A Vida de Pi – Yann Martel

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O livro do ano para mim foi Beatriz e Virgílio, de Yann Martel. Quando vi que A vida de Pi estava chegando aos cinemas (já agora, no início de dezembro), apressei-me para ler o livro antes de conferir a película. Estava, naturalmente, com o gosto de Beatriz e Virgílio na boca, e apesar de o estilo de Yann Martel ser identificável (um ponto claro em comum nos dois livros é a presença do personagem escritor, que parece não fazer nada além de esbarrar com as histórias que ele acaba contando meio que por obrigação), o clima é bem diferente.

A Vida de Pi realmente parece ter por objetivo fazer você acreditar em Deus. Quase metade do livro mostra a vida de Pi fora do mar, ainda no zoológico, buscando sua fé, e aí está uma diferença considerável em relação ao filme. Pi é um menino/adolescente que cresce com uma grande sede de Deus. Em meio à pluralidade religiosa que experimenta na Índia, Pi não é um colecionador de religiões. Ele busca Deus com o coração sincero. Esse pano de fundo é fundamental para compreendermos a maneira como Pi encara a tragédia e os 227 dias no mar.

Lá, no barco salva-vidas, sentimos realmente o tempo passar. A história não é contada de maneira cronológica, já que Pi perde a noção do tempo (nada de marcar o passar dos dias no barco, como mostrado no filme). Os 227 dias demoram a passar. Quando pensamos que já está chegando ao final da jornada, uma memória que parece ser dos primeiros dois, três meses como náufrago vem à tona e sentimos o peso de estar à deriva no mar, ao lado de um tigre.

O “relacionamento” com o Richard Parker é construído, e apesar de a situação beirar o inacreditável, o escritor se esforça ao máximo para não cruzar alguns limites e deixar-nos sempre na dúvida: isso seria realmente possível?

Assim, nada de Richard Parker repousar sua enorme cabeça de tigre no colo magro de Pi.

A jornada não é idílica como algumas cenas do filme deixam transparecer. Apesar de Pi ter visto maravilhas, o livro é sobre como um homem com muita vontade de sobreviver usou a razão para planejar sua sobrevivência num ambiente totalmente inóspito. Acompanhamos o dia-a-dia de Pi e vemos sua preocupação em checar duas vezes por dia, pelo menos, os nós que prendem a sua jangada improvisada ao barco. Vemos o cuidado que ele tem com as provisões. O desespero nos dias de maior fome, levando a comer coisas impensáveis, logo ele, um vegetariano convicto.

E se a figura de um milhão de suricatos levantando-se e abaixando-se em sincronia é incrível, ao menos o autor (ou Pi, que conta a história) descreve a ilha com um cientificismo fascinante, levantando hipóteses palpáveis para o canibalismo das algas e para o excessivo número de suricatos.

Ao final do livro, o golpe de mestre é a segunda história narrada por Pi para os emissários japoneses. E então, qual a versão verdadeira? Não importa realmente, diz Pi, se o resultado acabou sendo o mesmo: ele sofreu, sua família morreu, o navio afundou. Assim é com Deus, arremata ele, misteriosamente.

A vida de Pi consegue lidar com espiritualidade sem ser piegas nem fazer proselitismo. Ao mesmo tempo, conta a história de dois sobreviventes improváveis: Richard Parker e o jovem Piscine Molitor Patel.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

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5 Respostas para “A Vida de Pi – Yann Martel

  1. Pingback: Minhas leituras em 2012 « Catálise Crítica

  2. Sou religioso e vegetariano, além de amante de narrativas que ponham em questão uma narrativa teleológica tradicional…

    Sem ter lido o livro, amei o filme (até mesmo nos defeitos que me obrigam a conferir o livro o quanto antes), de modo que, pelo Deus em que eu, tu e o Piscine acreditamos, empreste-me logo este livro (risos)

    De resto, contente com a belíssima resenha! (WPC>)

    • O livro está à disposição. Ang Lee teve uma preocupação legítima em realizar uma obra predominantemente visual. Passar o sofrimento, as privações enfrentadas por Pi, a sensação de falta de teto, de rumo, de sentido acabou não ficando clara. Outra coisa que não aparece no filme é, como falei no texto, o uso da razão por parte de Pi. Ele não é apenas um sortudo ou um abençoado ou qualquer outra coisa. Ele quis sobreviver e pensou muito como conseguir isso.
      Não vou mais comentar, para não estragar a sua experiência com a obra. E se quiser, já entrego junto Beatrice and Virgil, o meu livro do ano.

  3. Realmente o filme deixou escapar alguns detalhes, o que mais me fez ficar frustrado foi que não apareceu a parte em que ele ficou cego e o encontro com o outro naufrago…
    Enfim, foi “o livro do ano” para mim, acho que ninguém mais me suportava falar do livro e de me segurar par não contar o final… (rsrsrs) Meu primeiro pensamento ao começar a ler a terceira parte do livro foi: “mentira, uma coisa dessa…” fechei o livro, depois de uns cinco segundos retomei a leitura.

    • A exclusão da cegueira dele foi realmente imperdoável, Itallo, assim como o encontro surreal com o outro náufrago. Apesar de espetacular, o livro do ano para mim não foi esse, mas Beatriz e Virgílio. Se você gostou de A Vida de PI, recomendo vivamente este outro livro de Yann Martel. Obrigado pela visita e volte sempre ao blog.

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