Resenha – 72 Horas para Morrer – Ricardo Ragazzo

72 horas - Capa

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Já escrevi diversas vezes que estou sempre disposto a conhecer autores brasileiros contemporãneos. Os textos aqui no blog sobre obras de Antonio Xerxenesky, Marcelo Mirisola, Mário Ribeiro da Cruz, Milton Hatoum, Marçal Aquino, Rafael Sperling, Cristóvão Tezza (aqui e aqui), João Paulo Cuenca, Francisco J. C. Dantas (aqui e aqui), Rubens Figueiredo, além de outros autores como Sérgio Rodrigues, Patrícia Melo e Ronaldo Correia de Brito, sobre quem acabei não escrevendo, testemunham em favor disso.

Foi por esse motivo que comprei o livro 72 horas para morrer, de Ricardo Ragazzo. Não sei como, mas acabei seguindo as atualizações do autor no Facebook. Ele está sempre se utilizando de diversos artifícios para promover este que é seu primeiro livro publicado. Apesar de a sinopse não me agradar muito – não sou um fã em particular de histórias de mistério, investigação ou suspense – resolvi comprar o livro, diretamente das mãos do autor. Esperava uma obra comercial, uma história de serial killer clássica, com o objetivo – não condenável – de vender e tornar seu autor conhecido, firmando a sua carreira literária.

Uma das estratégias utilizadas pelo autor para promover 72 horas para morrer é a divulgação de depoimentos de leitores seus. Claro que eu não deveria me fiar somente nessas opiniões, já que autor nenhum divulgaria depoimentos negativos. Mas alguns dos textos me fizeram criar algumas expectativas positivas, como os destacados a seguir:

“O seu livro é algo como um entorpecente,ele
te vicia,te provoca,você sente ódio,compaixão e depois culpa.”

“Menino do céu, que mente louca é essa tu tens? Terminei teu livro. Curti muuuuito o desenrolar da história e o final me surpreendeu.”

72 horas para morrer conta (mais ou menos como está na quarta capa) a história de Julio Fontana, delegado da pacata cidade de Novo Salto, que tem a vida transformada em um inferno a partir do momento em que alguém começa a executar uma fria e sórdida vingança contra ele. Tudo começa com o assassinato de sua namorada, e agora o delegado terá que descobrir a identidade do responsável por esses crimes bárbaros, antes que sua única filha se torne o próximo nome riscado da lista.

“72 horas para morrer é uma corrida frenética contra o tempo, que irá prender o leitor do início ao fim”.

O livro chegou logo pelo correio, bem antes do que eu havia pensado. Infelizmente, esta é o único ponto positivo que tenho a dizer acerca de 72 horas para morrer.

Ao ler as primeiras linhas, percebi que algo não ia bem:

Assim que acordou, Agatha foi tomada pelo desespero. Não era sempre que alguém abria os olhos e percebia-se amarrado a uma cadeira e com a boca tapada por uma fita adesiva.

Lembrei-me, imediatamente, do fraco O Vendedor de Armas, de Dr. House, digo, Hugh Laurie, que parece mesmo ter sido escrito com o humor ácido característico de House, porém em doses cavalares, insuportáveis. Só que à medida que você avança em 72 horas para morrer, vê que o clima restante é bem diferente da observação irônica que abre o livro. Esse desequilíbrio narrativo já me incomodou, mas se fosse só isso, não seria nada de mais. Há diversos problemas no livro. A narrativa é um amontoado de clichês, sobre os quais falarei ao final do texto.

Os personagens… É… Desculpem-me o momento nerd, mas os personagens lembraram-me do tempo em que eu mestrava RPG de super-heróis para um grupo de amigos dentre os quais tinha um advogado e uns três com coração de advogado. Eles faziam as fichas de personagens e escolhiam desvantagens diversas para aumentar os pontos de personagens disponíveis. O personagem ficava, por exemplo, com as desvantagens Introspectivo e Preguiça. Na hora da interação social, quando lhe convinha, entretanto, o jogador, que era expansivo, carismático e comunicativo, ignorava completamente as características do personagem, para “lembrar” delas quando lhe fosse vantajoso. Em nenhum momento, portanto, aqueles personagens ganhavam vida. Eles não eram autênticos, e sim personagens de videogame ou apenas fichas de papel preenchidas com nomes e números.

Assim são os personagens em 72 horas para morrer. Júlio Fontana, o personagem principal e, consequentemente, o mais desenvolvido, é um homem que traz no coração a culpa pelo acidente que provocou a morte de sua esposa anos antes. Ele tem um senso de justiça bem definido (ou melhor, diz ter, mas esquece disso o tempo todo) e é esquentado pra burro, perdendo as estribeiras com a maior facilidade. Ele passou sete anos sem falar com um amigo jornalista que traiu a sua confiança. Reencontra esse amigo e desconfia que ele está novamente interessado em se promover em cima do seu drama pessoal. Bastam cinco minutos para se convencer do contrário. Depois desconfia de novo. Depois deixa de desconfiar. Outro exemplo: Júlio passou os últimos trinta anos de sua vida odiando outro ex-amigo com todas as suas forças. Depois de enfrentarem algumas situações, a desconfiança vai dando lugar a uma quase ternura, a ponto de Júlio praticamente aceitá-lo como parte da família. O problema aí não é exatamente a mudança – as pessoas mudam – mas é a forma como essa mudança se processa. As situações não são convincentes, as motivações não são fortes.

Laura, a filha de Júlio Fontana então… Essa não existe. Se eu estivesse vendo um filme no qual a “mocinha” se comportasse como Laura, eu mudaria de canal imediatamente. Não tenho certeza se levantaria da cadeira do cinema e sairia, já que o ingresso é caro…

É praticamente impossível descrever um só aspecto da personalidade de Laura. Melhor dizendo, é possível sim: ela é bipolar.

Em um momento, é até doce com o pai, fazendo um charminho, preparando café da manhã para agradá-lo como agradecimento por uns ingressos para ver um rodeio. Depois, odeia-o e despreza-o, deixando claro como perdeu o respeito por ele. Em seguida, volta a manifestar o contrário, para poucas páginas depois mudar novamente e novamente e novamente.

Ela se apaixona por um sujeito improvável e parece fazer questão de se mostrar estúpida, não entendendo quando corre e quando não corre perigo. Mas aí vem o final do livro, quando ela toma uma atitude que não cabia, não seria possível em seu universo, ao menos no universo explicitado nesse livro.

O tempo inteiro eu tinha a impressão de estar assistindo a algum daqueles filmes genéricos de serial killer que parecem ser sempre protagonizados por Ashley Judd e Samuel L. Jackson. Sabem aqueles filmes que você nunca consegue distinguir um do outro e fica sempre pensando “Aquela cena era de Tempo de Matar ou de O Colecionador de Ossos ou de A Marca?”

Entro então no enredo. Quando se fala em histórias de serial killer, é impossível não pensar em Seven, de David Fincher. Como de costume, você espera pessoas mortas e o serial killer sempre um passo à frente da polícia. No caso deste filme em particular, o toque de mestre acontece quando o assassino provoca um verdadeiro envolvimento emocional dos policiais com um caso, num dos mais eletrizantes finais de filme de que consigo me lembrar.

72 horas para morrer conta uma história que se passa em três dias, como fica fácil perceber. Em três dias, a vida de Júlio Fontana vai mudar e ele vai começar a perder pessoas queridas. A namorada morre, e ele começa a investigar. Busca pistas aqui, acolá, encontra um pequeno indício que se revela uma boa ajuda. Novos personagens vão entrando na trama, e até parece que no final das contas, ao menos a narrativa, apesar de óbvia, vai se sustentar.

Aí entra a parte final da trama, quando se espera que aconteça alguma reviravolta. E ela acontece em 72 horas para morrer. Mas a impressão que dá é que o autor se esforçou tanto em surpreender que perdeu o fio da meada. A história torna-se um legítimo samba do crioulo doido. Situações forçadíssimas aparecem e as pontas não fecham. O relacionamento entre os envolvidos na vingança não é convincente (acho que já é a segunda vez que uso esta palavra no texto, sinal de que a trama custa a convencer). Há alguns furos no roteiro, se posso chamar assim, escandalosos. Um deles diz respeito a uma memória caríssima ao delegado Júlio Fontana, do tempo em que era criança, quando ele e seus amigos fizeram uma travessura. Anos depois ele vê uma figura que evoca diretamente a situação outrora vivida e não consegue associar uma coisa à outra.

Outro exemplo de fragilidade diz respeito às mortes, todas com requintes de crueldade e no melhor estilo Seven ou Jogos Mortas: exigindo extrema perícia e uma série de equipamentos. Há uma morte em que todos os órgãos do corpo são extraídos; outra envolve uma crucifixão no quintal do delegado (!), e uma que envolve, vejam só!, colocar o corpo de uma criança dentro do corpo da mãe e ambos dentro de um armário dentro da cozinha dentro da casa onde dormem umas quatro ou cinco pessoas sem que nenhuma dessas pessoas perceba!

Como foi possível essa crucifixão e esse corpo no armário eu não consigo visualizar na prática. Seria necessária uma equipe de especialistas para providenciar toda essa estrutura… Bem, acho que estou pedindo demais.

72 horas para morrer foi uma leitura frustrante para mim sob todos os aspectos. Narrativa fragilíssima, enredo ruim, personagens rasos e inverossímeis. Às vezes acontece de a gente errar na escolha. Encaro terminar o livro como parte do processo, por isso fui até o final.

Infelizmente, não recomendo este primeiro livro de Ricardo Ragazzo. Há, contudo, muita gente que gosta, assim como há quem goste dos filmes de serial killer de Ashley Judd.

Para terminar, volto, como prometido, aos clichês. Não li com o espírito destrutivo, crítico. Li para me divertir, por isso comprei o livro. Mas ao avançar nas páginas, fui vendo se repetirem clichês que tornam a leitura um suplício. Não me dei ao trabalho de catalogar tudo, mas anotei alguns que não puderam escapar à vista. O que está entre aspas é a citação literal (ou tão literal quanto minha memória permitiu):

“As coisas não são tão simples assim… Tão preto no branco”.

“Ele mudou da água para o vinho”.

Uma vilã mal cheirosa que gosta de gatos!

Um torturado que sabe que vai sofrer muito mas tem tempo de fazer uma gracinha: “Se vocês tratam assim quem é bem vindo, imagine o que fazem com quem não é…”

“Nos conhecemos há apenas algumas horas, mas é como se fossem décadas…”

Isto ou aquilo é a cereja do bolo (pelo menos três vezes ao longo do livro!!!!)

Situação de adultério com o jardineiro (!) justamente no dia em que o marido desatento e que só pensa no trabalho resolveu surpreender, pela primeira vez, sua mulher chegando mais cedo em casa com um buquê de flores.

“Adorava brincar de Deus”.

“Perseguir meus fantasmas”.

“Silêncio ensurdecedor” (esse é inacreditável, não é mesmo?)

“Drástica virada de cento e oitenta graus na minha vida” (não mais que essa, garanto)

“Esvaiu-se ao vento, tal qual um castelo de cartas”.

“Lugar errado, hora errada. Nada mais clichê”.

Essa última frase está no livro e, na minha opinião, resume bem o que esperar de 72 horas para morrer.

Minha Avaliação:

1 estrela em 5

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4 Respostas para “Resenha – 72 Horas para Morrer – Ricardo Ragazzo

  1. Tirando o Galera, Hatoum e a Ana Paula, só tive decepção ( até agora ) com brasileiros contemporâneos. É uma vontade absurda de ser Best-Steller absurda. Chega a irritar.

    Por conta disso, temos historias meia-boca, como essa e tantas outras…

    • Gustavo, só hoje vi seu comentário, acredita? Escapou-me na época. Se você não leu Marçal Aquino, leia. É espetacular. E se não leu Cristóvão Tezza, leia também. Dificilmente você vai se decepcionar.

  2. Pingback: Resenha – Dias Perfeitos – Raphael Montes | Catálise Crítica

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