Resenha – A Ceia dos Acusados – Dashiell Hammett

ceia

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Dashiell Hammett é um dos modeladores do estilo noir, das histórias dos “hard-boiled detectives”, aqueles sujeitos durões cujo maior e mais famoso representante é Sam Spade, personagem principal de O Falcão Maltês, cuja versão cinematográfica de 1941 traz o grande Humphrey Bogart numa interpretação absolutamente perfeita.

Estava a trabalho em João Pessoa e aproveitei um intervalo para passar num pequeno sebo. Vasculhando as estantes, uma das atividades que mais gosto de fazer, encontrei este livrinho do autor americano. Nunca havia ouvido falar, mas o nome de Hammett foi suficiente, e não hesitei em comprar.

Publicado em 1934, A Ceia dos Acusados conta a história de Nick Charles, um ex-detetive que se aposentou após sua esposa, Nora, receber uma bela herança. A rotina de Nick é, basicamente, beber da hora em que acorda – dez, onze da manhã, meio-dia – até a hora em que vai dormir – quatro, cinco, seis da manhã. Nick vive provisoriamente em um hotel de Nova York, em pleno período em que havia a proibição da venda de bebidas alcoólicas. Hammett mostra que isso não era obstáculo para ninguém, já que em quase toda cena do livro há alguém consumindo um copo de uísque. O ex-detetive e sua esposa vivem de festa em festa, seja recebendo convidados indesejados em seu apartamento, seja como convidados indesejados na casa de falsos amigos, ou rodando pelos clubes noturnos de Nova York.

A trama gira em torno do assassinato da assistente (e ex-amante) de Clyde Wynant, um inventor excêntrico e meio louco (duplo pleonasmo!) cuja localização ninguém sabe ao certo. Ele acaba sendo apontado como principal suspeito do crime e tenta a todo custo convencer Nick a investigar o caso para provar a sua inocência. Enquanto isso, entram em cena Mimi Wynant Jorgenson, a ex-esposa de Clyde e seus dois filhos, Gilbert e Dorothy, com dezoito e vinte anos, respectivamente.

A loucura parece ser característica marcante dos Wynant, já que além do patriarca, cuja fama de insano é largamente divulgada, Mimi é dada a ataques histéricos, Gilbert tem uma mania obsessiva de analisar os outros, vivendo atrás das portas a escutar segredos, e Dorothy é bastante desequilibrada emocionalmente, uma quase criança apesar de sua idade.

O livro tem um clima “etílico”, se é que assim posso descrever. Tive a nítida impressão de que Dashiell Hammett escreveu essa história também ele de porre o tempo todo. Toda a trama é regada a uísque, como falei, mas é também recheada de momentos surreais. A ação se desenrola com base em cenários, como se tivesse sido escrita para o teatro. Assim, há cenas longas em que todos estão reunidos na casa de Mimi, incluindo a polícia, o advogado de Clyde, Nick, Nora. Em um momento, Mimi parece disposta a matar Nick. Pouco tempo depois ela convida-o para ir à casa dele, o que ele decide fazer lá pelas duas da madrugada. Uma hora, Nick ajuda a polícia na investigação, para no momento seguinte, ser tratado como suspeito.

Há um humor estranho que rege toda a narrativa. Como falei, um humor ébrio, que na minha opinião não foi efetivo. Agradou-me bem mais o clima mais sério de O Falcão Maltês, por exemplo, ou de alguns contos que li do próprio Hammett.

A história vai se desenrolando de maneira clássica, com bastante esperteza por parte de Nick Charles e algumas reviravoltas. No final, a também clássica explicação, em que tudo se encaixa.

Se Nick Charles não é tão durão e infalível como Sam Spade, também tem seu charme. Algo que me chamou a atenção nele é a sua capacidade de não se comprometer verbalmente. É um sujeito extremamente arredio, de quem jamais se deve esperar respostas fáceis, como se pode ver do diálogo a seguir, entre Nick e um policial:

– Esse gajo é seu amigo?

– Nunca o vi em minha vida.

– E o que veio fazer aqui?

– Dizer-me que não havia assassinado Julia Wolf.

– E o que o senhor tem com isso?

– Nada.

– E que julgava ele que isso tinha com o senhor?

– Pergunte a ele.

– Estou perguntando ao senhor.

– Pois continue a perguntar.

– Outra questão: vai dar queixa contra ele?

– É outra pergunta que no momento não posso responder. Talvez fosse um acidente.

(…)

– Tem licença para porte de arma?

– Não – respondi.

– Nesse caso, que está fazendo isto aqui? – e exibiu o revólver que eu tomara de Dorothy.

Nada pude responder.

– Não conhece a Lei Sullivan sobre a proibição de porte de armas? – insistiu ele.

– Sim.

– Então sabe em que embrulhada se meteu. É o dono desta arma?

– Não.

– A quem pertence?

– Não lembro.

 

Se A Ceia dos Acusados não se revelou um livro memorável (e eu meio que já esperava isso, já que não sou exatamente um fã de livros de detetive), está longe de ser uma leitura ruim. Para quem curte o gênero, é um prato cheio.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5

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2 Respostas para “Resenha – A Ceia dos Acusados – Dashiell Hammett

  1. Comecei por A mulher do bandido, que é um volume de ótimos contos, ou por O falcão maltês, que é fabuloso e sei que você vai gostar bastante.

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