Resenha – Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley

Admiravel-mundo-novo

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Admirável Mundo Novo foi um dos primeiros livros que comprei. Não lembro exatamente quando, mas creio que foi mais ou menos quando entrei na faculdade, na minha primeira redescoberta da leitura.

Quando eu era criança, lia tudo que estava à minha frente. Mas havia muito pouco à minha frente. Meu pé de laranja lima, acho que o único item da limitada biblioteca da minha casa, e um ou outro livro que eu conseguia encontrar na escola ou com alguma professora. Destaque absoluto nesta época para a série Vaga-Lume, da Editora Ática.

Quando entrei no ensino médio, a empolgação da adolescência me afastou um pouco dos livros. Três anos depois, quando entrei na UFS e tive acesso à BICEN, próxima ao RESUN (acho impressionante e hilária essa mania de siglas que dominam os órgãos públicos), tive a sensação nítida de estar em casa, finalmente. Naquele primeiro eu não podia tirar a carteirinha da biblioteca porque não tinha ainda o meu CPF. Se eu não estiver enganado, naquela época só se poderia tirar o CPF com dezoito anos, e eu ainda tinha dezesseis, para a minha angústia. Passei todo o primeiro ano e metade do segundo pegando livros com a carteirinha um colega. Em 1997, ano em que entrei na UFS, li, se não estiver enganado, 57 livros. É um número que não sei como ficou na minha memória, não tenho qualquer garantia de que tenha sido menos ou mais, mas se fosse para arriscar, eu diria que superou os sessenta livros. Eu destinava uns cinco por cento do meu tempo para as matérias do curso de Ciências Contábeis. Todo o resto – na época eu não trabalhava – era dedicado à leitura. Foi nessa época que conheci Dostoievski (comecei por O Idiota, se não estiver enganado), Knut Hamsun, Albet Camus, Herman Hesse e tantos, tantos, tantos outros escritores, incluindo Aldous Huxley.

Não lembro mesmo o que me levou a comprar Admirável Mundo Novo quando havia tantos livros ainda não lidos na UFS. Imagino que foi mais ou menos quando li 1984, de George Orwell, o que me despertou o interesse por distopias. Fato é que fazia uns quinze anos desde a primeira vez que li o clássico de Huxley, e pouco me lembrava do enredo, além do fato de que havia alfas, betas, gamas etc., todos condicionados nos mínimos detalhes para aceitarem com prazer sua situação.

Finda esta digressão chego finalmente ao livro, começando por esclarecer que se trata de um clássico da literatura mundial, algo um tanto quanto óbvio. O que faz dele um clássico? Ele não envelhece. Ele se tornou referência quando o assunto é distopia, e diversas de suas facetas foram, são e serão imitadas, copiadas, homenageadas.

Huxley conta a história de um mundo em que a ordem social é o que existe de mais importante. Num futuro bem distante, Henry Ford, que inventou a linha de montagem, é reconhecido como o novo deus, a referência para tudo. E as pessoas são criadas em linhas de montagem. O mundo inteiro funciona como uma máquina. Ninguém tem importância individualmente, mas todos são criados para desempenhar um papel específico dentro da ordem social e condicionados para fazê-lo da melhor maneira e, ainda, serem plenamente felizes onde estão. Assim, há classes de indivíduos de acordo com as funções que cada um deve exercer. Para os cargos mais altos – pesquisa, chefia, coordenação, administração – há os Alfa, que se dividem ainda em Alfa + e Alfa -. Um pouco abaixo deles estão os Beta, que ainda desfrutam de certo nível de respeito junto aos Alfas. Depois vêm os Gama, os Delta e os Ípsilon, estes com capacidade apenas para carregar caixas ou apertar botões de elevador, nada além disso.

Para que isso funcione, há basicamente duas grandes e complexas etapas: o pré-condicionamento biológico e o condicionamento psicológico. Na primeira etapa, cada classe é alimentada, tratada, vitaminada etc., para ser mais ou menos capaz. Assim, na nutrição dos Ípsilon falta praticamente tudo, com o objetivo de que eles cresçam menos, tenham a sua inteligência subdesenvolvida, fiquem feios etc. Os Alfa, pelo contrário, são todos belos, altos, fortes, inteligentes e entre as duas classes, há cuidados especiais para que cada um se desenvolva de acordo com as funções que exercerá.

A segunda etapa, o condicionamento psicológico, dura anos, e envolve uma série quase interminável de repetições que vão desde o básico – se eu sou Gama, vou ouvir milhares de vezes que os Alfa são maravilhosos, mas não quero assumir a responsabilidade que eles assumem, já que sou feliz fazendo o que um Gama faz, um trabalho digno, porém mais simples; vou ouvir também que o Cáqui, cor usada pelos Delta é horrível, e ainda mais insuportável é o preto dos Ípsilon e assim por diante.

A religião foi abolida, mas há alguns ritos sensoriais criados para substituírem esses vazios. A moral sexual não existe. Sendo mais preciso, ela foi invertida. É uma imoralidade amar alguém ou se relacionar apenas com um parceiro. As pessoas se “experimentam” indiscriminadamente e estão satisfeitíssimas em serem tratados como objetos (uma das coisas que as mulheres mais gostam de ouvir é que são “pneumáticas”). Nada muito diferente de hoje, não é mesmo?

Mas a maior imoralidade, que faz corar até os mais seguros Alfa +, é uma palavrinha de três letras: MÃE. Todos são gerados em incubadoras e a simples ideia de uma mulher carregando seu filho durante nove meses é constrangedora, quanto mais a falta de higiene inerente aos processos de parto e amamentação, a necessidade de carinho, dependência emocional e todas essas aberrações  que existem na relação entre mãe e filho.

É nesse mundo – que vai muito, muito bem, obrigado – que vive Bernard Marx, um Alfa que, dizem, teve um pequeno problema no pré-condicionamento biológico, porque, apesar da extrema inteligência, é pequeno para um Alfa, igualando-se, talvez, em altura, a um Gama. Ele sofre terrivelmente com isso, apesar de esconder bem seus complexos tentando manifestar um ar de superioridade. Ele está interessado em Lenina Crowne, uma Beta + extremamente pneumática típica de seu tempo. Eles visitam uma reserva onde os habitantes vivem como “antigamente”, preservando alguns ritos religiosos, parindo seus filhos, amamentando-os etc. Lá Bernard encontra uma mulher, Linda, que é oriunda da civilização. Ela foi “esquecida” há bastante tempo na reserva, grávida. John, seu filho, vive o dilema de amar o lugar onde está, mas ser sempre um estrangeiro, um rejeitado. Quase toda a sua formação ética e moral advém da leitura incessante de um volume com as obras completas de Shakespeare, que ele cita como se fosse a Bíblia.

O centro da trama é o interesse de Bernard em se destacar entre seus pares, decidindo levar Linda e, principalmente o seu filho, o “Sr. Selvagem” para a civilização, com a desculpa de realizar um experimento científico.

Huxley não tem pressa em narrar os acontecimentos. Sua preocupação “didática” é evidente em alguns pontos, como no trecho a seguir, em que um diretor Alfa + explica como criar em crianças inferiores o absoluto terror pelos livros e pelas flores:

– Coloquem os livros – disse ele, secamente.
Em silêncio, elas obedeceram à ordem. Entre os vasos de todas, os livros foram devidamente dispostos – uma fileira de livros infantis pequenos, cada um aberto, de modo convidativo, em alguma gravura agradavelmente colorida, de animal, peixe ou pássaro.
– Agora, tragam as crianças.
Elas saíram apressadamente da sala e voltaram ao cabo de um ou dois minutos, cada qual empurrando uma espécie de carrinho, onde, nas suas quatro prateleiras de tela metálica, vinham bebês de oito meses, todos exatamente iguais (um Grupo Bokanovsky, evidentemente) e todos (já que pertenciam à casta Delta) vestidos de cáqui.
– Ponham as crianças no chão.
Os bebês foram descarregados.
– Agora, virem-nas de modo que possam ver as flores e os livros.
Virados, os bebês calaram-se imediatamente, depois começaram a engatinhar na direção daquelas massas de cores brilhantes, daquelas formas tão alegres e tão vivas nas páginas brancas. Enquanto se aproximavam, o sol ressurgiu de um eclipse momentâneo atrás de uma nuvem. As rosas fulgiram como sob o efeito de uma súbita paixão interna; uma energia nova e profunda pareceu espalhar-se sobre as páginas reluzentes dos livros. Das filas de bebês que se arrastavam engatinhando, elevaram-gse gritinhos de excitação, murmúrios e gorgolejos de prazer.
O Diretor esfregou as mãos.
– Excelente! – comentou – Até parece que foi feito sob encomenda.
Os mais rápidos engatinhadores já haviam alcançado o alvo. Pequeninas mãos se estenderam incertas, tocaram, pegaram, despetalando as rosas transfiguradas, amarrotando as páginas iluminadas dos livros. O Diretor esperou que todos estivessem alegremente entretidos. Depois disse:
– Observem bem. – E , levantando a mão, deu o sinal.
A Enfermeira-Chefe, que se encontrava junto a um quadro de ligações na outra extremidade da sala, baixou uma pequena alavanca.
Houve uma explosão violenta. Aguda, cada vez mais aguda, uma sirene apitou. Campainhas de alarme tilintaram, enlouquecedoras.
As crianças sobressaltaram-se, berraram, suas fisionomias estavam contorcidas pelo terror.
– E agora – gritou o D. I. C. (pois o barulho era ensurdecedor), agora vamos gravar mais profundamente a lição por meio de um ligeiro choque elétrico.
Agitou de novo a mão, e a Enfermeira-Chefe baixou uma segunda alavanca. Os gritos das crianças mudaram subitamente de tom. Havia algo de desesperado, de quase demente, nos urros agudos e espasmódicos que elas então soltaram. Seus pequenos corpos contraíam-se e retesavam-se; seus membros agitavam-se em movimentos convulsivos, como se puxados por fios invisíveis.
– Nós podemos eletrificar todo aquele lado do assoalho – berrou o Diretor para explicar-se. – Mas isso basta – continuou, fazendo um sinal à enfermeira.
As explosões cessaram, as campainhas pararam de soar, o bramido da sirene foi baixando de tom em tom até silenciar. Os corpos rigidamente contraídos distenderam-se; o que antes fora o soluço e o ganido de pequenos candidatos à loucura expandiu-se novamente no berreiro normal do terror comum.
– Ofereçam-lhes de novo as flores e os livros.
As enfermeiras obedeceram; mas, à aproximação das rosas, à simples visão das imagens alegremente coloridas do gatinho, do galo que faz cocoricó e do carneiro que faz bé, bé, as crianças recuaram horrorizadas; seus berros recrudesceram subitamente.
– Observem – disse o Diretor, triunfante. – Observem.

Os livros e o barulho intenso, as flores e os choques elétricos – na mente infantil essas parelhas já estavam ligadas de forma comprometedora; e, ao cabo de duzentas repetições da mesma lição, ou de outra parecida, estariam casadas indissoluvelmente. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.
– Eles crescerão com o que os psicólogos chamavam de um ódio “instintivo” aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica por toda a vida. – O Diretor voltou-se para as enfermeiras. – Podem levá-las.

Os personagens do livro são bastante críveis, complexos, e é fácil ser capturado pela leitura, sentir-se parte daquele universo absurdo. A narração de Huxley é de mestre. Ele sabe como trabalhar a ironia e o humor com finesse absoluta, como se estivesse tratando do assunto mais sério possível, até mesmo quando descreve os curiosos rituais da Cerimônia da Solidariedade e seus incessantes gritos de “Orgião Espadão!”.

Admirável Mundo Novo é livro para ser relido. Leva a pensar além do contexto em que Huxley se encontrava em 1932, quando a obra foi publicada. Mais do que um exemplar de “literatura política”, é um sublime exemplar de ótima literatura, e como tal, vale sempre ler, qualquer que seja a sua motivação.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

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