Barreto Gomide – Parte I

    • Oi, Clara. De Turguêniev, só o conto Relíquia Viva mesmo. Cada autor só contribuiu com um conto para a antologia. Obrigado pela visita ao nosso blog. Volte sempre.

    • Oi, Rafael. Li pouca coisa de Bukowski, mas foi bemmmmm antes do início do blog. Quando eu o reler sem dúvida colocarei por aqui. Obrigado pela visita e volte sempre ao blog.

  1. Texto de fôlego… Como é sabido de todos, estou sem ser ler nada a algum tempo. Concurso público, a minha única meta, por enquanto. Assim que voltar às leituras, irei reler (será a 4ª vez) Crime e Castigo, o maior dentre os livros. Como também pretendo reler Uma criatura dócil, o mais impressionante e angustiante conto de mesmo autor. Sobre os contos ora apresentados, ficarei, à primeira vista, com o último.

  2. Estou querendo esse livro há um tempão! Depois da Cosac e da Companhia das Letras, a 34 é minha editora preferida!

    Nunca li nada do Mikhail Liérmontov, fiquei interessada pelo conto dele, vou procurar quando tiver tempo, pois assim como o Reinaldo estou na fase “Concurso Público”, quase decorando as malditas LDB e Constituição Brasileira! ^^

    • Essa fase dos concursos é egoísta mesmo, pede todo o nosso tempo disponível, até mesmo o tempo sagrado que seria para os livros. Recomendo vivamente essa antologia. Muitos “novos” autores, todos muito bons.

      Volte sempre ao blog, sempre temos novidades.

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